Parceria de Aldir Blanc e João Bosco percorre uma transversal do tempo de 50 anos

Parceria de Aldir Blanc e João Bosco percorre uma transversal do tempo de 50 anos

'Bala Com Bala' e 'O Bêbado e a Equilibrista' estão entre as músicas da dupla

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 14h12

A parceria de Aldir Blanc e João Bosco percorre uma transversal do tempo de 50 anos. Estudante de Engenharia em Ouro Preto, Bosco conheceu o letrista em 1970, por meio de um rapaz chamado Pedro Lourenço, que o viu tocar violão. “Tem um amigo meu lá no Rio que ia botar umas letras nessas músicas que você ia gostar”, afirmou Lourenço. Duas semanas, ele trouxe Aldir a Minas em uma Kombi. Da primeira leva de músicas da dupla saíram três canções marcantes: Angra, Agnus Sei e Bala com Bala.

Elis Regina, que já havia gravado Ela, de Aldir e César Costa Filho, impulsionou a parceria ao colocar Bala Com Bala, um intrincado samba, no show É Elis (1972). Ao mesmo tempo, João foi chamado para gravar um compacto distribuído pelo semanário O Pasquim. Agnus Sei entrou no lado B do single, cuja faixa principal era uma inédita de Tom Jobim, Águas de Março. A partir daí, a dupla se fortaleceu, com algumas colaborações dos poetas Paulo Emílio e Cláudio Tolomei.

Segundo disco de João, Caça à Raposa (1975) é o que estabelece os cânones da parceria. Entre sambas bem cariocas (Kid Cavaquinho, De Frente pro Crime, O Mestre Sala dos Mares) e flertes com o bolero e a canção romântica (Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, Violeta de Belford Roxo), as letras de Aldir funcionam como uma crônica do Brasil, com seus personagens suburbanos, sofridos e amorosos.

Após um álbum tão forte, a dupla conseguiu fazer na sequência outro ainda mais potente. Galos de Briga (1976) é uma obra-prima, com relatos conjugais (Incompatibilidade de Gênios, Gol Anulado), sociais (O Rancho da Goiabada) e políticos (O Ronco da Cuíca). A parceria segue afiada até o fim dos anos 1970, quando O Bêbado e a Equilibrista fez sucesso na voz de Elis Regina. Foi o hino da Anistia que permitiu o retorno ao Brasil de quem havia sido exilado pela Ditadura Militar. Um tema lírico que tocava em feridas como o choro das “Marias e Clarices” – Clarice era esposa do jornalista Vladimir Herzog, morto no DOI-CODI de São Paulo – e a “volta do irmão do Henfil”, uma alusão ao sociólogo Herbert José de Sousa, conhecido como Betinho.

Em meados dos anos 1980, a dupla começou a se distanciar. À época, as razões do rompimento foram muito especuladas pela imprensa. Segundo Aldir e Bosco, o afastamento foi natural. Os dois ficaram anos sem se falar. O reencontro ocorreu em 2001, quando Almir Chediak produzia os discos para o songbook de Bosco e convidou Aldir para participar. Juntos, eles cantaram O Bêbado e a Equilibrista.  

Depois de tanto tempo sem se ver, os dois retomaram a parceria. A dupla compôs músicas para atrações da TV Globo como a série Toma Lá da Cá e o remake da novela Gabriela (2012), em que emplacaram a canção Alma de Glória. A última parceria da dupla gravada por João entrou no álbum Mano Que Zuera (2017). Duro na Queda é uma típica parceria Bosco-Blanc, retratando personagens do subúrbio. 

A dupla compôs com outros parceiros de alta categoria ao longo da carreira. Mas Aldir sabia que o que ele construiu com Bosco era especial. O amigo que conhecera há 50 anos tem a mesma opinião. "Fomos amigos novos e antigos. Mas sobretudo eternos. Não existe João sem Aldir", escreveu Bosco nesta segunda-feira, 4, no Instagram. A obra dos dois vai permanecer pela transversal do tempo.

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