Paquito D'Rivera volta ao Brasil para shows

Mestre da música cubana fala de sua indignação com volume alto, bateristas ruidosos e Fidel Castro

Entrevista com

Paquito D'Rivera

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 16h00

Cuba poderia tê-lo como um herói. Ao lado do trompetista Arturo Sandoval e do pianista Chucho Valdés, Paquito D’Rivera acionou as turbinas do Irakere, no final dos anos 70, fazendo a música cubana atingir os mais altos registros do jazz. Paquito é o que seus pares podem chamar de monstro. Seus solos de sax e clarinete são transbordamentos de ideias absolutamente originais que parecem surgir não de estruturas pré-moldadas, mas de algum nível de inconsciência que ele mesmo não controla nem explica. “Não sei de onde elas vêm.” Cuba poderia tê-lo como um herói se, nas próprias palavras de Paquito, não tivesse se transformado “em uma monarquia”.

Sua história a partir de 1981 é familiarmente dramática. E a culpa, diz, é de Fidel. Em turnê pela Espanha, decidiu nunca mais voltar à Ilha, deixando por lá o filho e a mulher. Um preço alto que levaria na alma mesmo quando o peito estivesse tomado por medalhas. “Um órfão nunca será completamente feliz”, diz ao Estado, por telefone.

Paquito está no Brasil para uma série de shows ao lado do espetacular Trio Corrente, dos brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (contrabaixo) e Edu Ribeiro (bateria), com o qual ganhou um Grammy neste ano na categoria “melhor álbum de latin jazz” pelo registro Song for Maura. Sua próxima aparição por aqui será neste domingo, às 21h30, de graça, para encerrar a temporada do festival Mimo em Paraty, na Praça da Matriz, Rio. No dia 23 fará o mesmo show no Sesc Pinheiros e, no 24, Sesc Campo Limpo.

Ao Estado, Paquito, que também está lançando um álbum com temas clássicos fala de suas amargas lembranças de Cuba, para onde jamais retornou, e critica severamente os bateristas ruidosos e o mau uso dos microfones: “Eles estão acabando com a música”.

O senhor é um dos cubanos que mais gravou e tocou com músicos brasileiros. Afinal, nossas músicas têm mais semelhanças ou mais diferenças?

Cuba e Brasil têm muitas semelhanças mas muitas diferenças também. Para uni-las, temos que conhecer bem suas origens. Uma batucada cubana no meio de um ritmo brasileiro não fica nada bom, nem vice-versa. São como dois primos que não se dão bem.

Já viu um baterista cubano que saiba tocar samba?

Eu penso que todos podem aprender, com talento e dedicação. Digo que você não precisa ser austríaco para tocar Mozart. Toquei muitos anos com um baterista norte-americano, Mark Walker, que tocava samba como um brasileiro. O problema dos bateristas é outro. Você sabe que eles podem ser muito ruidosos. Por isso, tocar com o Edu Ribeiro (do Trio Corrente) é muito bom. Ele é um fenômeno e tem uma alta energia sem precisar de volume exagerado. 

Volume alto pode ser um inimigo da música?

Escrevi até um artigo sobre isso recentemente. O microfone se tornou uma ameaça. Em vez de ajudar, ele é colocado tão alto, com os bateristas que já tocam forte, que podemos perder as características acústicas da música. Os bateristas e os microfones estão arruinando a música. Os microfones devem ser uma ajuda para melhorar a música, não para tapá-la.

Em 1981, o senhor estava em Madri quando decidiu que não voltaria mais para Cuba. Nunca mais voltou?

Nunca mais, e não tenho nenhuma razão para voltar.

Sua família está lá?

Sim, tenho primos, tios, sobrinhos, aquele é o meu país. Mas eu não vou pedir uma autorização para entrar em meu país. Infelizmente esse país se transformou em uma fazenda particular. E é assim há 56 anos.

Como é viver sem uma parte de você mesmo?

A vida de um órfão nunca será completamente feliz. Sempre sentimos que falta algo. Sinto que “os donos da fazenda” (os irmãos Castro) roubaram o meu país de mim.

O que mais pesou quando decidiu que não voltaria mais?

Havia muito tempo que eu pensava em sair, mas não poderia fazer isso legalmente. E minha mulher não poderia sair comigo porque era arquiteta. Eu perdi a infância do meu filho e perdi o meu casamento, não pude ver meu filho por dez anos. Não vi sua infância acontecer. O governo não permitia que ele saísse e minha esposa também não. Meu casamento acabou.

Acha que fez o que deveria fazer?

Eu faria tudo de novo. Nada neste mundo paga a liberdade. 

Curiosamente, o Brasil, país com o qual você tem ótimas relações, tem boas relações diplomáticas com Cuba...

Isso deveria ser vergonhoso. O mundo todo deveria denunciar os abusos do governo dos Castro. Aquilo é uma ditadura, os irmãos Castro converteram meu país em uma monarquia. É uma imoralidade aprovar algo no qual você jamais poderia viver. Não acredito que Dilma (Rousseff) gostaria que seu país tivesse um sistema como o de Cuba. Como é que ela, com seu governo democrático, pode ser amiga dessa gente? E Fidel é tão descarado que coloca seu irmão como presidente.

Por que é tão difícil achar um músico cubano que fale de política? Chucho Valdés, por exemplo, não fala.

Não fala porque é um medroso (risos). Chucho mora na Espanha e, se falar algo, pode perder o direito de entrar e sair. É preciso ter colhões, e Chucho não tem (risos).

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