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Paulinho da Viola, em duas horas, mostra 50 anos de samba

Compositor portelense cantou seus grandes feitos e narrou histórias memoráveis em show neste sábado em SP

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2014 | 16h41

O Paulinho da Viola que canta não é o mesmo que fala. São dois homens com tempos e narrativas diferentes, por mais que queiram chegar sempre ao mesmo lugar. Um se entrega e o outro se acanha. Um diz tudo de olhos fechados e um violão nas mãos enquanto o outro quer dizer tudo só com olhos para nem precisar falar. O Paulinho que canta chega primeiro. Não joga uma respiração fora, não desperdiça uma vírgula, declamando uma poesia que arrebenta os limites do próprio samba que lhe dá vida para virar, de novo, palavras. Afinal, o que importa a genialidade da sequência harmônica de uma música quando sua letra diz “te mostro a vida pra mudar o teu sorriso. Te dou meu samba com vontade de chorar”? Qual é mesmo a melodia de Prisma Luminoso, de 1983, que diz “lágrima é água, é puro sal. E foi desse cristal que a vida começou no mar. Viver é tempestade e calmaria. Sofrendo a gente aprende a navegar um dia”?

O segundo, o do violão, vem do primeiro, o da Viola. Paulo Cesar Batista de Faria, 71, é capaz de contar com a doçura dos avós sobre uma visita que fez a uma livraria em um final de tarde no Rio de Janeiro. Seus períodos são longos, suas notas se atropelam e podem até sair do tempo, mas ele sempre retoma para atingir o sublime que faz existir na narrativa de uma simples volta no quarteirão. Este Paulinho pensa sem cansar, a ponto de mudar um samba mil vezes antes de gravá-lo e, mesmo depois, ainda buscar um acorde novo. É também este o Paulinho cada vez mais recluso, entre violões e bandolins machucados que ganham pinho novo em sua marcenaria particular. O mesmo homem que subiu ao palco da casa de shows HSBC, na noite do sábado, 1º, para juntar-se ao primeiro em um passado de 50 anos de estrada que ele mesmo não vê passar.

Às 22h25, 25 minutos depois do combinado, as cortinas se abriram. Sentado sozinho, violão no colo e cavaquinho no cavalete ao lado, começou a contar sua história com a música 14 anos, época em que, menino, via Jacob do Bandolim afinar o instrumento na sala de sua casa olhando para ele com um prazer silencioso que dizia “está ouvindo, garoto, como o som está ficando bom?”. Seu pai, Cesar Faria, violonista do Época do Ouro, jamais diria mesmo o que a letra entrega: “Sambista não tem valor nesta terra de doutor”. De qualquer forma, diz Paulinho, o seu pai tinha razão. Não deve ser por acaso que o bloco de abertura rápido segue por Coisas do Mundo, Minha Nega, dizendo lá pelo fim: “Hoje eu vim, minha nega, sem saber nada da vida, querendo aprender contigo a forma de se viver. As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”.

A Portela aparece logo em seu livro de memórias em forma de árvore. Jaqueira da Portela, de Zé Keti, é o tipo de samba que pega Paulinho pelas cordas. Há muita tristeza ali, mas ao mesmo tempo a exaltação toda que dá vida ao bairro de Madureira. A jaqueira centenária é cortada diante de um sambista que chora ao lembrar das vitórias da escola que ela acompanhou. “Eu quero morrer sambando assim que nem ela, minha fiel jaqueira.” O voto de fidelidade de Paulinho à Portela o fez construir toda a sua carreira em torno da quadra azul e branco. Ao contrário das extravagâncias de Gil, Caetano, Milton ou Djavan, ele não parece precisar de vida própria com projetos e discografia farta que o sustentem. Sem lançar disco novo desde Bebadosamba, de 1996, encontra o que quer na Portela. E vice-versa.

Mas, por uma vez, Paulinho chutou o pau do barracão, mesmo sem querer, e tudo quase veio a desabar. É ele quem lembra antes de cantar Sei lá, Mangueira. Estava na casa de Hermínio Bello de Carvalho vendo letras novas que o amigo mostrava quando se deparou com esta. Enquanto lia, a música vinha junto e, quando percebeu, já tinha tudo pronto, letra e música. Hermínio agradeceu e, sem avisar, inscreveu o samba em um festival da canção de São Paulo. Paulinho, presidente da Ala de Compositores da Portela, se desesperou. “Vão querer me matar”. Tentou cancelar a inscrição, mas não tinha jeito. A música foi um sucesso, gerou mal estar na azul e branco, mas Paulinho logo pagaria sua conta pela traição com seu samba de maior sucesso: Foi um Rio que Passou em Minha Vida.

O pianista e arranjador Cristóvão Bastos fez ao piano, com o flautista e saxofonista Mario Sève, Inesquecível, um tema instrumental de Paulinho dedicado a Jacob do Bandolim. E vieram Dança da Solidão, Argumento, Bebadosamba, Retiro (com Paulinho dividindo vozes com a filha Beatriz Rabello, prestes a lançar disco), Coração Leviano, Roendo as Unhas (com sua harmonia circular de impacto impressionante) e Timoneiro. Um bis incluiu Não Quero Mais Amar a Ninguém (de Cartola) e Sinal Fechado, antes do choro que Paulinho tocou recolocando toda a história em seu ponto de partida: a sala de sua casa, ouvindo o pai tocar com o Época de Ouro.

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