PAULO LIEBERT/AE
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Para Fogel, Osesp está mais flexível e madura

Confira a íntegra da entrevista com o consultor norte-americano da Osesp

Flavia Guerra, de O Estado de S. Paulo,

05 de novembro de 2010 | 22h05

Confira a íntegra da entrevista que Henry Fogel, consultor norte-americano da Osesp e ex-presidente da Liga Americana de Orquestras, concedeu ao Estado em outubro, durante sua última passagem por São Paulo.

 

Fogel, que integra o Comitê de Busca da Osesp, que tem como uma das principais responsabilidades encontrar um novo maestro titular para a orquestra, conversou com a repórter Flavia Guerra sobre o futuro da orquestra e seu futuro maestro titular.

 

Pela primeira vez, gente que não é tão especialista em música clássica está passando a seguir os passos e as ações da Osesp como seguimos os passos do cinema nacional. Você acha que a música clássica está se tornando mais popular no Brasil?

Com certeza. E isso é muito bom. A Osesp está ajudando a mudar isso no Brasil. Os ingressos são baratos, é uma orquestra que tem o apoio do Estado. Então, ela pertence ao povo. E tem de ser vista pelo povo. Há quem acredite que para se gostar de música clássica é presico ter estudado. Mas, na verdade, durante toda a minha vida, tive provas de que mesmo a mais humilde e iletrada das pessoas pode amar e entender perfeitamente composições clássicas. Música é uma das mais democráticas das artes. Diz com melodia o que não podemos dizer com palavras.

 

O que você acha que melhorou, ou que mudou na Osesp, desde a saída do maestro John Neschling, em 2009?

A orquestra mudou muito desde a saída de John Neschling. Posso ressaltar, por exemplo, o efeito que a participação de maestros convidados tem sobre os músicos. Esta dinâmica ajuda o grupo a se tornar mais flexível porque maestros querem sempre coisas diferentes. Alguns falam mais, outros gesticulam, uns são diretos, outros mais sutis. E os músicos da Osesp estão sendo expostos a uma grande gama de maestros, o que os ajuda a responder a estilos diferentes de forma saudável. Isso é essencial para a maturidade deles.

 

É preciso se adaptar ao estilo de cada maestro que passa pela orquestra.

Não acho que este seja um modelo perfeito, mas é o ideal. É preciso ter um maestro tituloar, claro. Mas o rodízio de maestro é interessante. Isso porque, ao contrário do velho modelo de regência, em que o maestro era quase um imperador, esta oxigenação constante permite maior troca de ideias e estilos. Músicos profissionais estudam música desde muito jovens. Eles têm suas próprias ideias e sua maneira de fazer música. E merecem ser ouvidos.

 

Você já teve outras experiências com o 'modelo híbrido' que possa citar como bom exemplo?

Vi a transição da Sinfônica de Chicago e pude comprovar como este novo modelo é interessante. A orquestra tinha um maestro muito tradicional, Mr. George Chaunti... , que era muito gentil, mas muito 'old school'. Ele nasceu em 1912 e chamava os músicos de 'minhas crianças'. Além de subestimar os músicos, ele nunca ouvia a opinião e a sugestão de ninguém. Então, o argentino Daniel Barenboim, jovem e cheio de novas ideias, assumiu a orquestra. No começo, ele estava muito frustrado porque os músicos não o ouviam. Daniel teve de fazer a transição de forma muito gradual. Mas valeu a pena. Muito melhor do que ter estudado a vida inteira para tocar de uma forma que alguém manda, é poder trocar experiências e trabalhar em parceria.

 

Você acha que um modelo híbrido seria a melhor escolha para a Osesp?

Com certeza. Esta é a ideia do Comitê de Busca. Meu papel é ajudar a encontrar um maestro fixo que reja cerca de 10 a 12 semanas em uma temporada de 30 semanas, que viaje com eles, que comande gravações com os músicos. E as outras 20 semanas seriam regidas por maestros convidados de várias partes do mundo. E a orquestra terá um diretor artístico, como Arthur Nestrovski, que será quem cuidará disso. Claro que ele contará sempre com a opinião do maestro titular, da minha e do outro consultor, Mr. Timothy Walker. Mas a ideia é trazer sempre os melhores maestros possíveis. E para ser sincero, quando a Osesp optou pela mudança, e nós trabalhamos para trazer convidados, muitos destes maestros nunca tinham trabalho na América do Sul. Ele vieram e se surpreenderam com o nível da orquestra. Sem contar que a Sala São Paulo é uma das melhores casas de concerto do mundo.

 

Você acha que os músicos estão prontos para a turnê internacional atual?

Absolutamente. A Osesp é uma orquestra 'world class'. Possui grandes músicos. Mais que isso, músicos que não querem se acomodar, que querem um líder que arranque o melhor deles. Querem continuar aprendendo. E é por isso que são tão bons. São Paulo tem muito o que se orgulhar deles.

 

O que faz de uma orquestra uma grande orquestra?

Para mim, é a prova é quando os músicos tocam muito bem mesmo quando são regidos por um maestro que não tem nada a oferecer a eles. Esta é uma grande orquestra.

 

Você já tem ideia de quem seria um maestro que possa oferecer muito à Osesp?

Todos querem saber quem será o próximo titular. E claro que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Mas não adianta ter pressa. Não interessa se vai ser um regente famoso, brasileiro, jovem ou não. Acho que não será um superstar porque estes estão, todos eles, ocupados. Mas com certeza será alguém entre 35 e 55 anos, com bom repertório. E tem que ser bom líder porque, no final das contas, é trabalho do maestro, por meio de sua personalidade, fazer com que todos os músicos toquem na mesma sintonia. Para finalizar, será alguém com já considerável carreira no cenário internacional. A Osesp precisa de alguém que a ajude a se projetar no exterior

 

Pode ser um brasileiro?

Claro! Mas não precisa ser. Música é internacional. Grandes orquestras do mundo têm regentes estrangeiros fazendo um ótimo trabalho. Não podemos nos prender a isso. O importante é que seja talentoso e dedicado.

 

O seu website (www.henrysrecords.org) é um dos mais completos do mundo, com um banco de dados que pode ser acessado por qualquer usuário. Como surgiu esta ideia?

Não foi ideia minha. Tenho 68 anos e sou 'old fashion'. Fiz meu banco de dados para uso próprio. E meu filho, que é ótimo com tecnologia, teve a ideia de colocar tudo disponível na internet. Assim todo mundo poderia ter acesso. Achei ótimo e hoje é útil para muita gente.

 

É acessado por músicos? Eles gostam?

Eu não sei quem acessa porque não tenho nehum sistema de controle, mas sei que muitos jovens usam como fonte de pesquisa. E sei que músicos também. Porque é ótimo para calcular a duração de um concerto, por exemplo. Às vezes maestros me escrevem e dizem: "Você não tem esta gravação." E eu digo: "Então me manda que coloco no ar."

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