Osvaldo Lacerda lança antologia "Lembrança de Amor"

Osvaldo Lacerda chega aos 74 anosesbanjando vitalidade. Autor de mais de 350 obras de diferentesestilos e gêneros, ele acompanhou de perto cada etapa - desde aidéia inicial aos problemas relacionados a direitos autorais,passando pelas exaustivas horas em estúdio - da confecção deLembrança de Amor, disco com canções suas interpretadas pelapianista Eudóxia de Barros, que é sua mulher, e pelameio-soprano Denise de Freitas. Recém-lançado, o trabalho é umahomenagem à sua carreira. Não, mais do que isso, um disco dojeitinho que ele queria.O repertório do disco é composto por canções escritas aolongo dos mais de 50 anos de carreira de Lacerda. "Não tenhopreconceitos quanto ao estilo ou o poeta, minha principalpreocupação é que o poema seja, ao meu ver pelo menos, musical", diz o compositor. Para tanto, a criação inicia-se com arepetição exaustiva, em voz alta, do poema. Até que a músicasurge e é passada para a partitura. "O ato de recitar éfundamental para a compreensão das canções", explica Lacerda,justificando assim a escolha de Denise para a gravação. "Elasabe fazer isso e bem."Dois meses de ensaios, nos quais os três conviveramhoras e mais horas diárias no estúdio do compositor, precederama gravação. Cantora e pianista posicionadas, o compositor aolado, acomodado em um banquinho. "Todo o processo foi muitocansativo, gravamos 32 canções em três dias, dez de cada vez, erepetíamos pelo menos três vezes cada uma", diz Denise. E ocompositor ao lado. "No começo, tentei impor minhas visões, masele, com bastante jeito e paciência, ia dizendo o que ele queria o que tinha pensado para aquela canção." O que torna otrabalho mais difícil, reconhece Denise. "Mas, ao mesmo tempo,era muito bom tê-lo ali do meu lado. Percebi que era, afinal,para isso mesmo que eu estava lá."Das 32 canções, apenas 27 chegaram ao disco final -cinco, com textos de autores como Cecília Meirelles e ManuelBandeira, tiveram de ser cortadas, pois os familiares nãoliberaram os direitos autorais. "Para cada poesia de ManuelBandeira me pediram o que chamavam de ´preço simbólico´, R$ 1mil. Eram quatro: com esse dinheiro, eu poderia gravar outrodisco", comenta Lacerda. "Com os herdeiros de CecíliaMeirelles, foram meses de conversa, após eu conseguir que elesatendessem minhas ligações, e não conseguimos nada, e tivemos detirar Retrato do disco", conta Eudóxia.Lacerda lembra que conheceu Bandeira pessoalmente.Acredita ser errado "que um compositor tenha de pagar para versua obra divulgada". Diz que a obra desses poetas é umpatrimônio público, que precisa, antes de tudo, de divulgação. E, como quem não quer nada, vai a seu estúdio e pega uma carta,devidamente emoldurada, na qual Carlos Drummond de Andradeagradece ao compositor "por ter usado seus poemas para acriação de peças do mais fino lavor".Complicações - Esses, no entanto, não foram os únicosproblemas enfrentados por ele para a produção do disco. O seloSom Puro fabricou o disco, mas não o lançou. Nem o distribuiu. Asolução foi, discos a tiracolo, a visita a algumas lojas, nemsempre receptivas aos discos. No fim das contas, o disco só podeser encontrado e comprado na loja Bevilacqua (Rua Pamplona,1.196), pela revista Concerto (0--11 5535-5518) ou pelo sitewww.correiomusical.com.br.Apesar de tudo, para Lacerda ainda há uma pitada deotimismo, talvez estranha a alguém que viveu, ao longo dacarreira, a falta de interesse de editoras ("O xerox complicoude vez as coisas"), gravadoras e mesmo de intérpretes. "Mesmomuitos brasileiros que se julgam ´bacanas´ só interpretamVilla-Lobos e mesmo assim porque ele fez sucesso lá fora." Écom pesar que ele ainda vê a mente colonizada dos artistas e dopúblico, assunto a que ele já se referia em entrevistasconcedidas na década de 50. "Mas a recepção do público pareceser cada vez melhor, há gente boa surgindo, e está claro que jápodemos fazer música nossa, apartada da realidade européia."

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