Osesp: a trajetória de uma orquestra bem-sucedida

Com salários, que destoam da média recebida pelos músicos de todo o Brasil (a média de salários da Osesp gira em torno dos R$ 5 mil), programação variada e regular, a presença de uma administração que torna viável o desenvolvimento artístico. Esses são alguns dos elementos que fizeram com que a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo se transformasse em um dos principais conjuntos orquestrais da América Latina, com uma temporada bem construída e uma agenda de turnês e gravações sem igual no País. A direção da Osesp está dividida em dois setores distintos que, no entanto, procuram funcionar em harmonia: a direção executiva, a cargo de Cláudia Toni, e a direção artística, da qual se encarrega o maestro John Neschling. ?A direção executiva, na verdade, trabalha no sentido de realizar e formatar aquilo que é proposto pela direção artística?, diz Cláudia.Ao todo são 17 pessoas trabalhando na parte administrativa, dividida em cinco diferentes setores. O primeiro deles fica encarregado da assistência aos artistas estrangeiros ligados ao grupo. O segundo setor está encarregado de serviços gerais como pagamento de salários, compras, aluguel de material.O setor de Comunicação e Informação fica responsável pela elaboração e formatação dos programas dos concertos, além da organização do pacote de assinaturas, uma das novidades instituídas pela Osesp no universo das orquestras públicas brasileiras: só este ano, foram vendidas mais de 2 mil das unidades postas à venda. Por fim, aparece a equipe de produção, que cuida de assuntos tão variados como a compra das flores a serem entregues aos artistas, após os concertos e a gravação e distribuição dos discos.Cláudia ressalta, no entanto, que a equipe ainda não está completa. ?Se você pensar na burocracia imposta pelo poder público que, muitas vezes, impossibilita que as coisas ocorram com a rapidez necessária, 17 pessoas são muito pouco: a Filarmônica de Nova York, por exemplo, possui um staff de 67 pessoas.? Além do número reduzido de pessoas, Cláudia cita outra dificuldade: a inexperiência. ?Não há tradição, no Brasil, no cargo de administrador e gerente de orquestra o que nos obriga a criar funções?, indica. A presença de uma máquina administrativa eficiente por trás da atividade dos músicos acaba interferindo no trabalho dos artistas. ?A presença de uma administração pobre e fraca é a razão da dificuldade crônica das orquestras do País?, lembra Neschling.Em seu último livro, O Mito do Maestro, o polêmico pesquisador e analista do mercado de gravações eruditas Norman Lebrecht afirma que um dos motivos que explicam a decadência da figura do maestro é a falta de uma atitude que justifique o posto de diretor artístico. Para ele, o diretor deve, mais do que aparecer para reger vez ou outra, quando sua agenda internacional permite, desenvolver um trabalho próximo dos músicos.Neschling se diz atento a essa distinção entre o posto de diretor artístico e regente titular. ?Um não tem necessariamente nada a ver com o outro e, apesar de no meu caso eles coincidirem, não terá de ser sempre assim.?Para ele, cabe ao diretor artístico ?conceber as linhas ideológico-estético-artísticas do conjunto, escolhendo o repertório, solistas e regente convidados?. Já no que diz respeito ao regente titular, para ele, a obrigação é outra. ?Ele deve trabalhar o mais possível com a orquestra, treinar os músicos, enfim, trilhar o caminho para a construção de uma sonoridade característica.?Garimpagem ? Neschling, no entanto, é conhecido, também, pela sua luta por patrocínio e apoio à orquestra. Grande parte dos incentivos dados pelo governo e por empresas privadas é fruto de um trabalho insistente de garimpagem de recursos realizado pelo maestro que acredita que, quanto maior o nível de excelência artística da orquestra, maior será o interesse de patrocinadores e do governo. ?Nossos patrocínios estão crescendo a cada ano porque estamos mostrando que é possível encher as salas de concerto semanalmente com um trabalho de qualidade.?A intenção do maestro é transformar a orquestra em uma organização social. ?Uma organização desse tipo permitiria uma sobrevivência burocrática mais tranqüila, desatrelada dos grilhões do Estado, que são incompatíveis com um funcionamento dinâmico como o nosso.? No entanto, ele ressalta que ainda será preciso tempo para que o projeto seja concretizado. ?Seremos a primeira organização desse tipo nessa área e tudo é novo, cada passo transforma-se em erro ou jurisprudência: precisamos tomar muito cuidado na condução do processo.?De qualquer forma, a Osesp anuncia projetos que, a longo prazo, devem contribuir para a criação da identidade da orquestra. Após o sucesso dos concertos pela América Latina, o grupo sai, no ano que vem, em turnê pelo País. Em 2002, o destino será os EUA. Gravações também estão na planilha da direção. Em fevereiro, o grupo grava para o selo sueco BIS uma espécie de panorama da música brasileira, com composições de Leopoldo Miguez, Francisco Braga, Carlos Gomes, Camargo Guarnieri, entre outros. Villa-Lobos é o tema da segunda gravação, agora pelo selo Naxos, em julho. O repertório ainda não está definido.

Agencia Estado,

29 de outubro de 2000 | 20h12

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