Osesp60 desmonta o rígido ritual do concerto

Apresentação de 60 minutos sem intervalo e conversas dos músicos com a plateia funcionou bem, ainda que parte da plateia não tenha ficado

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

17 de novembro de 2017 | 21h31

Demorou, mas as partituras de Bach, Haendel e Corelli voltaram a frequentar as estantes dos músicos da Osesp. O movimento da música historicamente informada - aquela tocada com instrumentos de época e resultado de intensas pesquisas musicológicas e documentais visando reconstituir algo da sonoridade da música antiga - acabou tirando este repertório extraordinário das orquestras sinfônicas. É verdade que as interpretações sinfônicas em geral transformam Bach, Haendel e Corelli em compositores românticos e nos distanciaram demais desse tipo de música.

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Durante boas décadas, esse repertório foi reserva de mercado dos grupos historicamente informados. Hoje, numa atmosfera em geral muito menos xiita na vida musical dita clássica, são possíveis empreitadas interessantíssimas como as do último dia 16, na Sala São Paulo. Uma formação do tipo clássico - 50 músicos - interpretou três dos maiores “hits” barrocos: a Música para os Fogos de Artifício, de Haendel; a Suíte Orquestral no. 3, de Bach, aquela que contém a celebérrima ária da quarta corda; e o concerto grosso Fatto per la Notte di Natale, de Corelli.

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Luís Otávio Santos, 45 anos, violinista de amplo destaque no movimento europeu de música historicamente informada, tocou com Gustav Leonhardt e Ton Koopman, entre outros grandes neste domínio, e tem gravações premiadas internacionalmente. Soube não só retirar o vibrato das cordas, mas impor a urgência que diferencia os sons historicamente informados. Isso transpareceu na construção das frases, mais destacadas. O toque extra de inteligência na elaboração do repertório foi a inclusão da Sinfonia em Ré Maior, de Carl Philipp Emanuel, segundo dos vinte filhos de Johann Sebastian Bach.

Ela soou ainda mais incrivelmente moderna, tocada logo depois de Bach-pai, Haendel e Corelli. A retórica barroca dava lugar a uma música orquestral que tem tudo a ver com o que aconteceria nas décadas finais do século 18, com Haydn, Mozart e Beethoven.

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A fórmula Osesp60 - concerto de 60 minutos sem intervalo e conversas dos músicos com a plateia - funcionou muito bem. Pena que, apesar do aviso prévio de Luís Otávio sobre a conversa, as luzes se acenderam e boa parte do público foi embora. Os que ficaram devem ter se maravilhado com detalhes como o das cordas de tripa de carneiro do violino de Luís Otávio contra as cordas de aço dos demais músicos da Osesp. Então, da próxima vez, não acendam as luzes entre o final do concerto e o início da conversa, por favor.

Estão previstos, na temporada 2018 da Osesp, outros quatro Osesp60. É pouco. Ao menos um dos concertos mensais deveria ser neste formato, que desengessa um pouco o concerto com intervalo; e propicia tudo que o público atual deseja: participar, um pouquinho que seja, com perguntas.

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