Divulgação
Divulgação

Osesp apresenta ‘Carmina Burana’ livre de polêmicas e preconceitos

Obra de Carl Orff se aproxima da sonoridade da estreia, em 1937, em CD e ganha 3 apresentações com a orquestra na cidade

João Marcos Coelho , Especial para O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 16h00

Algumas criações musicais se emprenham de monumentalismo a ponto de parecer terem sido criadas para encerrar as temporadas das sinfônicas. Duas delas têm se revezado com frequência nesses concertos “especiais”: a Nona Sinfonia de Beethoven e a cantata Carmina Burana de Carl Orff. Nos dois casos, solistas, coro e grande orquestra são envolvidos em espetáculos em que palco e plateia ficam igualmente superpovoados. 

A regente Marin Alsop comanda a Osesp, de quinta a sábado, em três execuções convencionais de Carmina Burana (duas obras curtas do estoniano Arvo Pärt ocupam a primeira parte). “Convencionais” significa orquestra “au complet”, além dos corais e solistas. Participam os três corais da casa e os solistas Edna d’Oliveira (soprano), Luciano Botelho (tenor) e Lício Bruno (baixo-barítono).

Coincidentemente, chega ao mercado uma gravação que vai na direção contrária, Carl Orff – Carmina Burana. A orquestra tem 60 músicos; e os três coros totalizam 52 cantores. Os instrumentos de sopro são os dos anos 1930, quando ela estreou. O regente belga Jos van Immerseel, 69 anos, lidera sua orquestra de instrumentos de época Anima Eterna Brugge, os corais Collegium Vocale Ghent e Cantate Domino; e os solistas Yeree Suh, Yves Saelens e Thomas Bauer (Zig Zag, download em iTunes por US$ 9,99). Quis aproximar-se da sonoridade da estreia, em 1937. Também foi fundo em suas pesquisas sobre o controvertido Carl Orff (1892-1985).

Immerseel deixou de lado as controvérsias políticas que envolveram Orff durante o nazismo. Para uns, ele apenas teria sido tolerado pelo regime; para outros, foi um carreirista que aderiu por conveniência e, após a derrota, em 1945, invocou testemunhos no Tribunal de Desnazificação atestando ter sido perseguido no Reich.

Controvérsias à parte, o fato é que Immerseel joga novas luzes numa obra que está entre as mais gravadas, copiadas e picotadas da história da música. Carmina Burana é uma ode à vida e ao amor de imensa energia. E adorada por milhões no mundo inteiro. Mas injustamente desprezada pelos que a consideram simples e pomposa. Evidentemente, o regente belga tem consciência de que a cantata “não é uma obra complexa, nem por sua estrutura, nem por sua textura polifônica. Mas isso não quer dizer que a música seja ruim em si: a complexidade não é um critério ou condição sine qua non de qualidade”.

Entre os frutos desta corajosa atitude arqueológica do regente belga, um ao menos destaca-se: ele retirou dela uma monumentalidade que Orff provavelmente não imaginou. Um gigantismo postiço inchado pelo 3.º Reich. Musicalmente, Immerseel diz que as cordas – que nas execuções atuais são multiplicadas – não eram proeminentes. Diminuiu-as, privilegiando sopros e percussão. O coral também não se agigantou: 36 vozes adultas e 15 no coro infantil.

Libertando Carmina Burana dos preconceitos e automatismos de interpretação, Immerseel revela partitura extraordinária. Dificuldade extra: Orff explora muito as regiões aguda e superaguda nas partes vocais. Finalmente, ele acentua o gosto de Orff por combinações não usuais entre os naipes, como a celesta com as flautas, o contrabaixo com a tuba. “Ideias espantosas, que produzem sonoridades incríveis.”

Pastiche inteligente de repertório da Idade Média

Carl Orff escolheu 23 poemas de um Codex Buranus com mais de 200 poemas dos séculos 12 e 13, descobertos em 1847 numa abadia beneditina a 50 Km de Munique, sua cidade natal. Não fez uma reconstrução histórica a partir dos neumas presentes nos poemas. Optou por um pastiche inteligente; imprimiu uma visão pessoal e paródica ao repertório espiritual e profano da Idade Média.

A cantata compõe-se de quadros alegóricos: A Primavera, Na Taverna e Corte de Amores. Fortuna Imperatrix Mundi, o trecho mais conhecido e muito usado em comerciais, abre e conclui a obra. Um arsenal percussivo completa a instrumentação: dois pianos, timpanista, cinco percussionistas e uma celesta. Acusaram-na, na estreia, de “perigosamente monótona”. Orff devolveu qualificando-a como “arquitetura estática”. / J.M.C. 

Mais conteúdo sobre:
Música erudita

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.