Patrícia Palumbo entrevista Cássia Eller

Morrendo de rir, Cássia Eller me ouviu dizer ao telefone que ela é a mulhermais difícil que já conheci. Essa foi a primeira entrevista que tentei fazerpara o livro e a última que consegui. Acabamos nos encontrando em São Paulo mesmo, em meio ao trabalho intenso de divulgação do CD Acústico MTV, um grande sucesso de vendas.Cássia Eller é um fenômeno nacional. Popular sem concessões. Faz música como gosta de fazer: intensamente. Conversa muito com os músicos no palco, a ponto de esquecer o roteiro do show. Viaja num acorde, num riff, num improviso de percussão. Ama a música. E a música faz parte de seu dia-a-dia quase como o ato de respirar. Ela não pensa sobre seu ofício, mas atravessa a rua em tempos musicais. Leva a vida em compassos.Rindo muito, tomando café, fumando e pedindo para acabarmos logo, Cássia, inacreditavelmente tímida, enfim nos concedeu essa conversa.Dizem que ela não gosta de entrevistas porque acha que não tem nada deespecial a dizer. Ouvindo-a cantar com a mesma verdade um sucesso de Edith Piaf e um rock do Nirvana, é claro que não posso acreditar nisso! Como uma cantora que apareceu chutando o balde e interpretando Arrigo Barnabé, Luís Melodia e Itamar Assumpção pode ser tímida? No palco é diferente. Claro. É a música no clímax. Cássia Eller é inteira um vulcão musical que, prestes a entrar em erupção, mantém a aparência calma e tranqüila da grande montanha. Pura ilusão.Patrícia Palumbo - A Gal Costa disse uma vez que admira muito seu trabalho porque você é uma cantora muito musical. Você entende essa expressão? O que vc acha disso?Cássia Eller - Eu fico muito feliz quando se referem a mim dessa maneira. Porque eu respiro musica. Eu penso música, o tempo todo. A minha vida é marcada pelo disco que foi lançado naquele ano, o disco do Chico Buarque, do Caetano, a música do Djavan que fazia sucesso no rádio naquela época, essas coisas éque marcam o tempo na minha vida. Eu lembro dos acontecimentos assim. Eu soumusical mesmo (rindo).Você me disse uma vez que ouvia em casa muita música antiga. Sua mãeouvia Chiquinha Gonzaga... Não, quem ouvia Chiquinha era vovó que tocava bandolim. Todos os meustios aprenderam musica, minha mãe também. Mamãe ouvia boleros. E todo otempo a gente ouvia rádio em casa.E você foi despertando pra música assim, aprendendo de ouvido?Ah é. Eu acho que música é tudo isso. É cantar, fazer música, mas émuito ouvir música, eu adoro ouvir, acho que o melhor pra se fazer é ouvirmúsica o tempo todo.Mas, você fez aulas de canto?Fiz com a mesma professora que a Ná Ozzetti aqui em São Paulo e eudescobri isso sem querer. Eu sou muito fã da Ná, já era nessa época, em 89e um dia eu me assustei porque eu cheguei lá para fazer a minha aula e elaestava saindo, eu estava entrando logo depois dela, aí comecei a tremerinteirinha assim, que eu era completamente alucinada por ela.89! Qual era a música de sucesso da época?É, 89...sei lá (risos).Eu conheci a Ná por causa do Rumo, e tinha odisco dela... nossa, o primeiro disco que saiu pela Baratos Afins, euacho...E ouvir música então era uma coisa que você fazia o tempo todo? só dorádio ou também ia buscar seus discos, comprava muito disco também quandoadolescente ?Não, e não comprava porque a gente era muito pobre, não tinha dinheiropara comprar disco assim. Mas eu ia na casa de colegas meus, de amigos meuspara gravar, gravava tudo em fita cassete.Fazia a sua programação?É, e escutava rádio para caramba, muito mesmo, o tempo inteiro. Deixavasempre no 3 x 1, lá de casa, um cassete limpinho assim para poder gravar. Setocasse uma música que fosse difícil de eu achar eu gravava da rádio mesmo.Quando é que pintou aquela história de quero cantar, cantar dá barato,quando foi você cantou e deu uma ligada?Ah! desde que eu me entendo por gente eu acho que eu viajo cantando,viajo muito cantando.Mas já de moleca, já de pequena?É, desde pequenininha, desde pequenininha. Mamãe era cantora antes decasar, antes de eu nascer. Papai ciumento e tal, proibiu ela de cantar empúblico.Mamãe não fechava a boca dentro de casa, cantava o tempo inteiro, fazendocomida, arrumando a casa, lidando com a gente e cantando o tempo inteiro,tomando banho. Aí de tanto ela cantar aquelas mesmas músicas que elagostava, uns boleros, umas coisas em espanhol que ela gostava, ArmandoManzanero e não sei o que... eu fui aprendendo a fazer segunda voz comela...

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