FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Pacaembu resgata vocação de ser complexo de cultura e lazer

De acordo com a concessionária, acústica é prioridade para que o som não incomode a vizinhança e volte a ser motivo de queixas

DANILO CASALETTI, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

28 de abril de 2022 | 05h00

O show de Gal Costa, As Várias Pontas de Uma Estrela, que ela estreou em novembro de 2021, vai inaugurar no próximo sábado, dia 30, o Pavilhão Pacaembu, espaço cultural que a concessionária do estádio, a Allegra, instalou no espaço onde, antes das obras de restauro e modernização que promove no local, ficava o gramado de um dos templos do futebol da cidade. O Pavilhão, que pode receber até 9 mil pessoas, para o show de Gal, terá 3 mil lugares disponíveis em mesas, configuração comumente usada pelas casas de show. O próximo espetáculo no espaço será o do padre Fábio de Melo, em uma comemoração do Dia das Mães. 

A estrutura funcionará até pouco antes da conclusão das obras, programada para o final de 2023. O novo Pacaembu, então, ganhará um espaço permanente para eventos, no subsolo de um novo edifício que será erguido no local da arquibancada que ficou conhecida como tobogã. A cantora baiana, que vive em São Paulo há uma década, tem uma forte ligação com a capital paulista – foi aqui que sua carreira ganhou força, sobretudo depois da participação no 4.º Festival da Música Popular Brasileira, em 1968, quando cantou Divino Maravilhoso, de Caetano e Gil. 

“São Paulo é uma cidade na qual você pode manter sua individualidade. Ficar quieta em casa ou sair para o fuzuê. Me identifico. Tenho esse lado paulista do trabalho, da pontualidade e da seriedade. Quando eu morava no Rio e estreava meus shows por lá, tinha a sensação de que o show ganhava um tom mais sério (no sentido de força) quando chegava por aqui”, diz Gal ao Estadão.  Há alguns dias, a Allegra, concessionária que assumiu a gestão do Complexo Esportivo do Pacaembu em janeiro de 2020, teve de lidar com fake news. Um vídeo da tenda que foi erguida no gramado para abrigar o Pavilhão Pacaembu circulou pela internet com texto alardeador que dizia que a estrutura era um novo hospital de campanha para tratamento de doentes da covid – algo desmentido pelos serviços de checagem dos veículos de comunicação, inclusive pelo Estadão Verifica.

A reportagem do Estadão visitou a estrutura de 4 mil m² e pé-direito de 18 metros, na segunda, 25. Embora o local ainda estivesse sendo finalizado, foi possível ver que, se por fora, de fato, ele lembra as barracas emergenciais, por dentro, sem a visão das obras, a sensação é outra. Com laterais, frente e fundo de alvenaria, o Pavilhão Pacaembu lembra uma casa de shows. Para os artistas, 5 camarins, uma sala de produção e outra de estar. Na plateia, quatro blocos de banheiros espaçosos. A entrada será pela Praça Charles Miller.

No teto, enormes bolas cor de cinza feitas de lona ajudarão – segundo espera a empresa – a diminuir ainda mais a sensação de que o público esteja dentro de uma grande tenda. As bolas devem ganhar uma iluminação especial. O projeto de cenografia é assinado por Carlos Pazetto. Quando houver show com mesas, como o de Gal Costa, a plateia terá três níveis de piso (e preços) para facilitar a visão do palco. O serviço da cozinha, no show da cantora e no do padre Fábio de Melo, programado para 8 de maio, será do Bar da Dona Onça, com sede no Edifício Copan.

O espaço também permite outras configurações. Entre 1.º e 5 de junho, vai abrigar a ArPa, feira de arte, e, no mesmo mês, a Made, Feira Internacional de Design Colecionável. A concessionária também quer eventos esportivos no espaço, como jogos de vôlei e basquete. Para Eduardo Barella, CEO da Allegra Pacaembu, que acompanhou o Estadão na visita ao Pavilhão, a iniciativa devolve ao Pacaembu sua primeira vocação – a de ser um complexo de cultura e lazer, além do esportivo e, de certa forma, antecipa a volta do público ao local – e, claro, dá início à exploração comercial do espaço.

“É a maior intervenção em 80 anos. Então, mesmo que as pessoas vejam na imprensa o que está sendo feito, não têm ideia sobre como vai ficar. Queremos dar um gostinho disso tudo a elas. Somos gestores privados de um equipamento que é público”, explica. 

O Pacaembu, além de ter sido a casa do Corinthians por décadas, recebeu, ao longo dos anos, shows históricos, com os dos Rolling Stones, em 1995, com público de 150 mil pessoas em três dias, e do Iron Maiden, em 2004. A última apresentação musical foi do Pearl Jam, há 17 anos.

O som que reverberava do estádio nessas ocasiões era alvo de reclamações dos vizinhos do estádio. De acordo com Barella, todos os cuidados com a acústica estão sendo tomados. No teto do Pavilhão, camadas de lãs de vidro e de rocha, espuma e outros materiais tentarão impedir incômodos à vizinhança. Cinco pontos de medição dentro do Complexo do Pacaembu vão aferir os decibéis gerados pelos shows. “Vamos cumprir os limites estabelecidos por lei. Mesmo em eventos de locatários (os shows de Gal e padre Fábio são produzidos pela concessionária), está no contrato que a operação da mesa de som será nossa. É um tema sensível, mas estamos seguros em relação a isso”, garante o executivo. 

Segundo Barella, o plano de negócios da concessionária não prevê shows de gramado, quando o novo estádio for inaugurado – atualmente, o Allianz Parque abriga os espetáculos de grande porte da cidade. “Precisaria de um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público. Nosso objetivo é realizar os shows no nosso centro de eventos.” 

Entrevista com Gal Costa

Você tem sido convidada para vários festivais.

Acabei de fazer o Rock the Mountain (em Petrópolis). Que galera linda! Uma gente jovem. Eles cantam absolutamente tudo. É um bálsamo, não só para eles, mas para mim também.

Aliás, sua geração tem atraído o público mais jovem recentemente.

Sim. Penso que eles queiram ouvir um tipo de música diferente da que a que vem sendo tocada pelos artistas mais novos.

No ano que vem, será lançado um filme contando sua trajetória desde a gravação de seu primeiro disco até sua participação na Tropicália e no show Fa-tal. Que memória você guarda?

Algumas felizes e outras tristes. Foi um tempo de ditadura, difícil para os artistas. E há quem queira reviver esse período monstruoso. Há pessoas que não sabem como a ditadura é tão maléfica para o País, para cultura.

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