"Palco" recupera sobras de Gil

Gilberto Gil é um artista que temuma produção de impressionante regularidade, só comparável à deRoberto Carlos. "Praticamente um disco por ano, embora nemsempre tenha lançado disco anualmente", ele conta.Sem contar todas as suas atividades correlatas, semprefundadas numa extrema generosidade. Na terça-feira, ele gravavao programa de Sandy & Júnior, na TV Globo. "São talentosos,dedicados, pessoas amabilíssimas", defende ele. "E vêm fazendoum trabalho consistente há muitos anos."O material lançado em CD até agoracobre toda a sua obra pregressa ou ficou faltando alguma coisa?Gilberto Gil - Eu tenho a impressão de que ainda faltamumas coisinhas do baú. Mas, curiosamente, quem pode falar sobreisso é o Marcelo Fróes (pesquisador e diretor musical da caixaPalco). Ele sabe melhor do que eu.A caixa traz dois discos com sobras de gravação. Emgeral, pensa-se que sobras são materiais desprezados na ediçãopor um ou outro problema, algum tipo de deficiência.Em geral, é mesmo. Nesse caso é também. São coisasdesprezadas basicamente por inadequação ao roteiro final dodisco, uma coisa que não se encaixava. Em geral, são coisas quenão couberam na arte final, que foram insatisfatórias por ummotivo ou outro.Por que recuperar as sobras?A idéia é essa mesma, é ir para os intestinos.Mostrar um pouco dos bastidores das gravações, colocar ascuriosidades, o gerúndio - o conhecendo e o fazendo. Todo refinotem a borra. É um pouco isso. A perspectiva dessa caixa não énecessariamente mercadológica, não é algo feito para vender eganhar dinheiro. É um pouco disponibilizar as coisas, para apessoa entrar nos lugares de produção, nos ambientes, nosprocessos.Com o CD "Salvador - 1962-1963", vocês reeditaram omaterial da gravadora Jorge Santos, o seu primeiro começo comomúsico. Como artista, como você se sente quando ouve aquelascoisas? Acha algo muita remoto, muito distante daquilo em quevocê se tornou?De uma certa forma sim. Mas ali tem a alma, oembrião, também é importante para compreender o processo. TemEu Vim da Bahia, que é o embrião de tudo. São coisasmarcantes, que sustentaram, deram o impulso. Aquele momentoanuncia as coisas, no jeito de interpretar, de tocar, aperformance violonística. Essa etapa foi sendo ampliada,substituída ao longo da carreira, mas vai estar sempre comigo,mesmo quando estiver velhinho, velhinho - isso se eu ficarvelhinho. É como Caetano e Coração Vagabundo, que é tambémuma coisa remota dele, diferente de tudo que ele faz hoje, masque vai estar sempre lá marcando a poética dele.

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