Osesp foi o melhor da temporada erudita

Anunciada desde o final de 1999 e realizada quase sem falhas, a programação da Osesp foi o ponto alto na vida musical da cidade em 2000. Além de obras de grande porte - a Missa Solemnis, de Beethoven, as Estações, de Haydn, o War Requiem, de Britten - e do relevo dado à música nacional, passada em revista na série Criadores do Brasil, a Orquestra Estadual ofereceu concertos sempre estimulantes do ponto de vista do ineditismo do repertório e da qualidade dos intérpretes. Sinfonias de Mahler e Shostakovitch, poemas sinfônicos e ciclos de canções de Strauss e Wagner provaram que é no grande acervo da música instrumental dos séculos 19 e 20 que está a vocação dos músicos que se apresentam na Sala São Paulo. E o recém-anunciado programa para 2001 demonstra que a Estadual não pretende deixar a peteca cair.A Osesp destacou-se até mesmo num ano de grandes atrações internacionais, em que a cidade viu a Filarmônica de Berlim, o Quarteto Alban Berg, os belíssimos recitais de lieder de Matthias Görner, dose dupla de Barenboim ao piano e regendo a Orquestra de Chicago, além de bons concertos com as sinfônicas de Praga e Colônia. O Ano Bach foi comemorado condignamente, com boas interpretações da Missa em Si Menor e da Paixão Segundo São João, recitais como os do cravista Ilton Wjusnik e lançamentos de discos como Um Cravo Bem Variado, de Regina Schlochauer, que incluiu excelentes interpretações do Concerto Italiano e da Partita BWV 831. Quanto à música lírica, o ponto mais alto foi a Lucia di Lammermoor, no Municipal, com June Anderson e Frank Lopardo; o que mais deixou a desejar foi O Guarani, do Teatro Alfa, irregular do ponto de vista da montagem e do elenco. Montagens discutíveis, como a das Bodas de Fígaro, no Teatro São Pedro, ou a da Cavalleria/Pagliacci, no Alfa, ofereceram compensações: boas regências e, nos elencos, interpretações gratificantes: o Cherubino de Denise de Freitas; a Santuzza de Céline Imbert; a Mamma Lucia de Denise Sartori; o Sílvio de Paulo Szott; o Prólogo de Sebastião Teixeira. Entre as óperas, também, algumas boas surpresas: duas montagens corretas de Valter Neiva: Pedro Malazarte, de Camargo Guarnieri, no São Pedro, e O Barbeiro de Sevilha trazido de Santo André. E principalmente Domitila, ópera de câmara do carioca João Guilherme Ripper, cantada por Ruth Staerke e montada por André Heller. Infelizmente, essa peça de música extremamente bem escrita não foi vista por um público tão amplo quanto merecia. Mas o prêmio que recebeu da APCA foi o reconhecimento de sua qualidade.Importante foi também a estréia, em julho, do Concerto para Computador e Orquestra, de Rodolfo Coelho de Souza. Obra pioneira, pois se tem notícia de peças escritas para computador e conjunto de câmara, mas não com acompanhamento de grande orquestra, esse concerto foi executado pelo autor, com a Orquestra Experimental de Repertório, cujo regente, Jamil Maluf, sempre mantém seus músicos abertos a todo tipo de experimentação (uma delas foi, neste final de ano, ter tocado lado a lado com Wynton Marsalis e sua orquestra de jazz).E não nos esqueçamos de mencionar a festa que foi a transmissão ao vivo, pela Rádio Cultura, toda tarde de sábado, da temporada do Metropolitan Opera House, sempre com os comentários de convidados. O resultado foi tão positivo que a emissora já está repetindo a dose: no dia 9, iniciou, com O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss, a empreitada de trazer para seus ouvintes os espetáculos do principal teatro de ópera de Nova York. Quem ouviu, recentemente, o magnífico Navio Fantasma regido pelo russo Valiery Guerguiev, teve uma idéia do que pode esperar em 2001.Além disso, a presença de orquestras como as Filarmônicas de Israel e Nova York, de maestros como Riccardo Muti, a montagem de óperas de Giuseppe Verdi no ano em que se lembram os cem anos de sua morte, dão indícios de que, em 2001, a qualidade deve, pelo menos, manter-se.

Agencia Estado,

29 de dezembro de 2000 | 22h19

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