Osesp grava ópera de Francisco Braga

"Oitenta e seis... Gravando." A ordemvem do próprio maestro John Neschling, sentado à frente dosmúsicos da Sinfônica do Estado, no palco da Sala São Paulo. Aofundo, sobre uma plataforma, as sopranos Rosana Lamosa e ElianeCoelho. O número indica o trecho da partitura a ser gravado.Gravando? Após registrar peças sinfônicas de Camargo Guarnieri,a Osesp voltou a trabalhar com o selo sueco BIS para gravar aópera Jupyra, do compositor carioca Francisco Braga.Antes da ordem do maestro, o grupo ensaia. Depois dela,faz silêncio. Breve, mas intenso. O braço sobe ao ar, desce, ogrupo começa a tocar. Uns poucos instantes e a orquestra pára:algo errado com a afinação, é necessário checar tudo novamente.Novo silêncio, gravando, alguns compassos, nova pausa. Osviolinos parecem não soar como quer Neschling. Os músicosrepassam o trecho, uma, duas vezes. Mais uma vez, do começo.A solista entra no tempo errado. O maestro pára. Com asmãos indica a marcação correta. Novo silêncio, gravando mais umavez. Alguns compassos e o barulho difuso dos instrumentos indicanova pausa. Parece ter algo errado com o momento da entrada dosviolinos. Nova indicação do tempo correto. Antes que voltem atocar, no entanto, ecoa na sala por meio de um alto-falante avoz, em inglês, de um dos engenheiros de gravação, até entãoincógnitos.Instalados em uma sala no segundo andar da Estação JúlioPrestes, os engenheiros do selo BIS acompanham toda a gravaçãopor alto-falantes e por um pequeno monitor de TV. Têm à suafrente uma mesa eletrônica, uma infinidade de botões ereguladores de volume com os quais procuram organizar da melhorforma o som captado por 32 microfones colocados estrategicamenteno meio da orquestra. Nas mãos, a partitura.A voz chama a atenção para mais uma entrada errada. Pedepara que se repita a mesma passagem, mas não do início, algunscompassos mais tarde, talvez. O maestro concorda. A orquestraprepara-se e, novamente, inicia. Rosana e Eliane repetem, maisuma vez, o mesmo trecho. Correções ainda precisam ser feitas.O processo é interrompido mais algumas vezes, até que seatinge o objetivo. Da sala de gravação e do maestro vem aconfirmação do acerto. São quase 6 horas da tarde. Após mais demeia hora, está pronto um trecho que, no disco final, não devedurar mais do que 3 minutos. Uma pausa. Hora do jantar, do café,do cigarro, do jogo de sinuca na sala dos músicos. Do descanso,após quase três horas de gravação.Série - Jupyra é o segundo disco da série de 12dedicados à música brasileira que a Osesp deve gravar nospróximos anos com o BIS (o primeiro, gravado no início do anocom peças de Camargo Guarnieri, deve ser lançado em janeiro).Estreada em 1900, no Rio de Janeiro, a ópera tem argumento deEscragnolle Doria, que se baseou em conto de Bernardo Guimarães.Os versos italianos são de A. Menotti Buja (o italiano era, naépoca, a língua "oficial" da ópera no mundo todo).Ambientada no sul de Minas Gerais, Jupyra narra umgrande dramalhão, que envolve personagens de origens étnicas queformaram a identidade brasileira: Quirino ama Jupyra, que amaCarlito que, apesar de comprometido com Jupyra, ama Rosália.Desde sua estréia, a ópera foi montada apenas uma vez,na década de 60, no Teatro Muncipal do Rio. A Osesp também ainterpretou, mas em versão de concerto, em 1996, com regência deRoberto Minczuk, ainda na sua antiga sede, o Teatro São Pedro.Para essa gravação, foi convidado um eleno de peso: as sopranosEliane Coelho (Jupyra) e Rosana Lamosa (Rosália), o tenor MarioCarrara (Carlito) e o barítono Philipp Joll (Quirino).O maestro John Neschling concorda com a definição daópera Jupyra como uma obra do romantismo tardio adaptado aostrópicos. Mas, não se trata apenas disso. "É uma obra originale inspirada, brasileira, com citações wagnerianas e inspiraçãocentro-européia", diz. E a "adaptação aos trópicos"? "Ocaráter brasileiro é definido com leitmotivs baseados em temasnordestinos."Segundo Neschling, Jupyra poderá ser uma "grandesurpresa" para os amantes da música fora do Brasil. O que sedeve à "sua altíssima qualidade musical", o que também explicasua escolha para o segundo disco da orquesta para o BIS."Francisco Braga é um ponto alto da criação brasileira noséculo 19. Achamos importante não concentrarmos todos os nossosesforços na música do século 20 e decidimos diversificar amostragem de compositores brasileiros pelos século 18, 19 e20."A surpresa para o público internacional, é bem provável,deve se repetir dentro do País, que, com exceção do Hino àBandeira, pouco conhece da obra de Francisco Braga. Fato queNeschling qualifica como "uma tragédia cultural". "Há umaeterna desmemoriação brasileira no que se refere à sua criaçãocultural erudita. Além de Jupyra, outras tantas obras geniaisestão à espera de serem descobertas."Recomeço - De volta à Sala São Paulo, o intervalo seencerra por volta das 7 da noite. Aos poucos, os músicos retomamseus lugares no palco. Voltam os cantores e o maestro. E tudorecomeça. Um novo trecho, novas repetições, novos erros, novosacertos. A nova sessão de gravação vai até, aproximadamente, as9 e meia da noite de quarta-feira. Na quinta, os trabalhos quese iniciaram no dia 16, terminaram. Durante pouco mais de umasemana, foram aproximadamente 40 horas de ensaios e gravações.

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