Paul McCartney chega aos 60

É impossível imaginar quantos ainda se lembram - mas, em 1969, descobrir sugestões e símbolos de sua morte espalhados por tudo que pudesse se relacionar aos Beatles consistia o curioso passatempo da maioria das pessoas. Hoje pode parecer estranho; na época, era natural: naquele tempo, o mundo era só um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Paul McCartney sobreviveu ao tempo, sobreviveu à sua própria história, sobreviveu à perda de sua mulher, e sobreviveu até a ver Michael Jackson adquirindo os direitos de 250 canções dos Beatles. Não foi fácil. Comemorar 60 anos, no seu caso, é uma celebração triunfal para a qual várias gerações, mais uma vez, resolveram se sentir convidadas. Paul McCartney sempre foi capaz de compor como a maioria das pessoas sorri: sua música parece tão natural e simples quanto o reflexo de um pirulito na água. Por mais que tenha trabalhado em conjunto, por isso, suas preocupações eram em geral radicalmente opostas às de John Lennon: se para Lennon a música era um palanque, para Paul McCartney era uma gangorra. John Lennon nunca perdia nenhuma chance para repetir ao mundo, como um pastor obcecado, as virtudes redundantes da paz; Paul McCartney preferia descobrir novas formas de se divertir. John Lennon pretendia ser discutido; Paul McCartney, assobiado. Ao contrário também do de John Lennon, seu casamento nunca foi um happening: Paul McCartney e Linda Eastman ficaram famosos por jamais terem se separado por mais de 11 dias em 29 anos de união. É bem sintomático, assim, que o título de seu primeiro álbum após a morte de sua mulher, Run Devil Run, tenha se baseado na marca de um sal de banho que Paul McCartney havia descoberto numa farmácia da Geórgia. Suas grandes canções da época dos Beatles costumavam tratar a paixão com uma suavidade quase infantil: todas as músicas de Paul McCartney, no fundo, sempre foram divertidas canções para crianças. Fica mais fácil compreender a natureza de seu humor quando nos lembramos que o título original de Yesterday era Scrambled Eggs; quando pensamos em Rocky Racoon, nas marteladas homicidas de Maxwells Silver Hammer ou em Martha My Dear, uma canção de amor para seu sheepdog: só Paul McCartney poderia compor um improviso sobre as últimas palavras de Picasso unicamente para atender a um desafio de Dustin Hoffman. Mesmo após a separação dos Beatles, já com os Wings, sua música permaneceu absolutamente fiel à sua irrestrita afeição pela frivolidade: Paul McCartney foi um dos primeiros a compreender que o pop deveria ser, antes de tudo, um dos estilos da alegria. O pudor nunca o impediu de se aventurar por outras formas de arte. Sua pintura se tornou uma paixão desde que comprou um quadro de Magritte com uma enorme maçã verde flutuando no espaço - maçã que inspiraria o célebre logotipo de sua gravadora; sua poesia arriscava a concisão de certos hai-kais (em A Lua é um Mandarim, um segmento laranja precede a descrição do perfume vegetal das estrelas) - e às vezes transformava massagistas japonesas no tema de um poema; já sua passagem pelo cinema - e, receio, pela música orquestral - nunca representou o ponto alto de sua carreira. Mas Paul McCartney nunca se importou muito com sua carreira. Conforme o rock ia se tornando cada vez mais uma ética, uma metáfora e quase uma profecia, Paul McCartney sempre insistiu em compor como quem brincava. Por isso, é impossível deixar de reconhecer o motivo mais básico que nos faz festejar: com seu aniversário, a alegria é que faz anos.

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