Pato Fu flerta com britpop em novo CD

Uma das grandes falhas na recente edição do Rock in Rio, em janeiro, foi a ausência de grupos brasileiros que representassem as tendências do pop nacional. Mas que seja feita uma ressalva importante: a apresentação, no palco principal, do grupo Pato Fu. Não foi o melhor show da banda, mas o de maior repercussão na sua carreira. Música (rock), lucidez, doses certas de cinismo e diplomacia mineira domaram os fãs do Guns N´ Roses, que elegeram, com vaias e uma chuva de garrafas plásticas, Carlinhos Brown como o abacaxi do festival. Mantendo essas boas características, o grupo lança em abril o sexto CD, Ruído Rosa."É um disco de um Pato Fu que passou dos 30 anos", diz a vocalista e compositora Fernanda Takai, em entrevista. Fernanda explica que o fato de a banda envelhecer está longe de ser uma perda para o grupo ou mesmo de representar um enrijecimento da música. "O John (principal letrista) fez 35 anos. Ele é o grande responsável pelo nosso texto, pela tradução do que o grupo pensa. Envelhecer é realidade e queremos isso. Temos oito anos de carreira e não queremos a síndrome de Peter Pan." Musicalmente, isso implica maturidade e, provavelmente, numa boa produção.Já nas letras, o jeito espirituoso do grupo mantém-se, só que, segundo Fernanda, sem se perder em piadas feitas somente para a compreensão da banda. "O que a gente entendeu nesse tempo de carreira é que não basta o nosso divertimento, a piada interna, que ninguém entende. Uma ironia tem de ser clara, falar pra todos e até ceder espaço para uma história bonita, uma poesia que emociona." Esse cuidado vem sendo tomado desde Televisão de Cachorro, lançado em 1998.Mixagem - Neste momento, o Pato Fu está mixando o novo CD em Londres. "Há muito tempo, a gente tem essa vontade de se aproximar de Londres, mas só agora, até por uma questão de credibilidade com a gravadora, deu tudo certo", conta ela. "Sempre procuramos esse contato com a música inglesa, porque gostamos muito do britpop e acompanhamos o gênero desde o início nos anos 90. Esse CD enfatiza essa relação com o pop rock das bandas britânicas."Das 13 faixas, oito serão mixadas no Reino Unido, no estúdio Strong Room. Para isso, o grupo escolheu o produtor Clive Goddard, que já trabalhou com precursores do britpop, como a banda Pulp, e artistas de vanguarda da cena pop internacional, como Moby. "A lista de mixagem dele é extensa, o que é muito bom porque ele não está restrito ao universo do rock; é bem versátil."Apesar de o disco ter sido feito 80% em casa, como conta Fernanda, e a mixagem ser um dos processos finais da gravação, o novo CD pode ser um dos mais diferentes da banda. "A mixagem pode tanto mudar sensivelmente a música quanto preservar todas as boas idéias iniciais. Não há intenção de mudar completamente, mas só vamos ter noção exata do que vai ocorrer na mixagem na prática, durante esses 10 dias", afirma.Essas oito faixas também serão masterizadas em Londres, em dois dias. "Apesar de parte desse CD estar sendo feita fora do País, não foi um trabalho caro. Economizamos tempo de criação dentro do nosso estúdio e optamos por uma mixagem diferenciada. Ainda não somos uma banda que pode fazer exigências absurdas", diz ela. "No disco anterior, ficamos três meses produzindo em São Paulo; neste, levamos três semanas para aprontar quase tudo."As outras cinco faixas serão mixadas no País, pois, segundo Fernanda, têm uma cara mais brasileira, com direito a cavaquinho. Participa do novo trabalho, o extinto grupo paulista Os Mulheres Negras.Referências - Em Isopor, álbum anterior da banda, lançado em 1999, o Pato Fu trouxe a nítida influência da música eletrônica e engraçadinha da dupla japonesa Pizzicato Five. A referência norteou o conceito desse disco, com baladas, muitas delas falando de amor. E foi justamente no Rock in Rio que a massa descobriu que o Pato também tem uma sonoridade roqueira encorpada, já evidenciada em outros shows da banda.Contudo, as referências do grupo não são apenas do pop e rock internacionais. Além da aproximação com o britpop, firma-se nesse novo CD a admiração pelo rock nacional dos anos 80. Uma das músicas desse período está presente no novo álbum: Tolices, do Ira!. "Sempre gostamos muito da música e do posicionamento Ira! dentro do rock. Eles são éticos e supercoerentes. Além do que, cada integrante tem grande valor individualmente. Sempre que a gente se encontra em algum show, o Pato Fu tocava essa música e foi impossível não colocá-la no novo disco", conta ela.A admiração é recíproca. O Pato Fu, representado por Fernanda, embelezou o CD Isso é Amor (1999) do Ira!. Ela participou cantando um antigo hit de Julio Barroso (ex-líder da Gang 90, morto em São Paulo nos anos 80), Telefone. "Eu fiquei muito feliz na época, aceitei o convite na hora. Desde então, a amizade só cresceu." Mas, Fernanda não acredita que a sua participação seja um dos coloridos que contribuíram para a volta do Ira! - que, há dois anos, estava quase esquecido. E o Pato Fu também emprestou um pouco do seu brilho ao terceiro disco-solo de Herbert Vianna, O Som do Sim, e ao CD 3001 de Rita Lee.O novo CD da banda também terá um bônus, com a releitura de Ando meio Desligado, dos Mutantes, e que é um dos principais temas da trilha sonora da novela Um Anjo Caiu do Céu, da Rede Globo. Nos últimos dois anos, a banda tem composto para TV e cinema. "A gente adora fazer trilhas. Queremos muito firmar esse casamento da música pop com o cinema, pois ele ainda é muito tímido no Brasil", afirma. A mais recente incursão foi com a música do curta-metragem O Surfista Invisível, de Juliana Martins Mundim.Ainda em março, sai um single do novo trabalho. É a regravação da música Eu, de Frank Jorge e Marcelo Brick. "A gente sempre gosta de cantar músicas de outros compositores, mas que não sejam clichês."Como nos discos anteriores, Isopor e Televisão de Cachorro, a produção é de Dudu Marote, um dos mestres em construir hits. Neste ano, o grupo também edita um vídeo com o making of dos melhores e mais recentes momentos da carreira do Pato Fu.

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