JF Diório
JF Diório

Paul McCartney é explosão de juventude e ode à maturidade

Ex-Beatle se apresenta no Allianz Parque, em São Paulo, aos 75 anos

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 23h20

Paul McCartney tem 75 anos. Raízes brancas brotam dos seus cabelos tingidos – sim, tingidos, pessoal – de acaju. As costeletas alvas brotam ao lado de das suas orelhas, enquanto o topete é despenteado pela ventania. E sabem o que isso significa? Praticamente nada. Porque o Paul que se apresentou no Allianz Parque, na noite deste domingo, 15, é a figura mais atemporal que o rock produziu nos últimos 50 anos. Qual é a diferença se ele tem 25, 45, 65 ou 75 anos?

A voz? Sim. Ela envelheceu. Como um vinho, é bom dizer. Daquelas vozes que não alcançam os agudos de outrora e que, quando você a escuta, acaricia em vez de ferir. É, pelo contrário, delicioso perceber a ação do tempo e a reação de uma das maiores estrelas da música pop diante dele. Quase zombeteiro, Paul McCartney ri do relógio. Isso se dá na apresentação de quase três horas de duração e beirando as 30 músicas, e na capacidade dele, já vovô, cantar e tocar como se fosse o jovem que, em Hamburgo, descobriu o poder de fogo dos Beatles. 

Paul sempre soube o que estava fazendo. O mais meticuloso dos Beatles, ele entendia a potência do que tinha diante de si. Negou-a, fez graça, renegou-a em certo momento da vida (nos anos 1980), mas sempre soube o poder da obra que construía (e construiu). Assim foi com os Beatles, com o Wings, na carreira solo, cujo último disco, New, foi lançado em 2013. 

Quando manda o tempo voltar, ele obedece. E, de repente, estamos em algum lugar da Inglaterra, nos anos 1960, embasbacados pela rebeldia pop promovida pelos Beatles. Seja em alguma canção do início da carreira do quarteto de Liverpool, como Love Me Do, ou no coro de She Loves You – cantada pelo público e, no improviso, brevemente executado pelo Beatle –, seja nas canções mais atuais, como My Valentine, de New, executada ao piano. 

Afinal, a obra de Paul é atemporal. Blackbird, dos Beatles, é um chamado pelo direitos humanos. E, diante de Donalds Trumps da vida, de extremismos e reações agressivas, nada mais pacificador. E o que dizer de Maybe I’m Amazed, lançada no disco McCartney, já lançado com Paul McCartney em carreira solo, em 1970. Com 47 anos de existência, a canção é mutante. Como o amor, afinal.

Transforma-se. Amores de anos passados ficam lá, novos amores surgem. As lágrimas de felicidade de um abraço apertado secam. Novas brotam. E é sempre especial. Paul entende os ciclos pelos quais passamos na vida como poucos o fazem. Por isso, se mantém tão atual. O garoto de Liverpool toca em sentimentos essenciais, daqueles possíveis de sentir não importa a idade que se tenha.

São sentimentos difusos, afinal. E pode ser aquilo que mexe com o ouvinte quando se apresenta uma canção como Something, pode ser quando se executa Ob-La-Di, Ob-La-Da. A sensação difere, mas é universal. O amor dos mais puros, adornado por George Harrison, ou na canção dançante, quase infantil. O que Paul promove é a euforia, quase histérica, de seus seguidores. Não importa a idade, afinal há de tudo em uma apresentação como a de São Paulo. Eram 45,5 mil pessoas no estádio e se mostrava impossível traçar um perfil único. Crianças e idosos, sentiam, cantavam, riam, choravam, em uma intensidade que só um Beatle é capaz de promover. 

A banda chegou ao fim há quase 50 anos. Dizem ser a última capaz de promover uma transformação tão grande na cultura. E talvez seja. Paul, aos 75 anos, rebola no palco, fala português e faz suas piadas. Dos seus companheiros dos Beatles, dois se foram (John Lennon e George Harrison, homenageados ao longo da noite de domingo) e um se mantém vivíssimo (Ringo Starr, ainda na ativa, tal qual Paul). Implacável, o tempo parece parar. Paul McCartney é híbrido. É a juventude dos seus anos de Beatles, é o sujeito levado pela vida. Paul é o estrondo atemporal que, em uma apresentação, espera-se tudo, mas sempre surpreende.

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