Osesp comemora seu 60º aniversário com série de concertos

Timothy McAllister fala do 'Concerto', de John Adams

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 03h00

O aniversário oficial é no dia 13 de setembro - nesta data, há 60 anos, foi publicada a lei 2.733, com a qual o então governador Lucas Nogueira Garcez determinava a criação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Mas a orquestra já faz, a partir desta quinta-feira, concertos especiais na Sala São Paulo para marcar a data, sob a regência de Marin Alsop.

A cereja no bolo da festa é uma celebração da música americana - a Osesp promove a estreia brasileira do Concerto para Saxofone e Orquestra do compositor John Adams, peça que evoca raízes musicais dos EUA, do jazz ao universo clássico de Leonard Bernstein. O solista será o também americano Timothy McCalister. "Um grande compositor encontra uma maneira de unir esses dois mundos", diz McAllister ao Estado. "Adams demonstra um rigor clássico que permite que influências do jazz sejam ouvidas por meio da voz do saxofone."

A escolha da obra para este concerto responde sob medida à tentativa, marca recente da orquestra, de se firmar como um conjunto internacional. A peça, afinal, foi encomendada a Adams pela Osesp, em parceria com as orquestras de Sydney, Saint Louis e Baltimore - e, depois de estrear nesses centros, chega agora a São Paulo.

Criado no final dos anos 1840, o saxofone esteve presente ainda na segunda metade do século 19 em composições ditas clássicas, uso que se tornou mais frequente na música moderna das primeiras décadas do século 20. No imaginário, no entanto, o instrumento está antes de mais nada associado ao jazz. E é trabalhando com esses múltiplos universos que o compositor John Adams escreveu seu Concerto, que a Osesp interpreta de quinta até sábado na Sala São Paulo, pelos seus 60 anos (a apresentação de quinta será transmitida pela internet, em concertodigital.osesp.art.br).

"É muito difícil separar o saxofone do jazz, e não há problema nisso", diz Timothy McAllister, saxofonista que será o solista das apresentações. "Afinal, o jazz e a música das bandas de bailes do começo do século 20 foram responsáveis por popularizar o instrumento. Ainda assim, é importante ver, como faz Adams, o instrumento tanto como completamente emblemático do jazz e também como parte de uma tradição clássica que remonta à Europa do século 19”, afirma.

A própria relação de McAllister com o instrumento nasce da convivência de ambientes sonoros. "Escolhi o saxofone por conta da enorme popularidade que ele tinha na música pop e no rock dos anos 1980. Eu cresci na geração MTV, na época dos clipes. E o saxofone estava sempre ali. Pouco depois, descobri o smooth jazz, o jazz fusion e a partir deles fui conhecer mestres como Charlie Parker e John Coltrane", conta. “Mas quando descobri os grandes concertos para saxofone solista de Glazunov, Ibert, Villa-Lobos, Debussy, tocados por concertistas excepcionais, me dei conta de que queria seguir esse caminho."

McAllister hoje dá aulas na Universidade de Michigan e integra o quarteto Prisma, especializado na interpretação da música contemporânea. Em seu currículo, o músico contabiliza a estreia mundial de 150 obras. E, olhando esse universo, como ele diria que a música de concerto do início do século 21 trata o saxofone? "Compositores hoje se voltam para muitas fontes. E a beleza do saxofone é sua habilidade de existir em diversos tipos de música. Compositores clássicos podem utilizar o seu enorme alcance, explorando sua paleta dinâmica para recriar desde um tratamento sinfônico até sons mais exóticos. Afinal, nas mãos de um bom músico, o saxofone pode ser tão audacioso quanto um trombone, doce como um corne inglês ou mais delicado que uma flauta. No entanto, o que atrai mais os compositores parecer ser o caráter melancólico do instrumento", diz o músico.

E como o concerto de Adams se insere nesse contexto? O compositor já definiu a obra - que foi gravada no ano passado pela Sinfônica de Saint Louis - como uma "viagem de descoberta", em que dialogam a música de seu passado e de seu presente como autor. McAllister, por sua vez, explica que o saxofone que emerge da peça é fruto da evocação de diferentes ambientes da música americana. "O som que buscamos mistura a sensibilidade do cool jazz, a escola clássica da composição nos EUA, que mantém relação com o teatro musical e a Broadway, e a sonoridade ouvida no trabalho de intérpretes da metade do século 20, que atuavam em praças como Nova York, Detroit e Chicago. Quando toco a peça, eu tento canalizar em alguns momentos o saxofone de Leonard Bernstein e, em outros momentos, Charlie Parker."

Para o saxofonista, o início da peça "lembra um filme de ação que começa já em uma cena de perseguição". "À medida que a obra assume um tom mais lento, surgem então as referências aos clubes de jazz, aos filmes noir, o que fica particularmente visível na escrita para as cordas. Depois de uma cadência, há uma passagem com toda a orquestra que se assemelha a uma dança diabólica. É de tirar o fôlego, com uma exigência muito grande tanto para o solista quanto para a orquestra. E espero que a sensação seja a mesma para a plateia", explica. "No fundo, trata-se de uma peça bastante tradicional e idiomática no modo como trata o instrumento. O virtuosismo está justamente na diversidade de paletas e sensações que ela propõe."

Nas apresentações de quinta, sexta e sábado, a Osesp vai interpretar também a Abertura da ópera Lo Schiavo, de Carlos Gomes, e a Sinfonia n.º 5 de Tchaikovsky. As duas obras fazem parte do programa da turnê brasileira que a orquestra realiza na segunda quinzena do mês, com apresentações marcadas para Rio, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte e Curitiba - a outra peça será o Concerto para Piano e Orquestra de Grieg, com solos de Dmitri Mayboroda.

OSESP 60 ANOS

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, tel. 3223-3966. 5ª e 6ª, 21h; sáb., 16h30. R$ 36 a R$ 166 (5ª, 10h ensaio aberto: R$ 10)

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