Osesp abre o ano com o Beethoven favorito

Foi um longo inverno, de dezembro para cá, interrompido apenas por dois concertos no Municipal em homenagem aos 450 anos de São Paulo. Mas a temporada erudita está de volta: a Osesp, primeiro grupo a retomar suas atividades neste ano, inaugura de hoje a sábado sua programação. Os músicos vão interpretar a Sinfonia n.º 9 de Beethoven, sob a regência do maestro Roberto Minczuk. A peça é velha favorita do público e os ingressos já estão esgotados. Mas há um consolo, o concerto será gravado e lançado em disco pelo selo próprio da orquestra, registro não apenas da peça mas da interpretação que dela faz o maestro Minczuk, que explora não o arrebatamento romântico da peça mas, sim, a idéia de Beethoven como a transição do classicismo ao romantismo. Não há uma, mas várias nonas de Beethoven. Explica-se: por um lado, há diversas edições da partitura, publicadas ao longo do século 20, sempre com correções e alternativas muitas vezes baseadas em novos olhares sobre o manuscrito original de Beethoven; por outro lado, a peça sofre também com as inúmeras interpretações que a ela são dadas durante o passar das décadas por maestros diferentes, de Wagner a Kurt Masur, passando por Furtwängler, Bruno Walter, Karl Böhm, Abbado, cada maestro oferece alternativas de interpretação - de andamentos, de articulação, de dinâmica - que passam a fazer parte da própria obra. Isso sem citar o movimento da Música Historicamente Informada, que propôs - e ainda defende - interpretações com instrumentos de época, além de uma série de outras regras que têm como objetivo aproximar o modo atual de se tocar ao do período da composição da peça. Reger a Nona de Beethoven hoje, portanto, é dialogar com quase dois séculos de tradição. "Sou colecionador de manuscritos originais e tenho o fac-símile da Nona Sinfonia, então minha interpretação vem dali e da edição que estamos usando, a Bärenreiter, a mais recente e completa da obra, com muitas mudanças com relação à articulação, à dinâmica, aos acentos, andamentos. Mas há toda uma tradição que não pode deixar de ser observada, que ajuda a desenvolver novas idéias musicais", explica Minczuk. "É preciso ressaltar, porém, que a interpretação precisa ser orgânica, de acordo com o que você é, com a sala, a orquestra e o tempo em que vivemos. Toquei a peça pela última vez com a Osesp há três anos, antes do 11 de setembro e da guerra. Hoje, o anseio pelo dom da vida presente à sinfonia, por exemplo, ganha um significado especial", diz o maestro.

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