Matthew Murphy|New York Times
Matthew Murphy|New York Times

Paul Lewis inicia a sua colaboração com a Osesp

Pianista inglês começa programação com recital em São Paulo

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

19 de abril de 2016 | 05h00

“Estar em São Paulo é sempre um prazer, uma experiência que, por algum motivo, me agrada muito”, diz o pianista Paul Lewis. Costuma agradar ao público também. E ambos têm, portanto, motivos de sobra para antecipação: o britânico abre esta semana sua participação como artista residente da temporada da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Nesta terça-feira, dia 19, faz recital solo na Sala São Paulo e, de quinta (21) a sábado (23), toca como solista do grupo, regido por Marin Alsop.

O programa do recital traz algumas especialidades do pianista: a Sonata n.º 9 em Si Maior D. 575, de Schubert, as Quatro Baladas e os Três Intermezzos de Brahms e Après une Lecture du Dante: Fantasia Quasi Sonata, de Liszt. Já a partir desta quinta, 21, ele toca o Concerto n.º 12 de Mozart. O ponto alto da residência chega em outubro, quando ele interpreta os cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven em três apresentações. “Uma vez que eu trabalharia como artista residente, me pareceu interessante oferecer olhares diferentes a respeito do meu repertório”, ele explica, em entrevista ao Estado.

Lewis nasceu em Liverpool e começou na música emprestando discos na biblioteca do bairro, que levava para casa e copiava em fitas cassete. Não imaginava ainda, ele conta, tornar-se um pianista. Por falta de vagas, ele, na verdade, começou a estudar violoncelo, mas logo desistiu. Seguiu para Manchester e lá, então, se viu às voltas com o piano. Mesmo anos depois, quando já vivia em Londres, se sentia relativamente inseguro com relação a uma carreira. Ao tocar para o grande mestre Alfred Brendel, imaginou que ouviria dele um conselho para ir procurar outra coisa para fazer. Aconteceu, porém, o contrário. E Lewis logo se tornaria o principal nome do piano inglês da atualidade.

Seu repertório gira em torno dos grandes nomes do classicismo e do romantismo – mas com um viés original. Ao longo de sua carreira, Lewis tem dedicado largos períodos de tempo a ciclos completos (ou quase completos) de um só autor. Foi assim com Beethoven, de quem registrou, durante uma década, os concertos e as 32 sonatas. Vieram, então, Schubert e Mozart. “Quanto mais você se dedica a um compositor, mais você se dá conta do quão variada é a sua música. O prazer está em descobrir novas conexões entre obras de diferentes épocas da vida de um autor”, explica. “Esse é um processo que não tem fim”, afirma.

Nos últimos anos, o compositor da vez foi Brahms – que ele acaba de gravar (leia abaixo). Com o CD pronto, no entanto, resolveu voltar aos concertos de Beethoven. Como ele sabe que é hora de revisitar um ciclo como esse? “É simplesmente uma sensação. São obras que o desafiarão sempre, o trabalho com elas não termina. Mas é preciso, às vezes, deixá-las um pouco de lado. Até que um dia, elas voltam com força à mente. E ao coração. O que faço a partir daí é respeitar essa sensação e retomar o trabalho.”

A passagem pela Sala São Paulo também incluiu, no começo da noite de segunda, 18, uma masterclass para jovens pianistas. O que é possível passar a um aluno em um breve encontro como esse? “Eu, para ser sincero, não tenho a pretensão de passar nada a eles. Eu, sinceramente, não acredito que deva oferecer a minha visão a respeito do modo como tocam ou sobre como deve soar este ou aquele compositor. Se alguém quer saber como eu acho que deve soar Schubert, basta ouvir minhas gravações. O que prefiro é perguntar ao pianista o que ele tem a me dizer com determinada peça. Depois disso, vou dizer a eles se estou conseguindo ouvir a mensagem, quando eles tocam. E, eventualmente, ajudá-los a encontrar a forma de expressar o que está em seus corações”, acrescenta Lewis.

Osesp fará turnê europeia de 22 a 26 de agosto

A Osesp vai realizar, de 22 a 26/8, nova turnê internacional. Sob regência de Marin Alsop, o grupo fará quatro apresentações. A primeira, dia 22, no Festival de Edimburgo, tem obras de Leonard Bernstein (Chichester Psalms), Villa-Lobos (Choros nº 10) e Shostakovich (Sinfonia nº 5). A orquestra segue para Londres, onde fará, no dia 24, dois concertos no Festival Proms. No primeiro, toca Kabbalah, de Marlos Nobre; o Concerto para piano e orquestra de Grieg (com solos da pianista venezuelana Gabriela Montero); o Prelúdio das Bachianas brasileiras nº 4, de Villa-Lobos; e as Danças sinfônicas de Rachmaninov. Em seguida, no mesmo dia, os músicos fazem uma apresentação dedicada à música popular brasileira. O último concerto será no Festival de Lucerna, dia 26, mais uma vez com Montero. 

Músico lança primeiro disco dedicado a Brahms

O pianista britânico Paul Lewis, que em 20 de maio completa 44 anos, chega ao Brasil com dois discos, lançados pela Harmonia Mundi - mesmo selo pelo qual já gravou as sonatas e os concertos para piano de Beethoven, assim como a obra tardia de Schubert.

O primeiro traz a interpretação da versão original para piano dos Quadros de Uma Exposição, em que o russo Mussorgsky recria, peça a peça, telas que observou em uma exposição dedicada ao artista plástico russo Viktor Hartmann, em São Petersburgo. O segundo é inteiramente dedicado a Brahms, com o Concerto para Piano e Orquestra n.º 1 e as Baladas Op. 10 (que estão no programa do recital que será realizado nesta terça-feira, dia 19).

“Os Quadros de Uma Exposição são, para mim, a essência das peças de caráter. Depois de anos trabalhando com obras de Beethoven e Schubert, foi libertador mudar para essas partituras curtas, dando a elas coloridos dos mais diferentes”, informa Lewis. “É curioso, mas não vejo em Mussorgsky uma alma russa, como há em Shostakovich ou Rachmaninov. Gosto do que ele tem de único, de diferente, que é certa escuridão associada a uma transparência. E isso exige que o pianista precise pensar o piano de forma orquestral, usando o máximo possível de possibilidades expressivas”, conta ainda.

Contrastes. Brahms, por sua vez, levou Paul Lewis em outra direção. O Concerto n.º 1 foi idealizado a princípio como uma sinfonia, lembra Lewis. “Eventualmente, ela acabou se tornando uma obra para piano e orquestra, mas carregou consigo esse caráter sinfônico, o que leva a uma dificuldade na hora de dosar os contrastes dessa música.”

Para o pianista, não há problema em estabelecer paralelos entre vida e obra do compositor. “Apesar da grandiosidade, há passagens de uma delicadeza muito grande, que soam quase como música de câmara. Não é por acaso. A partitura é, em alguns momentos, o retrato bem acabado de Clara Schumann e mostra o claro desespero perante a tentativa de suicídio de seu marido, o compositor alemão Robert Schumann (1810-1856), que se jogou nas águas do rio Reno. Quando se ouve as primeiras notas do concerto, é fácil perceber as águas. Eu sempre me espanto com a capacidade de Brahms de colocar em música tais sentimentos”, conclui o pianista inglês.

PAUL LEWIS 

Sala S.Paulo. P. Julio Prestes, s/nº, 3223-3966. Recital solo, hoje (19), 21h. R$ 77/R$ 100. Com Osesp. 5ª, 6ª, 21h; sáb., 16h30. R$ 42/R$ 194 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.