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'Pantim’ traz uma Lulina mais realista

Pernambucana deixa boa parte do mundo fantástico em novo trabalho

Paula Carvalho, O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2013 | 18h43

Do escapismo dos vinte anos ao realismo dos trinta. É assim que Lulina volta em Pantim, disco lançado em setembro por sites de streaming e que ela apresenta nesta sexta no Sesc Belenzinho.

O álbum chega quatro anos depois da sua estreia com Cristalina, de 2009, e deixa boa parte do mundo fantástico do disco anterior. As minhocas e margaridas que habitavam a lulilândia foram substituídos por avisos – “respeite o aviso da placa que diz: não alimente as inseguranças” (Respeite) – e indiretas – “a felicidade deixou um recado: disse que estava muito ocupada e um abraço” (Amizades).

 “Todo mundo com quem converso diz que o Pantim está mais triste. Só estou dizendo o que está acontecendo”, diz Lulina. Explica-se: em Cristalina, muitas das músicas foram compostas na fase recém-saída da adolescência, em que a opção mais fácil parecia a fuga dos “problemas de adulto”. Agora, ela conta ter mantido a mesma temática, mas de forma mais realista.

Fora Faxina no Juízo, Imperador Buccini e Areia, todas as músicas de Pantim são inéditas. Faxina traz o bom humor característico de Lulina: ela diz que precisar fazer uma limpa no juízo porque sua cabeça “é um lixo” e pode acumular e endoidá-la.

Sexo é Maquiagem é uma das faixas que mais mostra o peso da banda, que tem Léo Monstro (piano e voz), Missionário José (baixo), André Édipo e Habacuque Lima (guitarra), e Pedro Falcão (bateria). O grupo assina, com Lulina, a produção do disco – mais cru e intenso que o anterior. Para o show, haverá ainda participações de Hurso Ambrifi (baixo e voz), e Pedro Penna (guitarra e voz).

Outro destaque é Prometeu sem Cadeado, cantada em um dueto mais do que franco: “Meu amor, eu prometo, vou te fazer infeliz / pode ser já no começo ou só lá pelo fim / é uma parte do amor assumir que vai ter dor / nunca é fácil, vamos admitir”.

É claro o acento pernambucano no trabalho de Lulina, seja pelo sotaque cantado ou por expressões como a do título do disco – pantim é a palavra usada no Nordeste para tudo que envolva furdúncio, bagunça. O destaque, porém, recai mais no pessoal do que no regional: desde os 15 anos compondo, ela conta que começou a fazer músicas porque cansou do repertório das revistinhas de cifras em que aprendia violão. Quando já estava em São Paulo, entre 2006 e 2007, viveu um período difícil com vários acontecimentos ruins, como a morte da sua avó. Para fazer com que o ano ruim passasse mais rápido, inventava: chamava os amigos e fazia festas de réveillon, com espumante e tudo, e começava um novo ano (sempre com irreverência – tanto que Bosta Nova, de Cristalina, critica justamente o culto às esperanças depositadas na festa de ano novo).

Depois, passou pelo “pantim da vida”. Há 10 anos em São Paulo trabalhando com publicidade, decidiu deixar a rotina das agências. “Eu questionava o que estava fazendo ali, sentada, vendendo uma coisa em que eu não acreditava. Quando você vai ficando mais velho, vai ficando um pouco mais corajoso.Às vezes, algumas estruturas não combinam com a criatividade”, conta.

É por esse reencontro com seu lado inventivo que Lulina quer, também, voltar ao clima das gravações caseiras. No ano que vem, em que comemora 13 anos de carreira e o 13.º disco lançado (contando os compactos), pretende lançar uma continuação de Pantim, feito metade em estúdio e metade em casa. “Passei a vida toda nos álbuns caseiros, gravava com gente passando no apartamento, derrubando copo, gritando. Pensava que aquilo era estranho, mas percebi que quem ouvia gostava, crianças da minha família esperavam pelas tosses acidentais (risos). Hoje, apesar de todas as vantagens da gravação em estúdio, esses momentos se perdem.”

 

LULINA

Sesc Belenzinho. Comedoria. Rua Padre Adelino, 1.000, 2076-9700. Sexta, às 21h30. R$ 5/ R$ 25.

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