Osesp interpreta diferentes versões para Penderecki

O maestro John Neschling é categórico. "Com a morte de Gyõrgy Ligeti, na semana passada, Krysztof Penderecki passou a ser o maior compositor vivo do século, não só em seu país, mas no cenário mundial." É por isso que a partir desta quinta-feira ele rege na Sala São Paulo Os Sete Portões de Jerusalém, à frente da Osesp. É uma das principais criações dentre a obra recente do compositor polonês que, por sua vez, chega no final do mês ao Brasil - vai reger no Municipal do Rio, no dia 2 de julho, a Orquestra Sinfônica Petrobrás em um concerto que pretende oferecer um panorama dos caminhos estéticos trilhados por ele ao longo de mais de 50 anos de carreira.Para além das generalizações, Penderecki é de fato uma figura-chave na história recente da música universal. Começou na Polônia natal bastante influenciado por Weber, Boulez, Stravinski. A primeira obra-chave é a Trenódia em homenagem às vítimas de Hiroshima - de 1959, era o testemunho de um artista de vanguarda que, após crescer durante a 2.ª Guerra, rompia com qualquer tradição ou convenção para, de um modo extremamente pessoal e revolucionário, comentar musicalmente os horrores da guerra. Mas logo depois viria um rompimento abrupto com a vanguarda e uma aproximação ao passado. Para muitos, um retrocesso - o que não deixa de ser uma leitura rápida e superficial. "A volta ao passado não significa necessariamente a renúncia aos padrões estéticos de suas linguagens. Creio que elas se enriquecem quando confrontadas com mestres como Bach e Mozart ou, como no caso de Penderecki, Palestrina e Gesualdo", diz o maestro Isaac Karabtchevsky, diretor da Sinfônica Petrobrás, autor do convite que resultou na nova vinda do compositor ao Brasil.De qualquer maneira, já naquela época, esta volta abriu caminho para que Penderecki encontrasse uma linguagem muito pessoal: mais importante do que a investigação de vanguarda era a tentativa de unir diversos elementos, sem preconceitos, tendo em vista apenas a melhor maneira de passar a sua mensagem, uma nova proposta de união entre música, religião e política. Homem profundamente religioso, Penderecki também esteve envolvido, na Polônia, com o Movimento Solidariedade de Lech Walesa, símbolo da queda do regime comunista no Leste Europeu. Símbolo desta conjunção de fatores é o Réquiem Polonês, obra dos anos 80, que o próprio Penderecki regeu em São Paulo, com a Osesp, em junho de 2004. Segundo o compositor, ela retrata "o sofrimento de um país sobre o regime soviético". Retrata, mais do que isso, seu envolvimento com a forma litúrgica, a mistura de vanguarda e tradição e o gosto pelos grandes conjuntos, com grande orquestra, coro, solistas.E o mesmo, de certa maneira, pode-se dizer dos Sete Portões de Jerusalém, obra de 1996, que a Osesp interpreta esta semana. Ela está catalogada como a sétima sinfonia do compositor, foi escrita em 1996 para cinco solistas, três corais e orquestra. Está dividida em sete partes, todas construídas a partir de textos litúrgicos. "Esta obra de Penderecki é, sobretudo, madura e tonal - apesar de certos momentos de atonalismo. É uma peça profundamente crente e tocante, no sentido de que fica óbvia a verdade do compositor e a crença real no que escreve. Embora monumental na aparência, na sua estrutura é de uma simplicidade comovente e tocante", diz Neschling, que conta, na apresentação, além da Osesp, com um time de solistas poloneses, alguns acostumados a trabalhar com o compositor e o Coro da Osesp, dirigido pela maestrina Naomi Munakata. O narrador será o ator Tadeu Aguiar.Como no Réquiem ou na Paixão de São Lucas, Neschling ressalta a importância do caráter religioso da obra. "Existem dezenas de grandes compositores agnósticos que escreveram importantes obras religiosas. Verdi é um deles, com seu Réquiem. Entretanto, existem outros que transmitem fé e religiosidade de forma patente. Penderecki é um desses. Para ele, o texto litúrgico não é apenas uma forma de expressão, um estilo musical ou um tipo de composição, a liturgia é uma verdade. Ele escreve e demonstra sua crença e nos faz acreditar nela."Apesar das semelhanças, porém, Neschling também vê diferenças entre obras como o Réquiem, dos anos 80, e os Portões. "O Réquiem Polonês me parece muito mais hermético, tecnicamente falando, e, certamente, mais angustiado. As duas obras retratam realidades muito diferentes. Enquanto o Réquiem fala de uma época obscura e nada fácil vivida pela Polônia, os Sete Portões é uma obra comemorativa, uma celebração. A peça foi comissionada pela prefeitura de Jerusalém para a comemoração do terceiro milênio da cidade. Ou seja, é uma obra mais contemplativa que crítica. É também um momento mais maduro do compositor, onde ele já não precisa provar nada." Osesp. Sala São Paulo (1.501 lugares). Praça Júlio Prestes, s/n.º, Centro, 3337-5414, metrô Luz. 5.ª e 6.ª, 21 h; sáb., 16h30. De R$ 25 a R$ 79

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.