REUTERS/Denis Balibouse
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Ovacionado com Caetano em Montreux, Gil diz que País sofre efeitos da crise mundial

Com shows da dupla programados ainda para França, Itália, Portugal, Espanha, Israel e Brasil, turnê pode ter novas datas

Jamil Chade, Correspondente - O Estado de S. Paulo

15 Julho 2015 | 19h39

MONTREUX - O sucesso mundial da turnê de Gilberto Gil e Caetano Veloso é o resultado do êxito de décadas da música brasileira no exterior e não apenas de duas pessoas. Quem faz a avaliação é o próprio Gil, que, na quarta, 15, lotou mais um teatro ao lado de Caetano. Ovacionada no Festival de Jazz de Montreux, a dupla foi uma das principais atrações deste ano do evento, com ingressos a mais de R$ 1 mil. 

“Não vejo esse sucesso como algo pessoal. Ele não é nosso. É da história da música brasileira e, acima de tudo, da acumulação do trabalho de centenas de artistas brasileiros que ganharam projeção no exterior. No fundo, esse sucesso é o prestígio da música brasileira”, disse Gil em entrevista exclusiva ao Estado

Com shows programados ainda para França, Itália, Portugal, Espanha e Israel, a turnê pode ter novas datas, diante da procura por ingressos. 

“A dimensão pessoal desse sucesso não tem importância. A arte brasileira teve um impacto importante no mundo nas últimas décadas, para as relações diplomáticas, políticas e econômicas”, avaliou. 

O cantor ainda comentou a pressão contra a ideia de a turnê fazer uma parada em Israel, por conta da crise palestina e das acusações de grupos de direitos humanos contra as práticas do governo israelense. “Não fiquei surpreso com isso. Tenho ido com muita frequência nos últimos anos e todas as vezes temos tido manifestações no sentido de desestimular a ida. Mas escolhemos ir. Vou cantar para um Israel palestino. A presença de um setor importante da sociedade de Israel é favorável a um estado palestino, a uma política mais tolerante e harmoniosa. Essa parcela é quase metade da população. Eu sou dessa metade”, justificou. 

Gil também não evita falar do momento político brasileiro. Apesar da crise, um aspecto positivo que ele destaca no País é o fato de não haver a personificação de um líder. “É bom estar sem lideranças muito pessoais. É um momento que é bom assim, que as responsabilidades em relação aos comandos estejam divididas entre os vários partidos, entre as várias personalidades. Inclusive da liderança que se exige da presidência, é bom que se tenha esse cenário para que Dilma (Rousseff) fique mais tranquila”, disse. 

Gil, que foi ministro da Cultura no governo Lula de 2003 a 2008, também não acredita que as vozes em defesa da queda do governo tenham sucesso. “Não haverá impeachment. Não há razão nem clima. Dilma vai concluir o seu mandato. É natural que conclua.” Ele diz não se surpreender diante das vozes que pedem um golpe. “A sociedade é assim. Tem gente que fala em nazismo na Alemanha, tem gente que fala em monarquia. Tem de tudo”, afirmou. 

Gil não nega que a crise econômica no Brasil seja uma realidade. Mas, para ele, o País sofre as consequências da turbulência financeira internacional. “O Brasil está vivendo um pouco o resultado de ter-se projetado um pouco mais na cena mundial nos quatro últimos ciclos governamentais, desde Fernando Henrique, Lula e Dilma, com as mudanças importantes que ocorreram na economia brasileira”, ressaltou. “Agora, o que nós vivemos é também o resultado da crise mundial que se instalou e o Brasil, por esse processo interno, passou a ser mais passível de ser afetado por qualquer coisa que possa ocorrer.”

Gil tem repetido sua crítica às políticas de austeridade adotadas na Europa. “O que ocorre no plano da globalização é muita dificuldade, na Europa, na Grécia. As consequências da austeridade adotada pelos bancos centrais são desastrosas”, alertou ainda. 

Para ele, o mundo não vive a mesma tensão militar que havia nas décadas passadas. “Mas as tensões estão crescendo justamente naquilo que diz respeito à sociedade, ao dia a dia das pessoas, à renda, ao emprego, ao refugiado”, avaliou. Segundo Gil, essa tensão já começava a existir quando ele se refugiou na Europa, nos anos 1970. “Essas coisas já estavam surgindo em uma Europa mais reacionária, mais obcecada com a questão dos empregos locais, a competição com o trabalhador estrangeiro. Isso tudo estava começando e agora ganhou muita força. É aí que estão as tensões hoje”, completou. 

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