País ganha Companhia Brasileira de Ópera

Ministro da Cultura e maestro John Neschling anunciam a criação do novo organismo a partir do ano que vem

João Luiz Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

12 de novembro de 2009 | 16h11

O ministro da Cultura Juca Ferreira e o maestro John Neschling anunciaram na manhã desta quinta-feira, 12, a criação da Companhia Brasileira de Ópera que, a partir de abril do ano que vem, pretende realizar mais de cem apresentações de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, em cerca de 20 cidades do País. Orçado em R$ 14 milhões, o projeto, segundo o maestro, está na sua "etapa 1" - foi aprovado para captar por meio da Lei Rouanet e agora parte em busca de patrocínio. "Estou me lembrando da primeira coletiva que dei, 12 anos atrás, falando dos planos de refazer a Osesp", disse o maestro.

 

Não se trata de uma companhia estatal - e, nesse sentido, estranhou-se a presença oficial do ministro da Cultura na coletiva de anúncio do projeto. "De fato, essa é uma iniciativa privada, mas o Ministério entende que, por sua importância, deve apoiá-la. E ele se encaixa na maneira como entendemos o papel do Ministério", disse Juca Ferreira. "Nosso foco é a democratização da Cultura, por um lado dando acesso ao público e, por outro, permitindo que todas as áreas tenham acesso à captação de verbas." Sobre a participação no projeto, Ferreira disse ainda que o Ministério o apoia, num primeiro momento, apenas institucionalmente, o que imagina deve facilitar o processo de obtenção de verbas, inclusive por meio de empresas estatais.

 

"A ideia surgiu a partir da dificuldade de se fazer ópera no Brasil hoje", explicou Neschling. "Há uma enorme tradição brasileira no gênero, mas ela foi se desfazendo, com poucas oportunidades para o público e para os profissionais. Daí o formato de uma companhia fixa, em que técnicos, cenógrafos, cantores, orquestra, maquiadores, iluminadores, enfim, todos sejam contratados e tenham tranquilidade para desenvolver seus trabalhos. E, claro, a ideia é que eles, nas cidades em que visitarmos, possam oferecer oficinas, aulas, seminários, visando a formação de novos profissionais. A proposta não se resume à exibição de uma ópera, queremos criar uma nova dinâmica de produção operística no País".

 

Não há ainda uma sede para a companhia - e ministro e maestro falam que já começam a estudar sua criação. "O ideal é ter um espaço onde as montagens possam estrear antes de viajar pelo restante do Brasil. No ano que vem, teremos o Barbeiro mas, para o outro ano, podemos oferecer um novo título, a ser apresentado ao mesmo tempo que o Barbeiro, que iria a cidades ainda não visitadas. Com o tempo, por que não pensar em cinco, seis, sete produções viajando ao mesmo tempo pelo País?", disse Neschling.

 

O título escolhido foi O Barbeiro de Sevilha, segundo Neschling, por ser uma ópera de câmara, fácil de viajar. Será criada uma orquestra - a ser comandada por Neschling e maestros convidados como Abel Rocha, Vitor Hugo Toro e Ira Levin - e três elencos serão formados. "Esses artistas vão se dividindo ao longo da temporada. E é importante dizer que não hierarquiza o elenco, o barítono que num dia faz o Figaro no dia seguinte canta Fiorello e por aí vai." A concepção cênica da ópera, assinada pelo diretor italiano Pier Francesco Maestrini, faz uso de um desenho animado de duas horas e meia em que é narrada a história da ópera. "Os cantores vão interagir com o desenho animado, que será exibido em uma tela especial que permita esse diálogo. O Barbeiro é uma ópera difícil de interpretar, mas fácil de viajar. E essa linguagem de cinema pode ajudar a atrair o público que nunca teve contato com este tipo de espetáculo", afirmou Neschling.

 

"O que nos parece particularmente interessante nesse projeto é a constituição de um novo território. Quando se pensa na vida cultural do País, apenas cerca de 20% da população tem acesso a grandes espetáculos. No caso da ópera, a porcentagem é, estou certo, ainda menor. Um projeto como esse, que viaje por todo o País, pode ajudar a criar um território novo para o gênero e, esperamos, dar maior ressonância para ele".

 

Mea culpa

 

Entidade privada, a Companhia Brasileira de Ópera recebeu a chancela de apoio do Ministério da Cultura que, segundo o ministro Juca Ferreira, pode eventualmente ajudar o projeto financeiramente. No entanto, perguntado pelo Estado sobre políticas mais amplas que não contemplem apenas um projeto mas o setor de maneira mais completa, o ministro reconheceu a falta de uma política cultural específica para o setor. "Eu posso dizer que ajudamos, por meio da Lei Rouanet, teatros e orquestras de todo o País, além de projetos como de resgate de partituras. Mas temos uma política? Não, estamos devendo. Acredito que é necessário sair de uma visão atomizada, de investimento em determinadas iniciativas, e partir para uma política mais ampla, que tenha como objetivo o estímulo da produção sinfônica e operística em todo o território nacional. É minha percepção, por exemplo, que foi insuficiente a homenagem a Villa-Lobos no aniversário de 50 anos de sua morte.

 

Estamos sim devendo uma política sistemática para o setor." Em resposta, o maestro John Neschling questionou um papel mais presente do Estado. "Somos nós da sociedade civil e não o ministério que devemos nos organizar e sugerir projetos", disse. O ministro, no entanto, insistiu em sua argumentação. "O Estado tem sim que criar políticas, tem que pensar em formação de plateias, em possibilidades de estudo para os músicos, em revisão de partituras e assim por diante. Não se trata de ser paternalista, mas também não podemos abrir mão do papel fundamental do Estado."

Tudo o que sabemos sobre:
músicaópera

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.