Osesp é apresentada como ´milagre´ para o público de Paris

Na primeira página do jornal Le Monde, em meio aos títulos dedicados às eleições presidenciais francesas, figura o seguinte: ´Os parisienses vão descobrir, nesta quinta-feira, 29, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a mais prestigiosa orquestra brasileira.´ E no subtítulo: ´Como uma formação medíocre se tornou, em dez anos, graças ao trabalho do maestro John Neschling, um grupo excepcional.´ Em página interna, um título ainda mais bombástico: ´Um milagre musical proveniente de São Paulo´ abre um longo artigo assinado por Renaud Machart. Primeiro espanto do jornalista francês, o local. ´Uma sala de concerto montada numa estação de trem, uma das mais incríveis instalações arquitetônicas dedicadas a um auditório de música clássica: no hall, um vidro grosso separa os melômanos dos viajantes reais que tomarão trens de verdade.´ Machart devaneia: Villa-Lobos, diz ele, teria amado ouvir ali o seu famoso O Trenzinho do Caipira.Há 11 anos, quando o maestro brasileiro John Neschling (sobrinho-neto de Arnold Schoenberg) foi chamado para seu país natal para assumir a principal orquestra, esta era de uma mediocridade extrema. Ele então ´sacudiu´ violentamente os músicos, impondo-lhes uma audição de controle. Alguns se recusaram, por achar humilhante. Outros aceitaram, e os que foram mantidos ´passaram a receber salários muito mais altos´.Dos músicos antigos, 42 foram substituídos. Depois, foram programadas audições na América Latina, em Nova York, no Leste Europeu. ´Em nossos primeiros concertos´, diz John Neschling, ´havia 65 músicos para 80 pessoas no público. Em 1999, já tínhamos 1.800 assinantes. Agora são 11 mil. A Osesp tem hoje 110 músicos, um coro de 70 profissionais e um coro infantil. Um contrato foi assinado com a gravadora sueca BIS para a orquestra registrar peças brasileiras raras (Mozart Camargo Guarnieri ou Francisco Mignone), sem falar de Villa-Lobos ou de músicos europeus.O artigo do Le Monde descreve essa ´colméia´ que zumbe músicas. Vêem-se músicos jovens em todos os cantos do edifício, uma butique para o público. E, em construção, uma galeria de arte contemporânea. Neschling, muito loquaz, fala do futuro: ´Hoje, podemos recrutar bons músicos do mundo inteiro, porque os salários são bem mais altos que os das outras 69 orquestras do País.´ Mas, para isso, foi preciso trabalho duro. A Osesp ensaia todos os dias úteis.´ E acrescenta: ´E eu sou intratável. Após três atrasos ou ausências injustificadas, é rua!´É esse o ´pequeno milagre´ que a França vai descobrir nesta quinta-feira no Théâtre du Châtelet, com obras de Guarnieri, Rachmaninov e Tchaikovsky, e Nelson Freire ao piano. Depois, a Osesp permanecerá alguns dias em Paris realizando audições para recrutar novos músicos.

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