Paul McCartney chega aos 64, como na letra da canção

Sir Paul McCartney fez 64 anos em 18 de junho. Esse é o aniversário sobre o qual ele cantou de forma tão memorável na música When I?m Sixty-Four (Quando eu tiver 64 Anos)no álbum que foi um marco dos Beatles, Sgt. Pepper?s Lonely Hearts Club Band, de 1967. McCartney não está ?decadente? como previu a canção. Na realidade, continua jovial e criativo com a ajuda da filha de dois anos, Beatrice Milly, fruto de seu segundo casamento com Heather Mills, de quem anunciou a separação em 17 de maio. E continua a escrever músicas, apresentar-se publicamente e criar em outras mídias. O editor-colaborador da revista Rolling Stone, Anthony DeCurtis, conduz os leitores através da vida adulta recente de McCartney num perfil publicado originalmente na AARP The Magazine. O que Paul McCartney poderia saber sobre ter 60 anos quando, ainda adolescente, escreveu uma de suas canções mais famosas, When I?m Sixty-Four? Mais tarde, os Beatles gravaram a música quando McCartney estava com 24 anos.Da perspectiva da extrema juventude, 64 poderia podia parecer apenas uma idade de romance vacilante, como uma cerca viva contra a solidão ("You?ll be older too/And if you say the word/I could stay with you - Você estará mais velho também./E, se disser a palavra/ Eu poderei ficar com você), paz doméstica ("Doing the garden, digging the weeds,/Who could ask for more" - Trabalhar no jardim, arrancar ervas daninhas,/Quem poderia pedir mais?) e uma ladeira abaixo para o fim da linha ("Yours sincerely, wasting away" - Seu sinceramente decadente) - tudo com uma piscadela e uma cutucada.Beatles: avatares de ebulição juvenilLondres fervia e os Beatles foram os avatares de uma ebulição juvenil sísmica. Convenhamos, quem iria pensar em envelhecer? Como era de se esperar, nenhum de nós. Se não velhos, nós - os sortudos - ficamos ao menos mais velhos. Quase 40 anos após o lançamento de When I?m Sixty-Four, que aparece na obra-prima dos Beatles, Sgt. Pepper?s Lonely Hearts Club Band, muitos de nós estamos perto desse número. O eternamente angelical sir Paul chegou lá: domingo, dia 18, é seu aniversário de 64 anos.Compreensivelmente, houve muita coisa relativa ao futuro que McCartney não poderia prever nos tempos gloriosos de paz e amor. Para começar, teria tido dificuldade em imaginar que na casa dos 60 ainda estaria tocando rock?n?roll, quanto mais sendo agraciado com o título de sir e com um uma fortuna líquida avaliada em US$ 1,5 bilhão. Também não poderia imaginar que o amor de sua vida teria uma morte tragicamente prematura e que seu segundo casamento duraria pouco. Numa entrevista que fiz com ele em Londres em 1987 para a revista Rolling Stone, McCartney fez uma retrospectiva do começo dos Beatles e observou: ?Numa entrevista antiga conosco, Ringo dizia, ?Bem, sabe, posso ter sorte e ter na velhice uma cadeia de salões de beleza?. Esse era o ápice da perspectiva dele na época. E John e eu falávamos nervosamente: ?O sucesso pode durar uns dez anos?. E dizíamos isso aos 18, 20 anos... Não conseguíamos nos enxergar tocando rock depois dos 30. E é claro que, quando chegamos aos 30, tudo ainda estava acontecendo.? E hoje McCartney continua agitando. No ano passado, lançou Chaos and Creation in the Backyard, um álbum solo que o encontrou próximo ao auge de seus poderes criativos. Muitos críticos - inclusive eu, numa resenha para a Rolling Stone, comparamos o álbum ao solo que ele lançou em 1970 e que marcou o fim dos Beatles.A vida com LindaNo campo pessoal, há menos de três anos, ele se tornou pai novamente. Assim, ao se aproximar dos 64 anos, sir Paul não está decadente, como previu sua canção de forma tão pessimista. Na verdade, está vivenciando uma reinvenção e um crescimento vitais - mas não sem ter tido sua parcela de dor e dúvida ao longo do caminho. Em 2001, quando entrevistei McCartney de novo para a Rolling Stone, ele falou sobre o arraso emocional que sofreu quando sua primeira esposa, Linda, morreu de câncer no seio, em 1998. A união deles era invejável por qualquer padrão, mas para um casamento entre celebridades, era um raridade extrema e não apenas por causa da sua longevidade. Durante os 29 anos em que estiveram juntos, pouquíssimas vezes o casal passou um tempo afastado, a ponto de McCartney recrutar a esposa para tocar teclado e fazer vocal na banda dele, a Wings, muito embora a profissão dela fosse a de fotógrafa. Ela foi ridicularizada, mas McCartney não deu importância. Ter sua esposa em Wings simplesmente tornava a vida mais divertida para ele.Filhos levam vida estável e produtivaO maior sucesso deles, porém, foi como pais. Os dois tiveram três filhos juntos, e ele adotou Heather, a filha de Linda de um casamento anterior. Todos os seus quatro filhos levam hoje uma vida estável e produtiva, um tributo à maneira estável e despretensiosa como foram criados. Heather McCartney é uma ceramista renomada cuja obra é vendida e exposta no mundo todo. Como a mãe, Mary McCartney, virou uma conhecida fotógrafa. Stella McCartney construiu uma reputação por si mesma como estilista de moda e James McCartney é guitarrista e tem tocado nos álbuns do pai. Além disso, os McCartneys compartilharam a paixão pelo vegetarianismo. Eles decidiram abrir mão da carne no dia em que estabeleceram uma relação emocional entre a perna de carneiro que estava nos seus pratos e os carneiros que eles observavam fazendo piruetas e travessuras na fazenda deles na Escócia. Além de criar uma bem-sucedida linha de refeições vegetarianas congeladas, Linda McCartney se transformou numa ardente ativista dos direitos do animais, um compromisso do qual seu marido compartilhou e continua a honrar. A fama, a riqueza e as realizações não protegeram McCartney na dor devastadora causada pela morte da esposa.?Pensava: ?Como vou lidar com isso??? contou-me ele. ?Durante cerca de um ano eu chorei - em todas as situações, com qualquer pessoa que encontrava. Qualquer pessoa que me visitasse, no momento em que falávamos sobre Linda, eu dizia: ?Lamento, mas preciso chorar??.Mas McCartney, o homem que uma vez avisou: ?Pegue uma canção triste e a torne melhor?, aos poucos começou a reconstruir sua vida. Retomou seu trabalho como músico e compositor e também explorou outros aspectos da sua criatividade. Publicou Blackbird Singing (W.W. Norton, 2001), uma coletânea de poemas e letras de música, e Paintings (Bullfinch, 2000), um portfólio de trabalhos de artes visuais que fizera para si mesmo por quase duas décadas.Nova paixãoE o mais importante - apaixonou-se de novo, embora isso acabasse se fazendo tristeza e decepção. Conheceu Heather Mills, uma modelo e ativista contra as minas terrestres, cerca de um ano após a morte da esposa, quando ambos apresentaram um evento beneficente. McCartney então entrou no tipo de jornada emocional complexa conhecida por qualquer pessoa que tenha procurado um amor após a morte de um cônjuge muito amado. Nas conversas que tivemos em 2001, ele chamou de ?culpa de casado? o fato de estar atraído por outra mulher.?Eu me punia por causa disso?, disse ele. No final, veio a entender que Linda teria gostado de vê-lo feliz.?Assim, comecei a sair com Heather?, lembra. ?Comecei a rir, a me sentir bem. ?Oh, meu Deus, estou namorando? Não acredito. Faz 30 anos que não faço isso! Será que posso?? E a resposta foi, ?Sim, pode?.Comecei a me apaixonar por Heather e foi isso. Esse novo despertar trouxe-me muita energia.?McCartney e Heather Mills casaram-se na Irlanda, em 11 de junho de 2001, na presença de 300 familiares e convidados. Em 28 de outubro de 2003, Mills deu à luz a filha deles, Beatrice Milly - justamente o necessário para manter McCartney jovem. Então, em 17 de maio de 2006, o casal anunciou dramaticamente que estava se separando. ?Tendo tentado muito fazer nosso relacionamento funcionar dadas às pressões diárias que nos rodeiam, é com tristeza que decidimos tomar caminhos separados?, disseram.Único autor de YesterdayAgora, Paul tem começado a pensar sobre a posteridade, sobre o legado que vai deixar. Tem sido abalado pelas comparações desairosas feitas entre ele e John Lennon, desde o assassinato de Lennon em 1980. Após a morte de Lennon, algumas pessoas absurdamente passaram a acreditar que, para poder elogiar John, precisavam denegrir McCartney.?No momento em John morreu, começou um revisionismo?, disse Paul para mim em 2001. ?Houve estranhas citações do tipo: ?John foi o único dos Beatles?. Ou ?Paul reservava o estúdio?.? Isso amargurou McCartney que se lembra de todos os menosprezos: ?John era Mozart, Paul era Salieri?, conta ele. ?Como se John fosse o verdadeiro gênio e eu apenas o cara que cantou Yesterday.?Durante os últimos dez anos, tem se empenhado numa batalha prolongada com a viúva de Lennon, Yoko Ono, para que sejam alterados os créditos pela autoria de uma série de canções com a tradicional citação ?Lennon-McCartney?. Ele quer que fique explícito que ele, Paul, foi o principal ou o único compositor de muitos dos sucessos dos Beatles, como Yesterday, uma das mais populares canções de todos os tempos. Tradução de Maria de Lourdes Botelho

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