Paco de Lucía contribuiu com grandes nomes do cinema

Deixou sua marca em 'Kill Bill', de Quentin Tarantino, com 'Malagueña Salerosa'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2014 | 12h29

Conta a lenda que o próprio Joaquín Rodrigo, presente na gravação de seu Concierto de Aranjuez, teria dito que ninguém tocara a peça com tanta intensidade e paixão como Paco de Lucía. Em 1991, quando gravou o Concerto, Paco já era considerado o grande revolucionário do flamenco e em sua discografia havia joias raras - 12 Canções de García Lorca para guitarra e um outro álbum em que interpretava Manuel de Falla.

Paco morreu nesta madrugada, no México, aos 66 anos. Costuma-se dizer que o flamenco capta a alma da Espanha como o fado, a de Portugal e o samba, a do Brasil. Identificado com a região de Andaluzia, o flamenco não é só uma música, mas também uma dança. Suas origens remontam a diferentes culturas - cigana, mourisca, árabe e judaica. É um produto impuro, da miscigenação. Dançarinos de flamenco são especiais - os homens são másculos, as mulheres exalam sensualidade. E as mãos - elas executam uma dança própria no ar. Pode-se ficar magnetizado só com os movimentos das mãos, enquanto a dança é executada.

Começou só cantada, depois veio o acompanhamento de violão ou guitarra e, finalmente, o baile. Esses três movimentos - cante, toque e baile - podem, eventualmente, ser dissociados. Existe flamenco sem cante, mas sem toque e baile é difícil. É muito cinematográfico, e o cinema muitas vezes fez apelo a Paco de Lucía.

Seu nome de batismo era Francisco Sánchez Gómez, mas virou Paco. De Lucía era uma homenagem/referência à mãe, para dizer que Paco era filho de Luzia (era portuguesa). Como ele mesmo, apareceu em Carmem, a adaptação da tragédia clássica do ciúme (de Prosper Merimée e Georges Bizet) por Carlos Saura. Antes disso, já tocara em Bodas de Sangue, também de Saura, baseado em Lorca. Ainda colaboraria com ele em Sevillanas.

Foram muitas trilhas - para Stephen Frears (The Hit), Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona) e até Quentin Tarantino, ou você se esqueceu de Malagueña Salerosa em Kill Bill? Em 2004, Paco de Lucía recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias por sua contribuição à arte da Espanha. Como artista, permanecia enraizado na tradição, mas buscava novos territórios - coisas novas que não tinha medo de transpor para o flamenco. Em 2010, o flamenco fopi declarado patrimônio da humanidade pela Unesco. Na tela e no tablado, Paco de Lucía contribuiu para esse reconhecimento.

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