Mariana Garcia/Osesp
Mariana Garcia/Osesp

Osesp estreia a ópera ‘Cartas Portuguesas’, inspirada na história de freira do século 17

Ópera será transmitida pela internet nos canais da orquestra

João Luiz Sampaio*, Especial para o Estado

28 de agosto de 2020 | 05h00

No Convento de Nossa Senhora da Conceição, no pequeno vilarejo de Beja, no interior de Portugal, a freira Mariana Alcoforado entrou para a história como autora de um dos mais dilacerantes textos sobre o amor – e o sofrimento por ele causado. 

No início do século 17, ela conheceu um oficial francês de passagem pela região. Enamorou-se dele, que, no entanto, logo voltou à França, deixando-a sozinha, relatando nas Cartas Portuguesas a dor da distância. O texto foi publicado pela primeira vez em 1669, em Paris, e chega agora à Sala São Paulo por meio da ópera escrita pelo compositor João Guilherme Ripper.

A ópera Cartas Portuguesas será interpretada nesta sexta, 28, pela Osesp, e transmitida pela internet, nos canais da orquestra no Facebook, no YouTube e no Instagram. A direção cênica é de Jorge Takla e a musical, de Roberto Tibiriçá; a soprano Camila Titinger vive Mariana.

Ripper conta que, em 2016, durante um festival de música em Portugal, foi a Beja conhecer o convento onde viveu a freira. No ano seguinte, recebeu do diretor do festival a sugestão de uma ópera sobre o tema: afinal, Domitila, a primeira ópera do compositor, também havia sido baseada em cartas, mais precisamente na correspondência entre a Marquesa de Santos e D. Pedro I. 

“Há dois anos, quando recebi o convite da Osesp, tudo se encaixou e comecei a trabalhar na música”, ele diz, ressaltando as diferenças entre as duas obras. “São dois psicodramas, mas em Domitila houve um amor de fato consumado, os dois estiveram juntos. Aqui, não. As cartas não têm resposta. São uma catarse de alguém às voltas com a impossibilidade do amor. Essa é uma ópera sobre a clausura, sobre a impossibilidade de escapar dela.”

O compositor assina também o texto da ópera e conta que precisou incluir alguns novos elementos na história. “A leitura da carta mostra alguns temas recorrentes: a melancolia, o ódio, o amor, a esperança, a acusação. Para criar um sentido de evolução dramática para esse enredo, incluí trechos dos ritos latinos, como um salmo, passagens da Bíblia e um poema de Rodrigues Lobo, poeta barroco contemporâneo de Mariana, com o qual evoco a memória infantil de Mariana, que já no final da obra canta lembrando o que sua mãe costumava lhe cantar.”

Takla conta que, ao se aproximar da história, chamou-lhe atenção em especial a ideia da clausura. “Há um clima claustrofóbico. Essa é uma mulher enclausurada, isolada, que carrega um senso forte de aprisionamento”, ele explica. 

Como o cenário de Nicolàs Boni foi construído em um palco aberto como o da Sala São Paulo, essa característica precisava ser explicitada acima de tudo por meio do trabalho da intérprete. “É um papel dramático, profundamente trágico, e a Camila mergulhou fundo na pesquisa do papel, mostrando uma enorme maturidade”, diz o diretor.

O trajeto da personagem é mostrado por meio de um recurso interessante: ao longo da ópera, que dura cerca de quarenta minutos, Mariana vai vestindo o hábito da freira. “Eu achei um recurso genial, é de uma autocastração impressionante”, diz Ripper. Por sua vez, a música também trabalha no sentido de reforçar o drama da personagem.

“Quando escrevo óperas, penso em uma música que comente a ação, às vezes sugerindo significados diferentes daquele colocado pelo texto. E também procuro fazer com que a partitura ofereça uma moldura sonora para a história. O que fiz neste caso foi utilizar muitas campanas na partitura. É um recurso que, de cara, localiza a narrativa, nos coloca no convento. Mas, ao longo da obra, vou retrabalhando o som das campanas, que, às vezes, é amigável e, em outras vezes, ameaçador. Esse som volta o tempo todo como lembrança da realidade de Mariana: por mais que ela deseje fazer o que quiser, o fato é que ela estará sempre aprisionada, ficará para sempre no convento”, explica Ripper.

Véu, não máscaras. Takla conta que o processo de ensaios buscou seguir todos os protocolos de segurança sanitária para evitar possíveis contaminações pelo novo coronavírus – e que o posicionamento da orquestra e da cena também foi imaginado cuidadosamente. Um desafio que surgiu foi a presença das três freiras que participam da história e foram posicionadas nos assentos do coro, atrás e acima da orquestra, interpretadas pelas sopranos Érika Muniz, Raquel Paulin e Luiz Willert.

“A dúvida era se a presença delas naquele local, cantando, poderia lançar saliva sobre a orquestra”, explica o diretor. “A solução que me ocorreu foi fazer delas freiras veladas, ou seja, com um véu sobre o rosto. Dessa forma, não haveria propagação de saliva.”

Takla imaginou sua concepção com a presença do público – a Osesp imaginava a essa altura já contar com a participação, ainda reduzida, de pessoas na plateia. Como isso ainda não é possível, a transmissão pela internet foi o caminho. Mas isso significou ter em mente também a captação das câmeras.

“Foi preciso mudar alguns aspectos da iluminação, usando recursos mais simples e pensados para a câmera. Também aumentamos a luz para a orquestra, o que deu a ela uma presença cênica maior no espetáculo. Mas eu confesso que isso não me incomodou. No final, achei interessante esse elemento visual para a música. De qualquer forma, estamos trabalhando junto com a equipe de filmagem para chegar a um formato capaz de recriar o espetáculo de maneira mais próxima do original.”

“É algo diferente, novo, para todos nós”, diz Ripper. “Mas o mais importante, dada a realidade em que nós estamos hoje, é então abandonar a câmera do celular e tentar fazer com qualidade.”

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