DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Paul McCartney fala sobre fãs, Beatles e ele próprio

Em turnê, músico diz que pensa em seu público para montar repertório

Entrevista com

Caryn Ganz, The New York Times

21 de agosto de 2016 | 21h11

Após ter passado décadas na estrada com os Beatles, o Wings e se apresentando como artista solo, Paul McCartney, aos 74 anos, reconhece que os aficionados de concertos já devem ter ouvido histórias contadas repetidamente por ele. Como essa: “Se você pensa numa apresentação no estilo de um show da Broadway, não é mudada nenhuma frase, nenhuma piada”, disse ele. “Quando você tem ideia do que é bem aceito pela plateia, tem de se ater a ela. Assim, se conto alguma história sobre Jimi Hendrix que já citei antes, uso pequenas frases tipo, ‘como eu digo’ ou ‘eu sempre conto essa história’, para não soar como ‘oh, meu Deus, e ele vai começar a falar tudo de novo’."

O repertório da atual turnê, One on One, conta com 23 músicas dos Beatles e seis dos Wings. Ele retorna ao In Spite of All Danger, uma das primeiras canções originais gravadas pelos Quarrymen, primeira banda antes dos Beatles, que contava entre seus componentes com John Lennon e McCartney. E inclui ainda três músicas do seu mais recente álbum gravado em estúdio, em 2013, com o título New, e ainda FourFive Seconds, composta em 2015 em uma colaboração com Kanye West e Rihanna.

Numa entrevista por telefone, Paul McCartney falou da sua filosofia com relação ao entretenimento e a plateia, e sobre o ressurgimento das músicas dos Beatles em seu show. Abaixo alguns trechos da conversa:

Em seu concerto no MetLife, havia um fã sentado na sua frente que já assistiu mais de 100 vezes. Como contentar esse fã e um outro de 20 anos que o está assistindo pela primeira vez?

Sabe, estou consciente de que existem pessoas que viram o show antes. A grande pergunta que sempre me faço é: como conseguem pagar? Na fila da frente, ali está ele 107 vezes! O que eu realmente quero é fazer para ambos um show ao qual eu próprio gostaria de ir e assistir. Assim, primeiramente sento e penso: se for vê-lo, gostaria que ele cantasse isso, não deveria omitir essa. Assim, essas músicas são o ponto de partida. E, então, quando começamos a ensaiar e minha banda às vezes dá alguma ideia ou ouço alguma coisa no rádio, acho que devemos aproveitar.

Bob Dylan também está em turnê agora, com músicas quase que exclusivamente novas. Você imaginaria uma turnê assim, só com músicas novas?

Tenho pensado muito sobre isto. Teoricamente, a filosofia é boa, porque você não vai tocar músicas que já tocou muito. Mas a minha preocupação é com o público. Lembro-me quando ia a concertos, especialmente criança, e você tinha de economizar muito dinheiro para ir a um show. Então, eu me imagino indo ao meu show: será que gostaria que fossem apresentadas apenas músicas novas? Não. Eu não gostaria. Eu avisaria antes. Provavelmente chamaria a turnê de 'lado B' ou algo parecido, de modo que você saberia que vai a um show para ouvir músicas realmente desconhecidas que só aficionados conhecem. Acho que se fizesse isso, seria bem engraçado.

É interessante como você se preocupa com o fato de a plateia ficar feliz ou decepcionada.

Como já fui plateia, gastando o que, para mim, significava muito dinheiro, penso nisso. Esse sempre foi um aspecto muito importante da filosofia dos Beatles. Nos nossos singles, havia um lado A e um lado B. No caso dos Beatles, o lado B era realmente bom. Costumávamos chamar de “melhor relação custo/benefício”.

Quando você realizou sua primeira turnê depois dos Beatles, incluiu poucas músicas do grupo. Agora, elas constituem quase a metade do repertório. Você se sente mais à vontade em tocar essas músicas?

A única razão pela qual não as coloquei no show depois dos Beatles foi porque tinha criado a banda Wings e, na minha opinião, não havia maneira de lançar a banda e insistir em tocar músicas dos Beatles. De modo que eu as embarguei e todos os patrocinadores ficaram desconcertados. Mas acabamos ficando muito conhecidos. Em 1976, a banda Wings realizou uma grande turnê americana. E, então, comecei a achar que tudo bem, agora que conseguimos nos estabelecer como uma banda, poderia reconhecer meu outro grupo. Agora, comecei a fazer coisas como A Hard Day’s Night, e o vocal é principalmente do John. Eu até deveria chamar a música de John, sabe, ele ajudou-me a compô-la, do mesmo modo que Being for the Benefit of Mr.Kite. Mas, no final, tudo se resume à música, se ela é boa para apresentar. Sempre disse que jamais conseguiria compor a música, porque tem uma parte muito complicada de baixo. Mas, no fim, pensei, vamos deixar de ser covarde, vamos tentar e ver se consigo. E, então, criei coragem e aprendi.

Há músicas dos Beatles que você não pode ou deseja tocar?

Sim, há muitas que provavelmente não vou tocar porque não gostaria. Não tenho ódio por nenhuma delas. Sou fã de tudo o que os Beatles fizeram. Sou um homem de bom gosto!

Você apresentou Blackbird explicando que compôs a música enquanto assistia à luta pelos direitos civis nos EUA na década de 1960. Ela tem um novo significado para você atualmente?

Sim. Totalmente. Temos um novo filme a ser lançado que Ron Howard montou chamado Eight Days a Week sobre as turnês dos Beatles. Ao fazer sua pesquisa, ele descobriu que havíamos nos recusado a tocar em Jacksonville (Flórida), certa vez, porque a plateia estava separada. E não apenas isso, ele encontrou o contrato – que, na cláusula 12, afirmava que os Beatles não tocariam para uma plateia separada. Senti muito orgulho por termos feito isso na época.

Conhece a versão dos Guns N’ Roses de Live and Let Die? Eles tocaram no MetLife duas semanas antes de vocês (Mas a pirotecnia de vocês foi muito mais explosiva).

Interessante, porque, quando a versão deles foi lançada, meus filhos estavam na escola e tiveram de defendê-la com vigor. Todas as crianças diziam “que ótima música”. E, quando eles falavam que foi seu pai que compôs, as crianças reagiam: “de maneira nenhuma, foram os Guns N’ Roses”. Fiquei feliz com o que fizeram. Foi um belo reconhecimento. Estou feliz em saber que nossa pirotecnia é maior e melhor.

Em tempos de caos, os fãs são atraídos para o conforto e as perspectivas oferecidas por uma música como Let it Be. O sentimento que você experimentou quando tocou essa música mudou no decorrer dos anos? 

Sabe. Estranhamente, não mudou muito. Sempre esperei chegar a um ponto em que eu realmente me sentiria saturado e pensaria; “oh, não de novo!”. Mas, quando começo a cantar, revejo o trabalho deste jovem. E, então, uma frase ou uma expressão me deixa impressionado e eu penso: “o garoto era bom!".

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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