Reprodução/Facebook
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Para Leonard Cohen, o fim veio com uma queda à noite

Músico morreu durante o sono depois de uma queda no meio da noite, de acordo com seu empresário

Ben Sisario, The New York Times

17 de novembro de 2016 | 10h49

Quando a família de Leonard Cohen anunciou na semana passada que ele tinha morrido aos 82 anos, não deu nenhuma causa. Apesar de o poeta e compositor ter sido aberto sobre sua saúde em declínio nos meses recentes, os fãs sabiam pouco mais do que a The New Yorker tinha reportado em seu programa semanal de rádio, que Cohen estava lutando contra um câncer.

Nessa quarta-feira, 16, porém, o empresário Robert B. Kory deu mais detalhes sobre a morte do seu cliente.

“Leonard Cohen morreu durante o sono depois de uma queda no meio da noite no dia 7 de novembro”, Kory disse num comunicado. “A morte foi repentina, inesperada e pacífica.”

Nos meses antes de sua morte, Cohen esteve ocupado. Mesmo com seu corpo se fragilizando e dores nas costas, ele estava trabalhando diligentemente para completar vários de seus projetos, de acordo com amigos e colegas. Além de finalizar seu último disco, You Want It Darker, que foi lançado em outubro, ele estava trabalhando em outros dois projetos musicais e um livro de poesia.

“Ele sentiu a janela se estreitando”, disse um produtor e compositor que trabalhou próximo a Cohen nos seus últimos três álbuns, Patrick Leonard. “Ele queria usar o tempo tão produtivamente quanto conseguisse para finalizar o trabalho em que ele era tão bom e tão devotado.”

Cohen, cujo ritmo de trabalho era lento - ele levou cinco anos para escrever sua música mais famosa, Hallelujah -, esteve extretamente produtivo nos anos recentes, fazendo turnês de maneira regular entre 2008 e 2013 e lançando três álbuns de estúdio desde 2012. Algum desse trabalho, dizem seus colaboradores, foi polir material que ele vinha criando há alguns anos.

Leonard disse que quando Cohen morreu, eles estavam trabalhando em um disco de arranjos de cordas de suas músicas e em outro com canções que ele disse que foram inspiradas por ritmos de R&B antigos.

Descrevendo o método deles, Leonard, que também colaborou com Madonna, Pink Floyd e vários outros artistas, disse que ele às vezes receberia e-mails à noite nos quais Cohen rascunhava letras. E então Cohen brincava sobre eles em outro e-mail no dia seguinte.

“Eu me sinto muito agradecido porque tive a oportunidade de receber uma notificação de e-mail”, Leonard disse, “e estar lá uma nova letra de Leonard Cohen”.

Em algumas ocasiões neste ano, pessoas que escreveram a Cohen - geralmente um correspondente confiável por e-mail - obtiveram uma resposta automática. Chris Douridas, um apresentador na rádio pública KCRW, da Califórnia, recebeu um recado “Não posso ler/responder”, e ficou preocupado.

“Senti que ele estava se desplugando do mundo digital”, disse Douridas.

Mas a mensagem era também um jeito de Cohen manter as distrações distantes enquanto trabalhava.

Nas semanas e meses antes de sua morte, ele se envolveu em tanta atividade criativa quanto era capaz. Leonard disse que enviou por email a Cohen um novo conjunto de trilhas R&B na manhã em que ele morreu. Outros amigos falaram em jantar com ele apenas dias antes.

No mês passado, Cohen e seu filho, Adam, que produziu You Want It Darker, foram entrevistados por Douridas num evento promocional para o álbum no Consulado do Canadá em Los Angeles. Cohen teve que ser auxiliado até seu assento, e parecia estar sem fôlego. Mas ele falou com sua típica mistura de sabedoria espiritual e uma inteligência obscura, sem pretensões.

“Eu digo com frequência que se soubesse de onde as boas canções viessem eu iria lá com mais frequência”, disse Cohen, na sua voz seca de barítono, quando questionado sobre seu método de composição.

Douridas disse que após o evento ele perguntou a Adam Cohen se os fãs poderiam esperar um novo álbum. “Ele genuiamente parecia não saber responder essa questão”, disse Douridas.

Adam não quis dar comentários para este artigo, mas num post no Facebook na semana passada anunciando o funeral do seu pai ele escreveu: “Enquanto escrevo, penso na combinação única de meu pai de autodepreciação e dignidade, sua elegância acessível, seu carisma sem audacidade, seu cavalheirismo do mundo antigo e a torre artesanal de seu trabalho”.

Mesmo próximo da morte, o charme afável de Cohen estava intacto. Sharon Robinson, uma cantora e compositora, colaboradora antiga dele, disse que estava na primeira fileira no evento no Consulado do Canadá, e deu abraço em Cohen quando ele deixou seu assento. “Ele disse no meu ouvido, ‘Você está linda, querida’”, relembrou Robinson.

Ela tinha visto Cohen pela última vez em agosto, logo antes de sair em uma turnê. Ele a convidou para sua casa, e depois de oferecer “chocolate, sorvete e sanduíches” tocou para ela o novo álbum num aparelho de som.

Conforme as canções avançavam, ele fechou os olhos e recitou as letras para si mesmo, ela disse, um ritual que ela tinha testemunhado várias vezes. Mas dessa vez ele trabalhava contra o relógio.

“Ele estava lidando com o desafio final, eu acho”, disse Robinson, “e queria estar certo de que falou tudo que queria dizer”. / Tradução Guilherme Sobota - O Estado de S. Paulo

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