Osesp fecha o ano com novo disco

Composta em 1899, mas só estreada no Teatro Lírico do Rio de Janeiro em 7 de outubro de 1900, a Jupyra, de Francisco Braga, é o testemunho da extensa influência do verismo italiano no fim do século 19. Documentação de uma peça importante de autor brasileiro, a gravação de John Neschling, à frente da Osesp (selo Bis, R$ 50), traz principalmente uma contribuição significativa ao conhecimento mais aprofundado desse período. O disco está à venda apenas na Sala São Paulo, onde a orquestra encerra hoje à tarde sua temporada, com o Lobgesang de Mendelssohn, sob regência de Roberto Minczuk. Não faltam a essa partitura, extremamente bem escrita e de audição muito gratificante, recortes melódicos eventuais carregando nítido sabor tropical nessa partitura. Mas a música de Braga está fundamente enraizada nas tradições líricas mediterrâneas, aplicando ? com muita propriedade ? todas as suas fórmulas. Afinal, essa era a moda em toda a Europa ? haja vista a Navarraise de Massenet, ou o Tiefland de E. d?Albert. E a frustrada intenção de Braga era encenar a sua ópera na Alemanha. O libreto de Escragnolle Doria, vertido para o italiano por Menotti-Buja, segue fielmente o receituário verista. Um quadrilátero de paixões violentas: Quirino ama Jupyra, que ama Carlito, que a possui, mas ama Rosália. Jupyra pede a Quirino que a vingue; este mata o rival, e a protagonista, arrependida, atira-se no rio. Rosalia perde a razão. A crise já está pronta para explodir quando o pano se ergue. O desenlace é cru, com assassinato, suicídio, loucura. Jupyra, por acaso, é uma índia brasileira; mas se a ação se passasse na Sicília, não se sentiria a diferença. A presença constante, por trás da música de Braga, é a de Mascagni. A inserção de canto no prelúdio é idéia que vem da Cavalleria, do Guglielmo Ratcliff. E o tom madrigalesco do coro ?Varia l?amor come luna varia?, com que a ópera se inicia, encontra sua inspiração na frottola do prelúdio de Zanetto, escrito em 1896. Braga recorre também, com freqüência, à técnica mascagnana da peroração orquestral ? o mais típico é o poslúdio depois que Jupyra, desesperada com a morte de Carlito, se atira no rio. E faz, à maneira italiana ? e não à wagneriana ? o uso do tema recorrente, a começar pelo motivo do ?amor mutável como a Lua?, que percorre a ópera do princípio ao fim. Porém, o fato de se tratar de uma partitura europeizada ? o que é comum a Carlos Gomes ou contemporâneos de Braga, como Miguez ou Gomes de Araújo ? nada tira do interesse dessa peça. É um título importante do repertório e colocá-la em disco já basta para garantir a esse trabalho grande importância. Não é só isso, entretanto, que se pode creditar ao disco da Bis. A gravação é dominada pela intensidade do desempenho de Eliane Coelho ? que recentemente fez em São Paulo uma magnífica Butterfly. Apesar do libreto sumário, Eliane constrói com verossimilhança a evolução psicológica da personagem, da alegria com que ela confessa a Quirino o seu amor por Carlito, até o desespero com que, tendo descoberto que ele prefere Rosália, promete vingança em ?Di gelosia le indomite smanie?. Doce e terna no dueto da cena 4 com o homem que ama, Jupyra mostra-se implacável ao pedir a Quirino que lhe traga de volta o punhal embebido no sangue do traidor. E Eliane sabe fazer-nos sentir o conflito interior da índia em ?Ahi, cosa ho fatto!?, quando ela se arrepende, tarde demais, do que pediu a Quirino. A exata oposição, vocal e dramática, a essa Jupyra forte, inserida na tradição da Gioconda e da Santuzza, está na Rosália delicadamente criada por Rosana Lamosa. Não só ela faz muito bem a cena 5, do encontro com Carlito, a que Jupyra assiste escondida, como enfrenta com muito garbo Eliane Coelho em ?Tua nemica son io!?, mais um daqueles duetos de confrontação entre mulheres que amam o mesmo homem, tão comuns na ópera italiana da virada do século. Talvez seja um pouco leve a voz de Mario Carrara para a tessitura de Carlito, um desses papéis de tenor pós-1890, que tendem para o spinto e o dramático. Mas o timbre é bonito, de sonoridades generosas, e Carrara cria de forma convincente a figura do homem leviano. Primo do Pinkerton pucciniano, ele usa a índia como objeto sexual, ?per passatempo?; mas é a Rosália que afirma: ?Ho amato te sola!? No disco, a voz de Phillip Joll está mais instável do que quando ele aqui esteve fazendo o Nick Shadow da Carreira do Libertino; e ele não parece um barítono que tenha muita afinidade estilística com o canto peninsular. Mas é bom ator, e torna-se persuasivo na confissão do amor sem esperança (?D?amore avvampo?), e no dueto em que aceita tornar-se o instrumento do ódio de Jupyra, na esperança de, assim, despertar seu interesse. John Neschling extrai os melhores efeitos de uma partitura habilmente orquestrada, em que são visíveis os resultados dos estudos europeus de Braga, com Massenet, e a atenção às inovações wagnerianas, com que ele entrou em contato nas diversas peregrinações que fez a Bayreuth. A mesma habilidade de orquestrador de que dá provas no poema sinfônico Cauchemar (Pesadelo), de 1895, com que o disco se abre. É uma peça de construção tão interessante quanto a dos mais conhecidos Episódio Sinfônico e Marabá. E Neschling oferece dela uma leitura muito bem cuidada em todos os seus detalhes.

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