Mathieu Belanger | Reuters - 20|7|2008
O cantor e compositor Paul McCartney, em apresentação no Canadá Mathieu Belanger | Reuters - 20|7|2008

O cantor e compositor Paul McCartney, em apresentação no Canadá Mathieu Belanger | Reuters - 20|7|2008

Paul McCartney faz 80 anos: Veja 10 fatos sobre o ex-Beatle, uma lenda da música mundial

Desde o encontro com John Lennon até a separação dos Beatles, passando por seu casamento com Linda e sua carreira solo

Uesley Almeida Duraes , Especial para o Estadão 

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O cantor e compositor Paul McCartney, em apresentação no Canadá Mathieu Belanger | Reuters - 20|7|2008

Neste sábado, dia 18 de junho, o astro do rock britânico, Paul McCartney, completa 80 anos de idade. Para celebrar a data, reunimos 10 fatos que marcaram sua vida. Desde o encontro com John Lennon até a separação dos Beatles, passando por seu casamento com Linda e sua carreira solo. 

Dono de uma personalidade marcante e composições que fizeram parte da vida de pessoas nos quatro cantos do mundo, Paul é considerado um dos mais importantes artistas da música de todos os tempos. Para se ter dimensão, em 1979, o britânico recebeu uma menção no livro de recordes, o Guinness, como  o compositor musical de maior sucesso da história da música pop mundial. Ele ainda conta com mais 21 recordes no livro, desde mais discos vendidos até o maior público em um concerto de rock, no Maracanã em 1990. 

Entre conquistas, amores e dores, Paul se consolidou como gênio da música. Contudo, poucos se dão conta da particularidade do seu início na arte. 

1 - Morte de sua mãe

Quem enxerga as glórias nestes 80 anos da lenda pouco sabe sobre seu pontapé inicial na música, que aconteceu após uma grande perda. Com apenas 14 anos, ainda em Liverpool, o jovem Paul se deparou com a morte de sua mãe, Mary.  A senhora McCartney faleceu tentando conter um câncer no seio. Ela foi vítima de uma embolia após a mastectomia.  A morte precoce de sua mãe despertou sentimentos ainda não conhecidos pelo adolescente. Tanto  que, um ano mais tarde, compôs sua primeira música para dedicá-la. A faixa, intitulada I Lost My Little Girl, marca o início de um legado dourado na vida de Paul. 

 

2 - Primeira música 

Ainda com quinze anos, e recém imerso na música, Paul passa a frequentar shows em sua cidade. Nessas andanças, no subúrbio de Liverpool, ele conhece John Lennon e sua banda: Quarrymen. O grupo antecedeu os Beatles. A entrada de McCartney no grupo aconteceu após um convite de John, que, assim como Paul, havia perdido sua mãe muito cedo. Desse modo, criando uma conexão forte entre os dois. Com notório talento interpretando a música Twenty Flight Rock de Eddie Cochran, Paul ganhou a confiança de Lennon e os demais componentes do grupo. 

 

3 - União com Lennon

Após várias mudanças de nome, a banda Quarrymen se tornou Beatles. Com o amadurecimento musical de Paul e Lennon, as composições começaram a ganhar dimensões jamais imaginadas. A partir daí, a dupla passou a assinar juntos todas as músicas com ‘Lennon/McCartney’.


4 - Primeiro trabalho solo 

Em 1966, no auge dos Beatles, o grupo decidiu parar de fazer apresentações ao vivo. Isso abriu precedentes para Paul ser o primeiro artista da formação a lançar trabalho solo. Lançamento este que integrou a trilha sonora do filme televisivo The Family Way. Pela produção, o músico venceu o prêmio Ivor Novello como melhor tema instrumental. A atitude já dava indícios do que poderia acontecer se a banda fosse desintegrada, algo que aconteceria anos mais tarde. 

5 - Vida amorosa

Agora, deixando um pouco de lado a brilhante carreira de Paul e entrando na conturbada e curiosa vida amorosa da artista, pontuamos alguns relacionamentos do artista, e contamos, de acordo com sua biografia Paul McCartney: Many Years from Now, de Barry  Miles, como conheceu Linda McCartney. Durante esses 80 anos, Paul teve alguns relacionamentos. Antes de conhecer Linda, ele era noivo de Jane Asher. Permaneceram juntos por três anos,  até a ex-companheira o encontrar na cama com outra mulher. Segundo o Ultimate Classic Rock, em 1967, McCartney foi a um clube em Londres acompanhado de Brian Epstein e lá encontrou Linda Eastman, popular no cenário do rock, fotografando para o livro Rock And Other Four-Letter Words. Detalhes dão conta de que foi uma paixão arrebatadora. Desse modo, após flertes e encontros, um ano depois, Linda e Paul se casam. A parceira da vida, anos mais tarde, ainda seria a responsável por integrar uma aventura junto a Paul, a banda Wings

6 - 'Sir' McCartney

Agora, uma nobre curiosidade. Lá no ano de 1967, Paul foi o primeiro integrante dos Beatles a receber o título de Sir pela Rainha. O reconhecimento se deu devido ao momento especial que Paul e o grupo estavam vivendo. Com a condecoração, aquele que tinha crescido no subúrbio de Liverpool, filho de operários,  passa a fazer parte da nobreza monárquica.   

7 - Desavenças e separação dos Beatles

Quem pensa que a relação de Paul e John se resume a cumplicidade e grandes colaborações se engana. Com a morte de Brian Epstein, ainda em 67, a dupla atiçou um conflito voraz pela liderança da banda. Na hora de compor, discussões, nas audições, intrigas, no momento da escolha de um novo empresário para a banda, briga. Foi assim durante algum tempo. Internamente até houveram tentativas de tornar aquele grupo unido novamente. Por sugestão de Paul, eles gravaram o documentário Let It Be, para se reconciliarem. Não deu muito certo. A partir de tantas desavenças, a situação da banda passou de brilhante para insustentável, e, em 1970, Paul McCartney dá início a sua, não menos reluzente, carreira solo. Durante esse período, Paul foi chamado de traidor nas entrelinhas pelos outros integrantes.  Em uma entrevista à BBC Radio, Paul ainda admitiu ter mergulhado no álcool e quase ter desistido da carreira após o término do grupo.  

8 - Carreira solo e os Wings

Após o início da carreira solo e o lançamento de seu disco solo, o Ram, em 1971, Paul decidiu se empenhar em um novo projeto, a banda que formaria com Linda, os Wings. Mesmo sem ter grandes experiências instrumentais, Linda McCartney  decidiu se entregar ao desafio. Isso trouxe uma enxurrada de críticas a ela. O peso de estar ao lado de Paul numa nova banda era imenso. Além do casal McCartney, Denny Laine também era integrante fixo do grupo. 

 

 

9 - Morte de Linda

Por um cruel requinte do destino, Linda McCartney, assim como a mãe de Paul, também sofreu com um câncer de mama. Sua companheira não aguentou a doença e faleceu em 1998. Em outra entrevista marcante para a BBC em 2019, Paul afirmou ter chorado durante um ano após a morte de sua companheira. Com a fotografa, Paul teve três filhos.

10 - Lutas e causas

Outra curiosidade sobre McCartney é sua proximidade com causas sociais. O ex-beatle é defensor dos direitos dos animais e a favor do vegetarianismo. Desde antes da morte de Linda ele já seguia essa filosofia. O músico também é um forte crítico da agroindústria e do uso de fertilizantes e pesticidas. Em conversa com o jornal britânico Daily Mirror ele comentou sobre suas plantações em sua fazenda no interior do Reino Unido em que cultiva desde trigo e peras até maconha. Tudo 100% orgânico, segundo ele.  Além da proximidade com a causa animal, Paul também é entusiasta do ensino da música para todos e contra o uso de minas terrestres. 

As informações apuradas aqui, foram retiradas, em grande parte, da biografia oficial de Paul em Paul McCartney: Many Years from Now, livro de 1998, que, segundo Barry Miles, foi fruto de intermináveis horas de entrevista durante cinco anos. No entanto, por ser uma das pessoas mais populares do mundo, Paul é vulnerável a histórias tendenciosas. Ao ser questionado, em 2019, por Julio Maria, do Estadão, sobre as inúmeras versões de biografias e filmes seus, ele exclamou:

“Eu sempre leio coisas surreais e sem noção sobre mim mesmo. As pessoas escutam uma versão e a repetem sem nenhuma evidência. A história é inteiramente baseada nisso. Eu prefiro muitas vezes não ler, mas quando leio escrevo para o biógrafo e digo: 'Hey cara, isso é completamente irreal'. Li alguns trechos de um livro novo sobre mim e a história estava completamente errada. O meu tempo é muito precioso para eu me aborrecer com as coisas que eles escrevem”, pontua Paul.

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Eu sempre leio coisas surreais e sem noção sobre mim mesmo
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Paul McCartney, Músico em entrevista ao 'Estadão', em 2019

 

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Como os Beatles fizeram o que fizeram? Paul McCartney finalmente nos conta

Em 'The Lyrics: 1956 to the Present', Paul comenta as letras que compôs para os Beatles e em outros momentos da carreira

David Kirby, The Washington Post

03 de novembro de 2021 | 15h00

O básico da história dos Beatles todo mundo conhece: o cínico John conhece o despreocupado Paul, depois vem George e, mais tarde, Ringo se junta a um grupo que estoura música atrás de música por um período muito breve, até que a melhor máquina de fazer sucessos do mundo explode numa confusão de disputas pessoais e de negócios. E ainda assim, como Adam Gopnik apontou num artigo da New Yorker de 2016, “permanece algo misterioso, e essa coisa misteriosa, como sempre na vida dos artistas, é o jeito como eles faziam o que fizeram”.

Até agora. Com a publicação de The Lyrics: 1956 to the Present, uma enorme coleção de dois volumes de todas as letras que Paul McCartney compôs durante seus dias de Beatles e depois, finalmente sabemos de onde vieram as músicas (pelo menos as que ele fez sozinho ou em parceria). Ou digamos que agora sabemos o máximo que saberemos: os comentários de McCartney sobre cada uma dessas 154 canções que ele compôs por conta própria ou com um parceiro como John Lennon – ou, mais tarde, Linda McCartney – são generosos, mas também informais, o que significa que são íntimos, mas incompletos.

Ler The Lyrics é como estar na cozinha de um chef enquanto ele prepara um prato, adicionando um pouco disto e uma colher daquilo e falando conosco de um jeito tão cativante que é só tarde demais que percebemos que ele ocultou um ingrediente – ingrediente que, por estar tão profundamente enraizado em si mesmo, ele nem sabia que estava ocultando.

Mas vamos ao que ele nos diz. Primeiro, ele deve tudo aos artistas negros. “Para deixar tudo bem claro”, diz McCartney, “em tudo que já fiz – nos Beatles, Wings, solo – tem uma corrente de música negra. Você pode dizer que é o blues, mas também pode ser soul”. Até mesmo os intérpretes brancos nos quais os Beatles se basearam no começo da carreira, um grupo que abrange Elvis, Buddy Holly e Jerry Lee Lewis, foram todos influenciados por músicos negros como Chuck Berry e Little Richard, então “esta é definitivamente a base de quase tudo que fiz”.

Em seguida, o negócio é trabalhar com – e roubar de – gente boa. Apesar de seus amargos confrontos no final da carreira, Paul deixa claro o quanto foi divertido compor com John. Mas ele também aponta a importância das influências do produtor com formação clássica George Martin, de seu pai trompetista de jazz, Jim, e de seu professor de literatura do ensino médio, Alan Durband. No que diz respeito aos roubos musicais, McCartney confessa que os Beatles roubaram as harmonias vocais dos Beach Boys, mas que “eles também estavam roubando de nós, claro. Todo mundo estava roubando de todo mundo. A coisa toda tinha muita circularidade”.

Dito isso, seja você mesmo. O conhecimento de Jim McCartney sobre os clássicos do teatro de revista britânico moldou todo o álbum Sgt. Pepper e muitas outras canções dos Beatles. Mas, quando ele reclamou dos americanismos que se infiltravam no inglês de Sua Majestade e sugeriu que os rapazes usassem a palavra yes no refrão de She Loves You, os quatro músicos se mantiveram firmes, e o resultado foi seu single mais vendido no Reino Unido. (Você consegue imaginar alguém cantando uma música que começa com “She loves you Yes, yes, yes”?).

Mas não importa quanto você seja inventivo, tente manter os pés no mundo real. Use uma linguagem comum: “She loves you”, por exemplo. “Gosto de usar frases comuns e colocá-las em algum tipo de contexto em que pareçam incomuns”, diz McCartney, acrescentando: “Acho que muitas pessoas criativas fazem isso”. Afinal, a ideia era “fazer com que mais e mais pessoas gostassem de nós”. É por isso que tantas das primeiras canções têm pronomes pessoais nos títulos: Love Me Do, Please Please Me, I Want to Hold Your Hand e From Me to You (sobre a qual ele observa: “conseguimos botar dois pronomes nessa!”).

The Lyrics, editado e apresentado pelo poeta Paul Muldoon, não é o primeiro livro desse tipo e certamente não foi o primeiro a mergulhar na história e nas letras da banda. Há também, por exemplo, All the Songs: The Story Behind Every Beatles Release (2014), uma compilação robusta dos historiadores da música Jean-Michel Guesdon e Philippe Margotin, que comentam detalhadamente cada álbum e single em ordem cronológica, fazendo da obra a melhor escolha para os fãs que desejam acompanhar todo o desenvolvimento da banda. A maioria das 213 canções de All the Songs foi escrita pela dupla de compositores Lennon e McCartney, embora algumas sejam atribuídas a George Harrison e Ringo Starr, enquanto outras são covers de sucessos de outros artistas, como Long Tall Sally, de Little Richard. O que falta, claro, é a voz de McCartney, seu charme e seu ponto de vista isso-é-o-que-aconteceu-no-estúdio-naquele-dia.

Ambos os livros são ricamente ilustrados, embora The Lyrics consiga acumular muito mais coisa – como pôsteres, listas, notas manuscritas, fotos encenadas e casuais. E embora All the Songs possa trazer mais fatos, não há nada como ouvir Macca (como McCartney era conhecido em seus tempos de Liverpool) falar sobre a ascensão de uma banda composta por adolescentes da classe trabalhadora que mudaram o mundo para sempre. “Há uma certa alegria... na pobreza”, diz ele refletindo sobre seu eu mais jovem, “porque você não tem nada e, a partir daí, cria todos os tipos de cenários interessantes”.

Quase sessenta anos depois, ainda é uma história incrível. Os comentários de McCartney sobre All My Loving começam com os quatro numa turnê de ônibus com Roy Orbison e outros músicos e termina com a aparição da banda no The Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro de 1964, um evento assistido por 73 milhões de pessoas, entre elas algumas que você não esperaria: “Reza a lenda que o índice de criminalidade também caiu naquela noite: até mesmo os ladrões estavam assistindo”. Os Beatles tinham conquistado a América, tomando todos os cinco primeiros lugares nas paradas da Billboard em questão de dias. E a última frase desse capítulo diz: “Alguns meses depois, fiz vinte e dois anos de idade”.

Outros deuses do rock, como Bruce Springsteen e Eric Clapton, escreveram memórias em idades muito mais jovens, mas McCartney estava sempre muito ocupado em turnês ou, bom, compondo canções – “a hora certa nunca chegava”, diz ele no prefácio. Felizmente, outras cabeças prevaleceram e, por um período de cinco anos, Muldoon o entrevistou por horas e lhe arrancou esses comentários encantadores.

Quanto ao mistério de como ele fez tudo isso, talvez não seja uma coisa tão misteriosa assim. A receita talvez seja trabalhar com (e não deixar de roubar das) as melhores pessoas e depois se dedicar bastante. As canções não se compuseram sozinhas, mas, depois de um tempo, elas fluem tão suavemente da cozinha do chef Paul que quase parece que sim. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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Paul McCartney: 'John Lennon foi responsável pelo fim dos Beatles'

O músico, tido como o responsável pela separação dos Beatles, falou à BBC em entrevista ainda inédita

Danika Kirka, AP

11 de outubro de 2021 | 08h16

Paul McCartney revisitou o rompimento dos Beatles, contestando categoricamente a sugestão de que ele teria sido o responsável pelo fim da banda.

Em depoimento ao episódio This Cultural Life, da BBC Radio 4, que vai ao ar no dia 23 de outubro, Paul McCartney disse que foi John Lennon que queria separar o grupo.

“Eu não instiguei a separação”, disse McCartney. “Foi o nosso Johnny.”

Os fãs da banda têm debatido por muito tempo quem foi o responsável pelo rompimento dos Beatles, e muitos culparam McCartney. Mas ele disse que o desejo de John Lennon de “se libertar” foi a principal causa por trás do rompimento.

A confusão sobre a separação aumentou porque seu empresário pediu aos membros da banda que ficassem quietos até que ele concluísse uma série de negócios, disse McCartney.

A entrevista se antecipa ao documentário de seis horas de Peter Jackson. The Beatles: Get Back, com lançamento previsto para novembro na Disney +, certamente revisitará a separação da lendária banda. Os comentários de McCartney foram relatados pela primeira vez pelo The Observer.

Quando questionado pelo entrevistador John Wilson sobre a decisão de seguir sozinho, Paul McCartney respondeu: “Pare bem aí. Não fui eu quem instigou a separação. Oh não, não, não. John entrou em uma sala um dia e disse: ‘Estou saindo dos Beatles’. Isso está levando à separação ou não? ”

McCartney se mostrou triste a respeito da separação, dizendo que o grupo ainda estava “fazendo coisas muito boas”.

“Aquilo era a minha banda, o meu trabalho, a minha vida. Então, eu queria que continuasse”, McCartney disse.

 

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Paul McCartney acena às novas gerações com 'McCartney III Imagined'

Álbum original lançado em dezembro de 2020 foi entregue para que cada artista refizesse uma faixa como bem entendesse; resultado é oscilante, mas as boas investidas pesam mais

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 10h00

Um pouco mais de três meses depois de lançar seu mais recente álbum, McCartney III, Paul McCartney volta à cena com uma bem pensada ação fonográfica. McCartney III Imagined parte de um princípio simples mas pouco utilizado em grandes lançamentos. O mesmo álbum que ele produziu solitariamente durante a pandemia, tocando todos os instrumentos e fazendo todas as vozes, ressurge com tratamentos diferentes para cada uma das faixas. McCartney, diz um texto enviado pela gravadora, escolheu ele mesmo os artistas aos quais entregaria cada uma das canções para que eles as arranjassem como bem quisessem. O resultado é oscilante, mas a proposta, como escreveu a revista Rolling Stones dos Estados Unidos, pode ser, em muitos momentos, “um exemplo para todos nós”.

Como o reverso de sua versão original lançada em dezembro de 2020, feita com Paul em isolamento assim como foram feitos os antecessores da trilogia McCartney, de 1970, em um doloroso período pós Beatles, e McCartney II, de 1980, depois do fim dos Wings, McCartney Imagined é o imaginário de um coletivo feito sem nenhum contato entre as partes. A curadoria feita pelo próprio Paul traz Beck na abertura do disco, retrabalhando Find My Way. A original tem uma proposta eletrônica em sua base que Beck radicaliza, abaixando um tom e tornando um pouco mais arrastada. A mudança em The Kiss Of Venus é mais profunda. O autor escolhido por Paul para seu remix é Dominic Five – e agora começamos a entender parte da proposta do beatle, analisando quem é quem nesse jogo em que as duas partes saem ganhando.

Dominic Fike é um rapper norte-americano de 24 anos, descendente de filipinos e que iniciou sua ficha policial aos 21 anos ao agredir a um guarda nos Estados Unidos. Mas nada disso importou à gravadora Columbia Records, que percebeu o poder de mobilização do garoto e o contratou por uma soma de U$ 4 milhões. Paul McCartney não é bobo. Estar ao lado de Dominic Five, por mais que as sutilezas de sua bela The Kiss Of Venus apareçam reconfiguradas sem as mesmas delicadezas, vale mais do que ter ao lado a colaboração de um contemporâneo. É preciso se conectar com as gerações que podem não saber mais quem foram os Beatles. E por mais que a ideia ainda pareça um absurdo, sim, esse dia pode chegar.

Existe mais coragem ainda na faixa seguinte, Pretty Boys, ressurgida experimental, fantasiosa e livre mesmo das métricas rítmicas de Paul. É como se a canção fosse estilhaçada e refeita com alguns de seus cacos. Mas um artista só pode ter a intenção de ouvir algo distante de si mesmo quando pede um remix ao trio norte-americano Khruangbin. O nome em tailandês significa avião, algo que passa a ideia de um som flutuante entre o psicodelismo, as culturas do Oriente Médio e o rock proposto por Laura Lee (baixo), Mark Speer (guitarra) e Donald DJ Johnson (bateria).

Paul inspirou-se em Johnny Cash para fazer Women And Wives, linda e dramática. A versão de agora aparece assinada pela cantora St. Vincent. Ela faz alguns contracantos, mas não altera a estrutura da canção. A voz de Paul conduz a música como se nada acontecesse a seu redor, transpassando sopros, guitarras e teclados que não mudam seu curso. É uma versão que não faz sentido, aprisionada ao excesso de respeito. Melhor seria revirar tudo, como fez Dominique, e trazer alguma informação sensorial nova além da original. O cantor e compositor Devonté Hynes é um exemplo ainda mais extremo de ousadia. Mais conhecido como Blood Orange, mas que também já foi Lightspeed Champion, é um produtor inglês que nasceu e foi criado em Ilford, a oeste de Londres, filho de mãe guianense e pai de Serra Leoa. Se foi Paul mesmo quem o escolheu, os sinais de suas antenas estão poderosos. Blood Orange desmonta sua canção Deep Down e cria outra, sem muitas referências da original.

Seize the Day, uma das mais conhecidas do álbum de Paul, vem bem preservada na voz de Phoebe Bridgers, uma cantora e guitarrista de 26 anos de Pasadena, Califórnia. Phoebe é a ponte com as frentes teen, e seu último álbum, lançado em 2020, tem faixas interessantes como Kyoto e I Know the End. Ela é melancólica e sua voz tem tristeza e sofrimento. Ao cantar, então, faz quase que um cover de uma canção que já tinha suas sutilezas. Mas Seize The Day ganha uma bela voz. Na outra ponta geracional, Ed O’Brien, de 52 anos, guitarrista do Radiohead, e o produtor Paul Richard Epworth, de 46, colocam fúria na canção Slidin’.

O londrino Damon Albarn, de Blur e Gorillaz, não fez nada marcante com Long Tailed Winter Bird. O tema original, que já não era dos mais inspirados, desaparece nas interferências de Damon. Ao final das duas audições, nem Paul nem Damon, dizem muito a que esse tema instrumental veio. Com Lavatory Lil foi diferente. Josh Homme, guitarrista e vocalista do Queens of the Stone Age, segue as pistas de Paul mas é outro ainda muito colado à ideia original. Enfim, a aventura de ‘colabs’ de Paul termina com Anderson P.aak fazendo When Winter Comes e o projeto 3D, do artista Robert Del Naja, do Reino Unido, interferindo em Deep Deep Feeling.

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Os Beatles no Cavern Club: Sessenta anos do concerto que mudou tudo

Grupo estreou em 9 de fevereiro de 1961 e cobrou cinco libras, que foram divididas pelos seus então cinco membros: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Pete Best (substituído depois por Ringo Starr) e Stuart Sutcliffe

María Muñoz, EFE

09 de fevereiro de 2021 | 09h30

Há 60 anos, os Beatles subiram pela primeira vez no palco do The Cavern Club, um local da sua Liverpool natal que deixaram dois anos e meio mais tarde e quase 300 shows depois, quando já estavam a ponto de se tornar o grupo mais famoso da história da música.

O grupo estreou no Cavern Club em 9 de fevereiro de 1961 numa sessão no meio do dia (lunch session), algo que alguns clubes parecidos ofereciam perto da hora do almoço. Os Beatles se apresentaram das 13h às 14h e cobraram cinco libras, que foram divididas pelos seus então cinco membros: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Pete Best - substituído depois por Ringo Starr na bateria - e Stuart Sutcliffe - que abandonou a banca pouco depois.

Os Beatles começaram nesse dia a sua longa residência no local do número 10 de Mathew Street - concebido originalmente como clube de jazz -, na qual esculpiram a sua identidade musical e prepararam o grande salto a uma fama descomunal.

Nove meses depois da estreia, o clube recebeu a visita de Brian Epstein, que foi ver os Beatles ao vivo depois de uma indicação de um cliente da sua loja musical.

Impressionado pela atuação, Epstein propôs à banda que fosse representada por ele.

É atribuída a Epstein a saída de Pete Best e a mudança estética dos integrantes, que mudaram os seus casacos de cabedal por fatos e gravatas; mas, acima de tudo, conseguiu um contrato discográfico para o grupo.

O The Cavern Club tornou-se assim no palco de um encontro que marcou a história da música moderna.

Os Beatles tornaram este local um santuário, deixando cerca de 300 concertos, entre as atuações de dia e à noite, frente a um público cada vez maior e enfebrecido, percursor da beatlemania que se estendeu pouco depois por todo o mundo.

A última aparição dos ídolos locais no seu clube de referência aconteceu a 3 de agosto de 1963, poucos meses antes de embarcarem na conquista dos Estados Unidos.

Os Beatles já tinham então publicado o seu primeiro álbum, conseguido os seus primeiros números um (Please please me, From me to you) e estavam a ponto de conquistar o mundo com She loves you e o irresistível iê iê iê! desta agora icônica canção.

Longe de Liverpool, a banda trocou aquele palco em forma de caverna da sua cidade natal pelos grandes estádios, onde se reuniram milhares de pessoas nos primeiros grandes concertos da história do rock.

Testemunha da ascensão dos Beatles à fama e depois de ter sobrevivido a vários períodos fechado e a uma demolição, o Cavern Club tornou-se um epicentro de turismo musical em Liverpool, e mantém a sua essência com atuações de novos talentos musicais e de bandas de tributo.

Em janeiro de 1997, uma estátua de John Lennon passou a figurar na entrada do local, que em 2018 acolheu um show de Paul McCartney, que durante duas horas voltou a cantar em cima do icônico palco.

Atualmente, e como consequência da pandemia, a mítica sala luta por sobreviver, e como assegurou em agosto Bill Heckie, um dos diretores do clube, à BBC, as medidas sanitárias impostas pelo Reino Unido levaram a sala a perder cerca de 30.000 libras semanais (33.110 euros).

 

 

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Mick Jagger ataca Paul McCartney: 'Os Stones ainda tocam em estádios, os Beatles não existem mais'

Em uma surpreendente resposta à frase de Paul, de que os Beatles eram melhores do que os Rolling Stones, o vocalista de 76 anos delimita um território delicado aos dois grupos

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 18h35

Mick Jagger chegou como uma voadora de dois pés no peito de Paul McCartney na rusga talvez mais séria em muitos anos entre os dois Mamutes do rock mundial. Mick rebateu nessa sexta-feira, 24, um comentário recente de Paul quando respondia à pergunta “afinal, quem foi o melhor? Beatles ou Stones?” Paul disse que os Beatles e pode ter se perdido um pouco na justificativa de sua resposta. Ou não, dependendo do ponto de vista. Ele disse uma verdade: “A raiz deles (dos Stones) é o blues, enquanto os Beatles tinham “um pouco mais de influências.” Mas uma verdade que pode ser facilmente interpretada como arrogância ou desmerecimento ao sagrado blues, que também deu tantas alegrias e sedimentou uma das pistas sonoras aos Beatles. O pior foi a parte de acusação de cópia, a pior ofensa no meio artístico: “tudo que fazíamos, os Stones meio que faziam igual logo em seguida.”

Mick Jagger falou em entrevista à Apple Music (via NME) – nada a ver com a Apple dos Beatles – para promover o novo single Living in a Ghost Town, a primeira faixa inédita dos Stones em oito anos. O roqueiro primeiro amenizou dizendo que nunca houve competição, mas subiu dois tons na mesma sentença. “Isso é tão engraçado. Ele (Paul) é um querido. Obviamente não há uma competição. A grande diferença, falando sério, é que os Rolling Stones são uma grande banda de shows desde outras décadas enquanto os Beatles nunca sequer fizeram uma turnê de arenas, um Madison Square Garden com um sistema de som decente. Eles acabaram antes de o negócio começar, o verdadeiro negócio das turnês.”

Mais do que picuinha de compadres, as desavenças delimitam pela primeira vez pelos próprios personagens da história, e só depois de 50 anos do fim dos Beatles, o calcanhar de Aquiles dos dois grupos. Assim como Paul dizendo que os Beatles tinham mais informações musicais do que o blues (talvez fosse educado dizer entre alguma palavra e outra a frase “com todo respeito ao blues” e também lembrar o quanto dessas informações lhes chegaram via George Martin), Mick Jagger tocou na ferida. Os Beatles pararam de aparecer em público depois do show de 29 de agosto de 1966, no estádio Candlestick Park, em São Francisco (EUA), quando sentiram que sequer precisavam mais tocar. Diante de suas imagens, as garotas gritavam e desmaiavam em um frenesi descontrolado que impedia que os músicos se ouvissem no palco.

Mick segue falando e cita outro show, o do Shea Stadium, em Nova York, onde os Beatles se apresentaram em 1965 e em 1966. “Esse negócio (os shows) começou em 1969 e os Beatles nunca tiveram essa experiência. Eles fizeram um baita show, e eu estava lá, no Shea Stadium. Eles fizeram aquele show em estádio. Mas os Stones seguiram em frente. Nós começamos a fazer shows em estádios nos anos 70 e ainda fazemos agora. Essa é a verdadeira grande diferença entre essas duas bandas. Uma banda é inacreditavelmente sortuda ainda tocando em estádios e a outra banda não existe mais.” Como debater Beatles e Stones é tão conclusivo quanto discutir Alcorão e Torá, o assunto não tem fim, mas Mick Jagger e Paul McCartney acabaram de reacender uma pira adormecida.

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Como foram as muitas despedidas dos Beatles

Foram várias separações dos Beatles, mas o momento zero seria o abandono das excursões, em 1966

Carlos de Oliveira/Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2020 | 06h00

Muito difícil reproduzir o último dia dos Beatles. Ao longo de 18 anos de existência (e de apenas 8 de sucesso planetário), a banda experimentou vários últimos dias. Explica-se: o mesmo gênio que no dia 6 de julho de 1957 uniu John Lennon e Paul McCartney, criando a mais talentosa dupla de compositores da história do rock, também plantou entre eles a semente da disputa, do ego inflado, da discórdia, da raiva e do desenlace.

Para o público externo, os Beatles, mais do que músicos competentes, eram ídolos, quatro bons garotos sorridentes do norte da Inglaterra, companheiros e amigos. Tudo isso foi mais ou menos verdade até agosto de 1966, quando George Harrison, John Lennon e Ringo Starr decidiram que a banda não mais iria se apresentar em público. Estavam exaustos. Paul, entusiasta das excursões, foi voto vencido.

Se antes de 1966 eventuais desentendimentos eram resolvidos com a mediação do empresário Brian Epstein e do produtor George Martin, nos anos seguintes o ressentimento passou a ser um elemento a minar as relações da banda. Os contrastes musicais e pessoais entre Paul e John cresciam. George e Ringo, até então meros coadjuvantes, passaram a reivindicar mais espaço nos álbuns e quase nunca eram atendidos. A soberba imperava. Os Beatles começavam a acabar.

Como em qualquer relacionamento, nada acaba de repente, mas no convívio diário, nos pequenos detalhes. Assim, o fim dos Beatles foi uma longa e triste agonia. Fixar o 10 de abril de 1970 como a data em que a banda se separou é só uma formalidade de calendário. Os quatro músicos ainda experimentariam várias separações.

Naquele 10 de abril de 1970, numa boa jogada de marketing, Paul anunciou sua saída dos Beatles e aproveitou para anunciar o lançamento de seu primeiro álbum solo, intitulado McCartney. John Lennon não deixou a data passar em branco. “Tudo não passou de um golpe de Paul para promover seu disco e ganhar dinheiro.” A relação azeda entre ambos haveria de continuar por vários anos, 1975.

É bom lembrar que em setembro de 1969, ou seja, quase sete meses antes da decisão de Paul, John anunciara seu “divórcio” da banda, sendo temporariamente demovido da ideia para não empanar interesses comerciais do novo empresário da banda, o nova-iorquino avarento Allen Klein, queridinho de Lennon, George e Ringo, e desafeto figadal de Paul.

Antes disso, em meados de 1968, durante a gravação do Álbum Branco, certo de que o grupo estava insatisfeito com seu desempenho na bateria, Ringo jogou suas baquetas para o ar e foi velejar pela costa da Sardenha com o ator Peter Sellers. Paul assumiu a bateria e Back in the USSR é prova disso. Mais: no início de 1969, em plena gravação do álbum Let it Be, depois de uma discussão com Paul sobre um lick banal de guitarra, George levantou-se e foi embora. John foi frio e cruel. “Dane-se George, vamos chamar Eric Clapton.”

Se for possível traçar uma linha do tempo que explique a separação dos Beatles, o momento zero poderia ser o abandono das excursões em 1966. Em seguida, a morte de Brian Epstein, descobridor, divulgador, empresário e responsável por gerir a fortuna acumulada pela banda. No dia 27 de agosto de 1967, aos 32 anos, Epstein morreu de uma overdose de Carbitol, droga usada para combater a insônia. Sua morte foi um choque para os quatro beatles que, de repente, se viram sozinhos, desamparados.

Em fevereiro de 1968, em busca de paz e de alguma razão para tocar seus projetos, foram para Rishikesh, na Índia, meditar no ashram do guru Maharishi Mahesh Yogi. Paul e Ringo voltaram duas semanas depois, desencantados. O guru teria investido sexualmente contra uma de suas alunas. George, já bastante envolvido com a cultura indiana, e John, ficaram por mais algum tempo. O fato é que quando os quatro se reuniram novamente em Londres, já não eram mais as mesmas pessoas. A paz perseguida não existia e passaram a agir aleatoriamente, erraticamente.

Um exemplo: sem qualquer experiência em negócios, criaram a Apple Corps. Queriam um estúdio próprio, um espaço que juntasse música, artes plásticas, divulgação de novos talentos e happenings típicos dos anos 60. Para gerir a empresa, precisavam de um novo empresário. Paul, que já namorava Linda Eastman, optou pelo pai e pelo irmão dela. John, George e Ringo optaram por Allen Klein. Mais discórdia, provavelmente a mais nefasta delas.

Com obrigações contratuais com a EMI, na primavera de 1968 entraram em estúdio para a gravação do Álbum Branco (“o álbum da tensão”, segundo Paul) e os egos afloraram ao extremo. Não eram mais uma banda, mas quatro músicos preocupados exclusivamente com seu material. Para complicar a situação, John introduziu um novo elemento desagregador nos estúdios de Abbey Road: Yoko Ono.

Nunca jamais os Beatles haviam permitido a presença de estranhos em seu ambiente de trabalho. Dessa vez haveria de ser diferente. Apoiada por John, Yoko não apenas se instalou no estúdio, como começou a dar palpites nas músicas. A gravação do Álbum Branco foi marcada pelo desamor, a ponto de George e John saírem aos murros por um pacote de biscoitos digestivos.

Os biscoitos eram de George e Yoko pegou um deles sem autorização. Na sala de controle, George viu a “ousadia” de Yoko e lançou um alto e sonoro “vadia” (slut). Não percebeu que John estava logo atrás dele. Daí para os socos foi um pulo. Foram separados pelos técnicos, entre eles o engenheiro de som Geoff Emerick, responsável por transformar em realidade as propostas sonoras mais aparentemente descabidas da banda. Vale lembrar que durante as gravações do mesmo Álbum Branco, Emerick demitiu-se.

Em janeiro de 1969, apesar dos pesares, um novo projeto estava em gestação. A ideia era ocupar o frio Twickenham Film Studios e registrar os ensaios de um novo álbum a ser chamado Get Back, mas que acabou batizado de Let it Be. O gran finale seria um show ao vivo já agendado. Mas o desânimo era brutal e apenas Paul parecia ter algum entusiasmo.

“Não sei por que se envolveram nisso se não têm interesse. Por que vocês estão aqui? Eu estou porque quero fazer um show, mas não vejo nenhum apoio.” Se esperava alguma reação dos outros três, Paul perdeu seu tempo. Os ensaios, transformados no filme Let it Be, foram melancólicos, mas, de alguma forma, úteis. Possibilitaram a última apresentação pública dos Beatles, no teto do edifício da Apple, na Saville Row, em Londres.

Se o Álbum Branco foi o da tensão e Let it Be o da indiferença, Abbey Road foi o canto de um cisne já rouco e depenado. Para começar, John desaprovou a proposta de Paul, que queria tornar o lado B do disco um medley, ou seja, um conjunto de canções sem interrupções entre elas. Sua vontade foi atendida, sem antes muita discussão. John chegou a propor que suas músicas ocupassem um lado do disco e as de Paul, o outro. Mas havia duas canções magníficas de George: Something e Here Comes the Sun.

Por mais que lançassem balões de ensaios anunciando separação, os Beatles, de quando em quando, e individualmente, falavam na possibilidade de voltar a gravar e até mesmo de se apresentar ao vivo. Puro jogo de cena. Por trás disso tudo estavam os interesses financeiros de cada um, seus álbuns solos e a necessidade de encerrar as atividades comerciais da Apple, um voraz sorvedouro de dinheiro.

Em março de 1973, como Paul queria, John, George e Ringo romperam contrato com Allen Klein e moveram ações contra ele em Londres e Nova York. Foi o suficiente para que os quatro músicos decidissem cooperar com vistas a um verdadeiro acordo de rompimento.

Em dezembro de 1974, assinaram um documento chamado de Beatle Agreement. A dissolução formal, jurídica e definitiva deu-se no dia 9 de janeiro de 1975. Os negócios estavam desfeitos. Os Beatles acabavam. O sonho também.

Por mais contraditório que possa parecer, a expressão Beatles 4Ever resiste até hoje, 50 anos depois daquele simbólico 10 de abril de 1970. A cada ano os Beatles ressurgem em reedições de seus discos com novas mixagens, em livros, artigos ou em efemérides como os 50 anos de Sgt. Peppers, sem contar o projeto Anthology, nos anos 90. Em seus shows, ainda hoje Paul revive vários sucessos da banda. A morte de John (1980) e de George (2001) não apagou seus legados. E a razão é simples. O mundo amava (e ainda ama) os Beatles...bem mais do que eles próprios se amavam.

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Paul McCartney: 'É tempo de falarmos a verdade'

Aos 76 anos e prestes a voltar ao Brasil, o beatle fala ao 'Estado' sobre os tempos difíceis na política do mundo, cria sua banda de rock imaginária e reflete sobre ideologias, esquerdas, direitas, biógrafos e de sua insaciedade pelos palcos

Entrevista com

Paul McCartney

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2019 | 00h01

A voz era mais rouca que em Helter Skelter, sem os agudos de Oh, Darling nem a adolescência de A Hard Days Night. A gentileza na entonação soava a Hey Jude, mas algum cansaço remetia a dias de Let It Be. Uma vida inteira em uma frase dita às 13h35 da última quarta-feira, no momento em que o homem mais popular do planeta apanhou o telefone do assessor em seu escritório no Soho Square, em Londres, para falar com o jornalista antes de sua próxima vinda ao Brasil: “Olá, eu sou Paul McCartney”.

Os shows em São Paulo serão dias 26 e 27 de março, no Allianz Parque. Um terceiro será em Curitiba, dia 30 de março. Chile e Argentina também estão no roteiro. Paul começou a turnê The Freshen Up Tour menos de um ano depois de terminar a anterior, One On One, uma temporada quase grudada a Out There! Tour (2013 e 2014), que veio na esteira de Up and Coming Tour (2012-2013), que havia entrado no bonde seguinte a On The Run Tour (2011-2012). 

A sequência parece cansativa para um senhor que, embora teorias sustentem o contrário, se trata de um ser humano. “O que explica isso, Paul? Aos 76 anos, amigos seus já estão em casa brincando com os netos. Não seria por dinheiro, certo?” Segundo o jornal The Sunday Times, Paul segue sendo o artista mais rico do Reino Unido, com £ 780 milhões, algo como R$ 3,2 bilhões. “Não, não é pelo dinheiro”, ele sorri. “Sabe, eu gosto das grandes plateias, estar com os fãs pelo mundo me dá energia, e ainda consigo passar um bom tempo com meus netos. É possível viver as duas coisas. Se eu fosse um pintor, gostaria de continuar pintando por toda a vida. Você está certo, eu não tenho que fazer isso o tempo todo, mas é só o que eu sei fazer desde garoto.”

Ao mesmo tempo que os brasileiros ficam felizes com sua vinda, uma multidão de fãs que não podem pagar pelo ingresso lamentam. Os preços dos bilhetes são bem caros no Brasil. Não seria a hora de fazer uma apresentação gratuita por aqui?

Sabe que uma vez, há poucos anos, fizemos um concerto e liberamos sua transmissão para a TV no Brasil, se não me engano, para uma emissora chamada Globo. E então, até mesmo as pessoas que viviam nas pequenas vilas conseguiram ter acesso ao show. Às vezes, fazemos esse tipo de coisa. Já cantei assim em Roma para mais de um milhão de pessoas nas ruas e, no México, para umas 500 mil. Seria ótimo conseguir o mesmo no Brasil.

O mundo parece dividido hoje entre esquerda e direita, como se nenhuma ideia pudesse se encaixar em outra definição. O rock and roll, curioso, já foi acusado dos dois: direita, alienando os jovens, e esquerda, tornando-os rebeldes. Os Beatles eram de esquerda ou direita?

É uma pergunta difícil, mas acredito que os dois. Eu não acho que nos tempos de Beatles fazíamos distinção entre direita e esquerda, não era nosso interesse assumir um partido, uma ideologia. Estávamos mais preocupados em sermos sensíveis. Se lutar pelos direitos humanos é ser de esquerda, então digam que éramos de esquerda. Se fazer músicas que falavam de amor e de família era algo de direita, podem dizer que éramos de direita. 

Ainda hoje, John Lennon é considerado por muitos o rebelde da banda e você, o conservador. Existe algo de certo nessa percepção?

Acho que, de alguma forma, sim. Mas o que aconteceu foi que as pessoas interpretaram a história de muitas formas. Às vezes, eu me tornava um homem de direita conservadora e, em outras, eu era a esquerda, fazendo algo revolucionário. E foi assim também com John. Poucos viam, mas ele também podia ser bem “right wing” (de direita). Eu tive algumas experiências que mostraram que não devemos julgar alguém tendo como base apenas um período de sua vida. Os dois lados conviviam nos Beatles, e é por isso que conseguimos falar com todo mundo.

Seu disco mais recente, 'Egypt Station', traz uma história que se passa no Brasil na música Back in Brazil. Uma parte soa como crítica social quando diz que a garota sente medo e que “a esperança começa a desmoronar e seus sonhos, a desaparecer”. Seria uma metáfora?

Essa música narra uma história de amor, como se fosse um filme, e não pensei em outra coisa quando a fiz. Mas gosto quando a canção abre portas para outras interpretações. Se você quiser, pode sim levar isso para esse entendimento, acho ótimo. 

Vai tocá-la no Brasil?

Estamos ensaiando, não sei se teremos tempo de aprendê-la até lá. Espero que sim.

Paul, qual seria a sua banda dos sonhos? Não vale colocar ninguém dos Beatles, ok? 

Ah, ok, deixe-me ver. Na bateria: John Bonham (baterista do Led Zeppelin, morto em 1982). Nos teclados... Billy Preston (músico que toca órgão em ‘Let It Be’, morto em 2006). No baixo (faz silêncio): John Entwistle (baixista do The Who, morto em 2002). Na guitarra, Jimi Hendrix (morto em 1970). E no vocal, Elvis Presley (segundo Paul, o imortal).

Sua voz às vezes parece cansada nos shows e você aparenta ter dificuldade em chegar a algumas notas. Está ficando difícil fazer apresentações com três horas de duração? 

Em que momento você acha que minha voz fica cansada?

Ah, em momentos mais agudos de canções como 'The Long and Winding Road', 'Oh, Darling' ou no final de 'Hey Jude', por exemplo... 

Paul faz aqui um rápido silêncio e, então, solta um grito com a nota mais aguda que parece capaz de atingir, de doer os tímpanos do repórter. Em seguida, ele canta o começo de ‘Oh, Darling’ com a mesma força. Para, respira e pergunta: Que tal?

Ok, acho que pode colocá-las no repertório. Paul, você tem uma música no disco novo, 'Despite Repetead Warnings', que fala de um capitão de um navio que, sem se preocupar com as advertências do aquecimento global, caminha para o fim com sua tripulação. O presidente do Brasil, neste momento, é um capitão com inspirações em Donald Trump, o homem a quem você dedicou sua música.

Eu não sei o suficiente sobre seu novo presidente para fazer comentários, mas, geralmente, olhando para o mundo, há um infortúnio no ar. Muitas pessoas estão assustadas, com medo, e uma grande preocupação nas Américas e na Europa tem relação com a questão dos imigrantes e dos refugiados. É muito fácil dizer: “Hey, eles vão roubar nossos empregos”. Mas, se você olhar para os Estados Unidos, verá que todos ali são imigrantes, cada ser na América de hoje é um imigrante. Eu vejo nações sendo construídas com pensamentos de antissemitismo e políticas anti-imigratórias. Não posso falar do Brasil, mas vejo claramente a ascensão de políticos que causam medo.

Roger Waters foi vaiado no palco ao falar sobre suas convicções políticas e uma questão apareceu ali. O que vale? Estar ao lado dos fãs que pagam para vê-lo ou ao lado do que você acredita ser a verdade?

Sempre ao lado do que acredito. A situação política em muitos países está difícil, e aqui no Reino Unido não é diferente. Estamos passando por grandes mudanças na América, Itália, França, Alemanha. É tempo de falarmos a verdade.

Como você lida com a própria história? O tempo todo saem biografias, documentários, filmes. O que faz quando lê ou vê algo surreal sobre si mesmo?

Eu sempre leio coisas surreais e sem noção sobre mim mesmo. As pessoas escutam uma versão e a repetem sem nenhuma evidência. A história é inteiramente baseada nisso. Eu prefiro muitas vezes não ler, mas quando leio escrevo para o biógrafo e digo: “Hey cara, isso é completamente irreal”. Li alguns trechos de um livro novo sobre mim e a história estava completamente errada. O meu tempo é muito precioso para eu me aborrecer com as coisas que eles escrevem.

O fim dos Beatles foi precoce ou eles acabaram no tempo em que tinham de acabar? 

Os Beatles foram uma grande banda, tocaram pelo planeta e poderiam muito bem estar tocando agora. Infelizmente, houve um fim. Aquela foi a melhor banda do mundo e eu tenho certeza de que, se estivessem todos vivos, estaríamos na estrada ate hoje.

Um dia, Paul. Se tivesse de escolher apenas um para viver de novo, qual seria ele?

Hoje. Eu sou um homem feliz.

E no final, o que é que fica? O avô que curte os netos nos feriados ou o artista que canta Hey Jude para 80 mil pessoas?

Eles são o mesmo homem. No final, o que fica é o amor.

 

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