José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Osesp revisita a subjetividade de Takemitsu e Nielsen

Dois compositores exibem leitura própria da tradição em concerto na Sala São Paulo

João Marcos Coelho , ESPECIAL PARA O ESTADO

05 de junho de 2015 | 22h02

É próprio da tradição enriquecer o patrimônio herdado do passado conforme as circunstâncias do presente, a fim de transmitir seus frutos para as futuras gerações, escreveu Pierre Boulez em A Música do Outro (2005). “Como a língua falada, a música é um idioma e, enquanto tal, um organismo vivo em constante mutação. Uma tradição musical constitui ao mesmo tempo um quadro normativo e uma cadeia de transmissão. A dimensão criativa está sempre presente, na medida em que, conscientemente ou não, cada um imprime nela a marca de sua subjetividade”.

Em maior ou menor grau, os dois compositores que tiveram peças interpretadas no concerto desta quinta-feira, 4, na Sala São Paulo fizeram justamente isso em sua produção. A resposta que salta mais ao ouvido foi a do excepcional compositor japonês Toru Takemitsu (1930-1996). Ele estudou com Messiaen e era apaixonado por Debussy. Takemitsu visitou a casa de campo onde Debussy compunha, partitura do Prelúdio para a tarde de um fauno debaixo do braço, só para tentar descobrir o segredo de seu ídolo. Green é, porém, mais do que Debussy. Levíssima, diáfana, a orquestração ocupa meio a contragosto os espaços de silêncio e não constrói sequências, faz de cada acorde, de cada nota um evento significativo. Seis brilhantes minutos em boa interpretação da Osesp, liderada por Tito Muñoz.

De seu lado, o dinamarquês Carl Nielsen (1865-1931), o menos badalado dos dois nórdicos que dominaram as primeiras décadas do século 20 (o outro foi o finlandês Jean Sibelius), imprimiu uma marca pessoal bem menos perceptível em sua música injustamente pouco tocada. O mundo comemora em 2015 os 150 anos de nascimento destes dois sinfonistas de mão cheia.

Nas comemorações, Sibelius leva a parte do leão. Daí a importância da inclusão do ótimo concerto de clarinete de Nielsen, obra de plena maturidade. Por esta obra de orquestração deliciosa – com apenas um par de trompas e de fagotes entre os sopros e uma caixa-clara que funciona quase como outro solista nos três movimentos interligados –, é possível ter uma ideia da excelência de sua criação. Seu credo era: “Todo músico tem o direito de usar os sons que quiser”.

O compositor inglês Robert Simpson, em livro sobre as sinfonias, qualifica este credo como a prática da tonalidade progressiva (ele mesmo preferia a expressão “tonalidade evolutiva”). Isto é, Nielsen não deixa de ser conservador, mas permite-se atrevimentos. Começa uma obra numa tonalidade e a termina em outra, como na primeira sinfonia; e desobedece, civilizadamente, as regrinhas tonais. Não resolve as dissonâncias. Liberdades que não soavam revolucionárias no contexto europeu bem mais radical de seu tempo, mas se encaixam no conceito de “marca subjetiva”, segundo Boulez. No concerto de clarinete, ele brinca com as tonalidades de fá e mi e concede várias cadências ao solista, o excelente Julian Bliss, que fez um miraculoso “voo de besouro” no extra.

Na segunda parte, a oitava sinfonia de Beethoven recebeu uma leitura correta da Osesp, sem grandes arroubos, comandada pelo correto Tito Muñoz.

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