Osesp interpreta obra inédita

A Música para Cordas, Percussão e Celesta é decerto o ponto culminante na produção orquestral do compositor húngaro Bela Bartók. E também uma de suas peças de realização mais complexa. Celso Antunes demonstrou o grau de maturidade que atingiu como regente ao conduzir, quinta-feira, diante da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, essa peça de 1936 que exige, para a execução, o senso exato do rigor arquitetônico de sua organização.Foi muito forte o ponto culminante do Andante Tranquillo inicial, primeira intervenção dos címbalos, após a fuga lenta declamada pelos dois grupos de cordas unidos. E muito preciso o modo como a fuga foi desenrolada de forma inversa, dando ao movimento - como já se disse - a forma de um leque que se abre e depois se fecha. Os pizzicatos alternados do Allegro em tom de dança folclórica, em que o duplo conjunto de cordas é acompanhado pelo piano usado como instrumento de percussão, desafiaram o rigor rítmico dos executantes.A ousadia de suas combinações sonoras faz do Adágio dessa Música uma das peças mais extraordinárias no repertório do século passado. Foi também onde a interpretação de Antunes teve seu ponto alto, trabalhando com os refinadíssimos efeitos das percussões contra os trilos das cordas, do martellato sobre um ritmo de cinco notas que perpassa todos os naipes, com os glissandos pianíssimo da harpa, do piano e da celesta, numa música a que a passagem constante do tonal e modal para o ultra-cromático e o atonal dá extrema mobilidade e instabilidade harmônica.O tom vigoroso que Antunes deu ao Finale, um rondo livre em tom de dança camponesa, que retoma simetricamente a forma do primeiro movimento, concluiu essa excelente execução - a primeira da peça em São Paulo, certamente - desse grande momento na história da música contemporânea.Comparadas a ele, as Cenas Húngaras, tocadas no início da segunda parte, são de realização muito mais simples. Trata-se da orquestração que Bartók fez, em 1931, de cinco peças fáceis para piano, escritas entre 1908 e 1910, pequenas vinhetas evocando instantâneos da vida popular na região de Székely. O que se admira, nestes movimentos de melodismo muito transparente é a arte do orquestrador, a alquimia sonora que ele obtém e que a Osesp soube recriar de forma bastante elegante. Mas a peça ilustrou muito bem outra faceta, extremamente importante em Bela Bartók: a do pesquisador do folcore.O concerto de quinta se encerrou com a apresentação do pianista Gerhard Oppitz, solando o Concerto n.º 5 em Mi Bemol Maior op. 73, de Beethoven. Celso Antunes deu ao Imperador uma empostação enérgica, sobretudo no "Allegro" inicial, de tempos acelerados, staccatos bem marcados, um tom musculoso na construção do movimento.Elegância - E isso combinou bem com o estilo de interpretação do solista, que extrai do piano uma sonoridade opulenta mas associada a um fraseado muito elegante e a uma articulação cristalina que faz soar claramente cada nota nas cascatas de trilos com que Beethoven explora amplamente todas as possibilidades do teclado.A altivez heróica do primeiro movimento contrastou com a delicadeza do "Adagio um Poco Mosso", plasmado pelo solista de forma encantadoramente meditativa, apesar da contribuição não de todo perfeita das madeiras e da trompa em seu diálogo com o piano, na parte central do movimento.Foi muito tenso o efeito de transição obtido por Antunes entre o final do "Adagio" e o encadeamento "atacca subito" do rondó final, Allegro ma Non Troppo, conduzido com grande entusiasmo e dando ao solista a oportunidade de confirmar todo o brio instrumental de que ele já tinha dado mostras, no ano passado, ao se apresentar com a Sinfônica Estadual no Concerto n.º 3 de Beethoven.

Agencia Estado,

08 de outubro de 2001 | 16h31

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