Osesp interpreta Villa-Lobos e Mahler

O compositor brasileiro Villa-Lobos e o austríaco Gustav Mahler são os destaques dos concertos desta semana da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Integrando o Projeto Criadores do Brasil, série de apresentações que, desde o início do ano, tem como proposta o resgate de obras de compositores brasileiros, as récitas reúnem duas obras expressivas dos compositores: o poema sinfônico Uirapuru e a Sinfonia n.º 6. Esse é o último concerto do grupo no Brasil antes de partir em turnê pela América Latina e a regência será do maestro John Neschling, diretor artístico do grupo.Apesar de 1917 ser a data que consta da partitura original de Uirapuru, não se sabe ao certo quando Villa-Lobos compôs o poema sinfônico. Isso porque o compositor ficou conhecido pela prática de alterar a data de composição de suas peças nas partituras originais, o que leva alguns teóricos a suspeitar que a peça remete, na verdade, ao início da década de 30.Estreada em 1935, no Teatro Colon, em Buenos Aires, a obra mostra um Villa-Lobos preocupado em recriar ambientes naturais brasileiros sem, no entanto, abrir mão de fazer música moderna, em harmonia com o seu tempo. "Essa é uma obra paradigmática no universo de composição de Villa-Lobos, mostra uma linguagem diferente, descritiva", indica Neschling. O maestro ressalta, no entanto, que a descrição não limita a possibilidade de invenção. "A linguagem presente em Uirapuru é típica de Villa-Lobos, que soube ser descritivo e criativo ao mesmo tempo."Também a Sinfonia n.º 6 em Lá Menor de Mahler mostra o compositor no auge de seu processo criativo. Escrita em 1906, a peça, segundo alguns críticos, antecipa a tragédia que se abateria sobre a vida de Mahler: um ano depois ele perdia seu cargo na Ópera de Viena, sua filha mais velha Maria morria de difteria e ele descobria que sofria do coração.No entanto, nem todos parecem satisfeitos com essa espécie de poder profético de Mahler. O fato é que, na Sinfonia n.º 6, o compositor utiliza técnicas e formas de composição que permitiram às pessoas fazer relações entre sua música e a "decadência" que o compositor atribuiu a si próprio após ter recebido "três golpes do destino".Transparência - "Essa peça, bastante complicada, é importantíssima para se compreender a obra de Mahler", indica Neschling. "Ela exige uma grande orquestra e, ao mesmo tempo, é necessário que a formação toque de maneira clara, transparente." Indagado sobre as dificuldades associadas à interpretação de Mahler e, em especial, à Sinfonia n.º 6, Neschling faz uma comparação. "É como "Ulysses", de James Joyce: é uma obra incrível e bastante complicada, pois faz uso de uma linguagem e de uma estrutura muito complexa."Tudo isso provoca no público um forte impacto. "Dá muito prazer reger e tocar essa peça, mas ela tem um efeito profundo tanto no público como nos músicos."Esta é a segunda vez no ano que a Osesp interpreta uma das sinfonias de Mahler. Em abril, sob a regência de Michel Tabachnik, o grupo tocou a Sinfonia n.º 4, com a participação da soprano brasileira Gabriella Pace.A escolha de outra peça do compositor, no entanto, não ocorreu por acaso. Nos últimos dois anos, a orquestra tem tocado suas sinfonias tendo em vista completar o Ciclo Mahler, que reúne todas as suas obras sinfônicas. "Com esses concertos, ficará faltando apenas a Sinfonia n.º 3, que mostraremos no fim deste ano", lembra Neschling.Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo - Quinta, às 21 horas; sábado, às 16h30. De R$ 10,00 a R$ 30,00. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º,tel. 3337-5414.

Agencia Estado,

20 de setembro de 2000 | 18h39

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