Osvaldinho da Cuíca revisita o samba paulista

O músico Osvaldinho da Cuíca, de 76 anos, é uma espécie de enciclopédia ambulante do samba, sobretudo do samba paulista. Mais do que um defensor, Osvaldinho faz de tudo para que o gênero e sua história não caiam em completo esquecimento. É por essas e outras que costuma se envolver em projetos que nascem sem qualquer vocação comercial: têm simplesmente a missão de serem um resgate. Dentro desse espírito, ele acaba de lançar o CD Osvaldinho da Cuíca Convida - Em Referência ao Samba Paulista, pelo Rio 8 Fonográfico, cujo repertório deve dar o tom aos shows que apresenta hoje, na APM, e no dia 12, na reinauguração da quadra da Escola de Samba Vai-Vai (sua escola do coração e para a qual compôs muitos sambas-enredo premiados). Um de seus antigos projetos, o disco registra o conhecimento de Osvaldinho sobre o assunto, após anos pesquisando, ouvindo, tocando. Foi um certo artigo escrito pelo crítico musical José Ramos Tinhorão, em 1975, que funcionou como mola propulsora de tudo isso, conta Osvaldinho. O mote do texto fora seu então novo LP Vamos Sambar. ?Ele escreveu que o que imperava no meio não era virtude, era a mediocridade. E que embora fosse um dos grandes percussionistas do Brasil, eu havia me enveredado pelo caminho da mesmice, não acrescentando nada à cultura regional?, lembra. ?Pensei: ?Sabe que ele tem razão?. A partir disso, comecei a aproveitar minha memória, minha vivência dentro do samba. Comecei a estudar o samba paulista, a cultura regional paulista. Pela sua dimensão geográfica e receptividade da cultura que vem de todos os Estados e países, São Paulo tem um mosaico cultural incomparável.?Segundo Osvaldinho, o samba de São Paulo se configura a partir basicamente de duas vertentes - o rural e o urbano - ambas devidamente representadas em seu novo trabalho. Além de propor o resgate dessas duas vertentes primordiais, Em Referência ao Samba Paulista faz homenagem aos bairros de São Paulo e a personagens esquecidos da cidade, entre canções inéditas e regravações. Personagens como o sambista Dionísio Barbosa, cantado no CD por Aldo Bueno na música Barra Funda (de Osvaldinho). ?Dionísio nasceu em 1891 e foi o primeiro a fazer um samba na Barra Funda, que é o berço da batucada paulista?, descreve. Para o percussionista, nomes como o de Dionísio é que deveriam batizar a passarela ou até mesmo o sambódromo de São Paulo. Na opinião dele, associar Grande Otelo ao nome oficial do sambódromo, assim como Adoniran Barbosa à passarela do local são dois equívocos. ?Cadê Dionísio, Geraldo filme, Francisco Pinga...??Paulistano nascido no Bom Retiro, Osvaldinho da Cuíca se cercou de outros convidados em seu disco, além de Aldo Bueno, como Quinteto em Branco e Preto (grupo que representa a nova geração do samba), Demônios da Garoa (do qual foi integrante durante anos) e de Jair Rodrigues. Para quem tocou com todos os tipos de músico durante cerca de 50 anos de carreira, ele também quis estar acompanhado no próprio trabalho. Está em seus planos ainda lançar um DVD em que dá dicas sobre percussão e outro sobre sua vida, para os quais busca patrocínio.

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