Paul McCartney abre o baú do Wings

Nos anos 70, Paul McCartney fez do Wings seu exercício de auto-afirmação pós-Beatles. Nada mais natural que depois do sucesso de 1 - a compilação que passou várias semanas no topo das paradas de vários países, no ano passado -, o músico tenha resolvido organizar um disco com os hits do Wings. A polêmica trajetória do grupo que refletiu o início da vida familiar de Paul e Linda McCartney aparece nas 40 faixas de Wingspan, um álbum duplo que está sendo lançado com um documentário com imagens e entrevistas inéditas.Apesar de ter tido mais anos de atividade conjunta do que os Beatles, o Wings demorou para ser levado a sério. Constantes mudancas de formação e a oscilação da qualidade das composições fez com que Paul tivesse de esperar quatro anos para ter seu primeiro disco de platina fora dos Betles (Band On the Run, de 1974) e sete anos para emplacar um single no topo da parada (Mull of Kintyre). Ainda assim, o número de fãs fiéis era o suficiente para render discos de ouro e muitas turnês pelo mundo.Wingspan é uma tentativa de mudar essa perspectiva. A impressão que o trabalho passa é de que a banda foi a terapia de McCartney no período pós-Beatles e pós-Lennon. Se seu talento como compositor e os frutos de sua parceria com Linda tenham seu mérito no pop, curiosamente, a sonoridade encontrada na época por ele foi muito menos ousada do que a dos Beatles. Mas o trabalho do Wings continua sendo melhor do que quase tudo o que o músico produziu em sua carreira-solo nos anos 80 e 90.O primeiro disco, Hits, contém os 19 singles que tornaram a banda conhecida, incluindo Listen To What The Man Said, Live And Let Die, Silly Love Songs, Pipes Of Peace e No More Lonely Nights, entre outros. O segundo disco, History, traz uma seleção de faixas que McCartney considera importantes no catálogo do grupo. Estão lá Let Me Roll It, The Lovely Linda, Maybe I´m Amazed, Venus And Mars/Rockshow, Too Many People e Call Me Back Again, entre outras.Wingspan é um lançamento para os fãs de McCartney. No documentário produzido para lançar o disco, o músico tem mais uma chance de relembrar o relacionamento com Linda (que morreu de câncer em 1998) e de garantir o ambiente familiar, já que as entrevistas são conduzidas por uma das filhas deles, Mary. O clima "lá em casa" produz pérolas como: "O que me inspirou a escrever Silly Love Songs? Sua mamãe, é claro", diz ele. McCartney também está aproveitando o clima de visita ao passado para tentar recuperar os direitos autorais de muitas de suas músicas escritas em parceria de John Lennon, que foram compradas por Michael Jackson nos anos 80, dando início a uma longa briga dos dois (o ex-Beatle havia gravado Say, Say, Say no disco Thriller). De acordo com o jornal New York Post, McCartney estaria disposto a desembolsar os US$ 700 milhões que Jacko está pedindo pelo catálogo. Segundo fontes próximas ao músico inglês, ele quer recuperar os direitos "por motivos pessoais". Com certeza ele deve arrumar uma maneira de reembalar novamente as mesmas composições em uma compilação assim que puder ganhar (ainda) mais dinheiro com elas.

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