Pacote revisa a segunda revolução do jazz

Para os amantes de jazz, nomes como Prestige, Galaxy, Milestone, Riverside, Debut, Contemporary ou Jazzland são cintilantes, aquilo que equiparam a um pote de ouro no fim do arco-íris. São selos de jazz cujos catálogos mantêm os maiores tesouros do gênero, discos que registraram a grande ebulição jazzística do século passado. Um dos selos mais famosos, o mítico Fantasy - que englobou parte daqueles citados acima -, fundado em São Francisco em 1949 (seu primeiro artista foi Dave Brubeck, então um jovem pianista de Oakland), começou a mostrar seu pote de ouro no ano passado, quando a BMG lançou 20 dos seus grandes títulos no Brasil. Agora, estão nas lojas outros 20 títulos.Difícil dizer aqui o que não seja essencial. Boa parte dos lançamentos assinala uma fase que poderia ser descrita como "a segunda revolução do jazz", com datas que vão dos anos 50 aos 70. Esse período, compreendido como a fase "moderna" dessa música, abrigou da avant-garde de Ornette Coleman ao impressionismo de Bill Evans, passando pelo crossover de Dizzy Gillespie e pela profunda erudição de Charles Mingus.Começaremos pelo que brilhou mais intensamente na hora de abrir o pacote: The Hawk Flies High. O falcão Coleman Hawkins (1901-1969) realmente voou alto nesse disco, gravado em 1957 com jovens instrumentistas, como J.J. Johnson e Idrees Sulieman e uma notável seção rítmica, com os bateristas Jo Jones, Osie Johnson e Gus Johnson. Numa época em que os grandes pioneiros do sax tenor estavam desaparecendo - ou morriam ou saíam de cena -, como foram os casos de Don Byas e Lester Young, Coleman Hawkins conseguiu renascer artisticamente com esse álbum.Uma nova direção - Discos notáveis aparecem por sua importância como sinalizadores de uma nova direção. É o caso, por exemplo, do álbum The Incredible Jazz Guitar of Wes Montgomery, gravado em Nova York, nos dias 26 e 28 de janeiro de 1960. "Não tem erro. Wes Montgomery (1925-1968) é a melhor coisa que aconteceu na guitarra desde Charlie Christian", escreveu na Down Beat o crítico Ralph J. Gleason. O tempo mostraria que ele tinha razão. Com Tommy Flanagan (piano), Percy Heath (baixo) e Albert Heath (bateria), Montgomery fez aquele que é considerado seu melhor disco pela crítica - invoco aqui apenas os depoimentos de Richard Cook e Brian Morton. O disco é envolvente, do blues à balada, e sempre surpreendente, com solos de rara originalidade, como o que ele faz em West Coast Blues, também sua composição.Wes Montgomery era o irmão do meio da família Montgomery, de São Francisco, que também tinha o vibrafonista Buddy e o baixista Monk, uma espécie de Jackson Five do jazz. Começou tarde na guitarra, aos 25 anos, mas acabou se tornando o mais brilhante da família. Misturou as contribuições de Charlie Christian e adicionou algo da concepção harmônica do cigano Django Reinhardt. Tocou na banda de Lionel Hampton e morreu muito cedo, de forma imprevista.Continuando na linha revolucionária, mas dessa vez também acrescida da palavra "elegância", está Sunday at the Village Vanguard, com o Bill Evans Trio (o baixista Scott La Faro ganha status de "músico convidado"). Lírico, introspectivo, o pianista Bill Evans (1929-1980) foi o notável parceiro de Miles Davis até 1958. Ao deixar Miles, ele fez história com seu trio, indo em direção ao mesmo impressionismo europeu que já tinha fascinado Bix Beiderbecke (1903-1931) 20 anos antes.As seis canções do disco original (pinçadas de álbuns anteriores do pianista) ganharam quatro gravações adicionais, inéditas: Gloria´s Step, All of You, Jade Visions e Alice in Wonderland. Antes dessa fase do Bill Evans Trio, o pianista estava tendo problemas para encontrar bons baixistas, mas a chegada de La Faro contribuiu para que ele formasse um dos maiores piano-trios jamais reunidos.Escândalo e respeito - Raridade é o disco Shelly Manne & His Friends: My Fair Lady, o modernismo jazzístico em sua essência. O baterista Shelly Manne (1920-1984) nasceu e cresceu em Nova York, mas tornou-se, ironicamente, uma expressão bem acabada do som West Coast. Nessas versões do musical My Fair Lady, ele e o pianista alemão André Previn (nasceu em Berlim, veio para os Estados Unidos em 1939) e o baixista Leroy Vinnegar transformam as notações musicais de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe. Previn explicou, em entrevista, que a meta de Manne, ele e Vinnegar não era simplesmente escandalizar, mas mostrar "o grande respeito" que tinham pelo espetáculo, e pagar "nosso sincero tributo ao show, tocando a trilha completa em nosso próprio estilo".Há também álbuns tardios de grandes ídolos de várias fases do jazz. É o caso de This One´s for Blanton, com Duke Ellington ao piano e Ray Brown no baixo, gravado em Las Vegas em 5 de dezembro de 1972. O disco reedita com delicadeza e sofisticação outras parcerias históricas do Duque, como Duke Ellington Meets Coleman Hawkins e Duke Ellington and John Coltrane, ambos de 1962.

Agencia Estado,

13 de março de 2003 | 15h43

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