Patrícia Marx volta eletrônica e budista

A frase "Patrícia Marx voltou" foi proferida com entusiasmo ao menos umas cinco vezes nos últimos 13 anos. Estrela infanto-juvenil do grupo Trem da Alegria na década de 80, a garota do rabinho de cavalo se desligou da rentável empreitada em 1988 e, desde então, perdeu a conta das vezes que viu sua carreira subir e despencar. Ao todo foram oito discos lançados e mais de dois milhões de cópias vendidas até sua última aparição, em 1998. E, então, Patrícia Marx voltou. Está com 27 anos, um filho de três, cabelos curtos e sem tinturas, casada com o produtor Bruno E. e adepta do budismo tibetano. Mas é em sua música, até hoje rotulada como baladas para empolgar romances adolescentes ou festinhas infantis, que se vê a virada mais radical. Seu novo disco, Respirar, é todo sustentado por bits eletrônicos de lounge, a vertente mais calma do gênero das pistas. O atual retorno é celebrado, desta vez, como o definitivo. "Sempre deixei tudo acontecer naturalmente na minha carreira. Nunca gostei de ficar prevendo nada. Mas esta volta é para valer. Quero ficar, mas sempre em busca de novidades." E não está brincando quanto aos anseios de se estabilizar como cantora. O contrato que assinou com a gravadora Trama prevê, segundo a própria, o lançamento de outros dois álbuns. Sobre seus inusitados sumiços, Patrícia Marx diz que não há traumas. "Saí da mídia várias vezes e sempre voltei com uma surpresa. As saídas foram para me recompor." O que aprendeu de mais valioso depois de tanto entra-e-sai da mira de fotógrafos? "Nunca mais faço nada por dinheiro. Fazer música só para aparecer não compensa. A mídia fácil não me agrada. Quero é fazer música boa. Não quero que falem de minha vida pessoal, que entrem em minha casa para me fotografar com minha família." O tempo que a garota conseguiu se sustentar como celebridade pop durou, na verdade, bem mais do que os 15 minutos de fama habituais. Com um pai que gostava de Beatles e Tom Jobim e uma mãe bailarina clássica, não houve o menor impedimento quando a criança disse que seria cantora, aos nove anos. Em um festival internacional da criança, promovido pelo SBT, ficou logo em segundo lugar. A gravadora RCA, atual BMG, cresceu os olhos na menina e a contratou para lançar o disco Clube da Criança, em dupla com o garoto Luciano. Entre os participantes especiais estavam Xuxa, em auge de carreira como a "rainha dos baixinhos", e Sérgio Mallandro. Em 1982, com a chegada ao grupo do elétrico Juninho Bill, o trio passa a se chamar Trem da Alegria e os quatro discos que foram lançados venderam quase dois milhões de cópias. Quando a fama fez sua primeira cobrança, com desentendimentos entre empresário, familiares da cantora e gravadora, Patrícia resolveu sair e foi cantar sozinha. Vinte anos se foram e a cantora não sabe mais nem os telefones dos ex-companheiros de Trem da Alegria. "Perdemos o contato", limita-se a falar sobre Juninho Bill. "Esse rótulo de ex-integrante do Trem me aborrece um pouco. Mas não tenho grandes problemas com isso não. Tudo teve seu momento, não me arrependo de nada." Bruno E, pai de seu filho Arthur e produtor do disco, foi quem apresentou música eletrônica a Patrícia. Na verdade, alguns álbuns que a jovem lançou no início dos anos 90 para um selo de Nelson Motta já a traziam como uma aspirante ao tecno pop. "Foi algo que sempre quis fazer. Por isso não considero uma mudança tão radical." No tempo em que ficou parada, três anos ao total, aproveitou para pesquisar cultura de outros continentes. Ela se empolgou tanto pelos mandamentos dos budistas que adotou-os como fonte de inspiração. "O que está no ar / são os ventos pra mudar / tão distantes que eles vêm / que sua língua eu não sei nem falar", diz, em Despertar, com certo ar de profundidade. Os sinais são de que Patrícia Marx mudou de estratégia. É melhor aparecer para poucos, mas sempre, do que ficar sendo celebridade pop por 15 segundos de três em três anos.

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