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Paul McCartney será ouvido enquanto houver Humanidade

Pouco se fala da genialidade do músico, esteta e criador de lendas urbanas. Começando pela última: fez meio mundo acreditar que ele havia morrido. Sem Twitter, Facebook ou WhatsApp

João Marcello Bôscoli , Especial para O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2017 | 07h00

Em 1993, eu estava indo para o litoral quando ouvi no rádio o Paul McCartney, o próprio, fazendo divulgação do seu concerto em São Paulo. Fiquei pasmado. Sabendo das vendas de ingressos abaixo das expectativas, cancelou seu dia de folga e, com a sede de um iniciante, foi a campo chamar seu público. Até achei por uns instantes que era um trote. Claro, dei meia volta e fui ao show. Inesquecível.

Dezenove anos depois, meu amigo e produtor associado Sérgio Gomes, fã do Beatle, participou de um concurso promovido pelo Fantástico (TV Globo) cantando Something do George Harrison e... ganhou!

Lá foi ele ver a passagem de som – durou incríveis duas horas –, e tirar uma foto abraçado ao Paul. Sérgio flutua até hoje. Ah! No mesmo dia o espetáculo – sim, é um espetáculo lato sensu –, durou três horas. Cinco horas de música em um único dia aos 70 anos? De fato, não sei como ele faz isso.

Semanas depois dessa experiência, chegou a fotografia vinda da MPL (produtora do artista) com instruções de (não) uso e carimbo oficial para “o Sérgio”.

Lennon & McCartney poderia estar escrito em um carro, relógio, chá, perfume, escritório de arquitetura, satélite, café, roupa ou laboratório farmacêutico. Qualquer coisa, com essa marca, torna-se mágica. Para nossa sorte está em canções. Aliás, nenhuma música dos Beatles é só do Lennon ou só do McCartney. É tudo dos dois. E de Deus. E de nós.

Pouco se fala da genialidade do músico, esteta e criador de lendas urbanas Paul McCartney. Começando pela última, a partir de fotos e boatos, fez meio mundo acreditar que ele havia morrido. Sem Twitter, Facebook ou WhatsApp. 

Seguindo: muito da estética dos Beatles – capas, filmes, roupas, conceitos visuais, planos de divulgação ou silêncio –, vêm do Paul. Embora John Lennon, um gênio, fosse casado com uma artista plástica, trafegasse e tivesse intimidade com esse universo, quem sempre trabalhou duro segunda de manhã, quem construiu o império e o governa até hoje é Sir James Paul McCartney.

Por último, o músico. Nem falarei dele como arranjador, produtor e homem de estúdio. Refiro-me, por exemplo, ao baixista de Liverpool que, fascinado por James Jamerson (Motown), influenciou o incomparável Jaco Pastorius. Macca toca guitarras, violões, teclados e baterias como um nativo de cada instrumento. Escolhendo qualquer um deles, viveria disso e estaria entre os grandes.

Balzac poderia escrever 88 histórias sobre Paul e a Música.

E sabe qual o maior sucesso de toda carreira de Michael Jackson na Billboard? Não, não é Thriller ou Billie Jean. É Say, Say, Say, composta e interpretada por Jackson & McCartney. E o local onde filmaram o clipe, hoje, é Neverland.

E se não bastasse tudo isso, Paul é um tremendo boa-praça e muito, muito educado. Em 2001, ele foi assistir ao Ivan Lins no Blue Note, em Nova York. No final, ficou na fila e não houve quem o convencesse a ir direto ao camarim. Quarenta minutos na fila com leveza e humor.

Ainda bem que existe o Stevie Wonder para me lembrar que o Paul McCartney é um ser humano. E enquanto houver um ser humano na Terra, ele será ouvido.

P.S.: Aposto um Aston Martin que a levada genial de bateria de Come Together é criação do Paul e não do Ringo Starr. 

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