Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Os sopros e a fala mansa do músico Altamiro Carrilho

Um dos maiores flautistas brasileiros lança com show, em Curitiba, 'A Fala da Flauta', em 4 DVDs

Roger Marzochi, da Agência Estado,

28 de agosto de 2009 | 20h02

De repente, os sinos da igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, preenchem a sala do músico, marcando 18 horas, a hora do Ângelus. Ele pede perdão pelo barulho. E, o que é um aviso aos católicos sobre o momento no qual o anjo Gabriel anuncia à Maria a concepção de Jesus, numa consagração da pureza, transcende o que seria uma simples entrevista, para a celebração da pureza do choro, defendida pelo músico nos seus 70 anos de carreira, dos 84 de vida. "A arte vem do coração. Não adianta ter estudado muito, ter cinco diplomas. Se a sua música não vier do coração, não acontece nada. Fico feliz com isso, porque vem de Deus, eu não comprei em loja nenhuma. Encontro pessoas na rua que me elogiam tanto que eu pergunto 'quanto você quer emprestado'."

 

Veja também:

video Trechos de 'A Fala da Flauta de Altamiro Carrilho'

 

A fala mansa e o raciocínio rápido, temperado por trocadilhos, escondem um músico inquieto. Altamiro Carrilho tem fôlego para fazer três shows mensais e ainda se aventura na caça de choros inéditos, que acredita guardados nos baús de famílias de compositores como Tom Jobim e Noel Rosa. "Gosto muito de ter coisas que os outros não têm não por vaidade, mas para ser útil, para divulgar", conta o maior flautista brasileiro. Ao reverenciar os grandes mestres, ele mesmo se torna ainda mais reverenciado: no mês passado lançou um "songbook", livro com as partituras de 12 músicas suas, para músicos e estudantes. E, na terça-feira, 1, sai o seu esperado documentário gravado em quatro DVDs e entitulado A Fala da Flauta de Altamiro Carrilho - com show de lançamento no Teatro do Sesi, em Curitiba.

 

Foi preciso uma "paciência de Jó" para aguentar a espera pelo material, previsto para outubro do ano passado. "Faltava um detalhe... Mas estou com a máxima paciência, porque tudo que consegui na vida foi com calma, nunca me precipito. O que tiver que ser meu, às minhas mãos virá." E vieram. São quatro DVDs, com imagens de shows, ensaios e depoimentos de amigos como Chico Buarque e o maestro Julio Medaglia.

 

Nem a gripe suína o impede de viajar. Ele estará em Curitiba, já na segunda-feira, 31, para uma coletiva de imprensa, "com gripe suína, com gripe bovina, com pandeiro ou sem pandeiro." "E nossos hospitais - desculpe-me a brincadeira - já estão preparados, já vai sair uma vacina brasileira. E com essa vacina, no mínimo, a gente vai morrer mais depressa."

 

Os DVDs completam a coleção Poesia do Sopro, que reúne três CDs, já lançados. O projeto da coleção foi idealizado pelo produtor alemão Andreas Pavel, e os CDs foram gravados em dois dias de shows em Niterói, em 2006, e lançados no ano passado, no Viva Rio, com a participação de vários convidados especiais, como Zé da Velha e Carlos Malta. O fio condutor dos DVDs são entrevistas feitas com o músico antes do show em Niterói, onde ele conta sobre sua vida, tudo mesclado com cenas externas, entrevistas e, claro, música.

 

"O DVD terá trechos curiosos sobre a minha carreira, entrevistas, convidados. Ele vai ser lançado na Itália, Alemanha, no Japão, e... na Índia... Já estamos a caminho das Índias", brinca o músico. Aproveitando o lançamento do documentário, Altamiro pensa em fazer um show na Sala São Paulo ou no Teatro Municipal, em dezembro, comemorando também seus 85 anos de vida. "Eu não nasci aí (São Paulo), mas tudo que recebi de bom, de prestígio, homenagem, vendagem de disco, tudo isso foi em São Paulo, que me prestigiou desde o meu primeiro disco", diz, cujo aniversário será no dia 21 de dezembro.

 

Choros perdidos - O documentário é importante para sua carreira, mas Altamiro quer dar mais trabalho a cineastas e biógrafos, por muito mais tempo. Ele está empenhado em colocar num disco músicas inéditas de compositores que não se destacaram pelo "choro", o que torna o projeto ainda mais interessante. "Eu estou com dificuldade, porque as pessoas que eram mais ligadas a mim já se foram. Agora, estou falando com neto ou sobrinho do indivíduo. Tentei fazer disco com músicas inéditas do Benedito Lacerda, mas o filho dele é engenheiro... não conhece música. Perguntei 'mas seu pai não tinha nada guardado aí numa gaveta?' Nada."

 

Justo Lacerda, a quem Altamiro conquistou a amizade ao imitá-lo num programa no rádio chamado Papel Carbono. "Ele discutiu com a esposa. Ela dizendo que não era ele que estava tocando, e ele dizia que sim: 'sou eu, sou eu que estou tocando, então eu não conheço o meu estilo! Mas não me lembro dessa música !'. Mas era eu quem estava tocando, num programa de imitações." Ele pegou o carro, foi até a rádio, e conferiu quem tocava. Desde então, se tornaram amigos.

 

Será Radamés? - Outro amigo que se foi, dos tempos em que Altamiro era diretor artístico de gravadora, era Antonio Carlos Jobim. "Ele tem um choro inédito que quero ver se pego e faço qualquer coisa aí, porque eu gostava muito do Tom, ele era meu amigo. Ele ia estudar no estúdio da companhia em que eu era diretor artístico e usava o piano na hora que quisesse, só me avisava, e ficava lá treinando para não perder tempo. E fizemos uma amizade muito boa."

 

Altamiro já escreveu uma música ao amigo, em seu disco Simplesmente Música. Em Homenagem a Tom Jobim, Altamiro faz um choro diferente, mais ao estilo Bossa Nova. "Não parece o chorão não, tudo menos o chorão tocando. Mas eu chorei diferente, com lágrimas do Tom."

Sobre o choro perdido de Tom, Altamiro quer falar com a família para conseguir pegar ao menos um rascunho. "Talvez ele (Jobim) não conseguisse fazer o estilo perfeito, exato, do choro tradicional. Mas estou com plano de gravar outro disco, e essa música será inserida."

 

Paulo Jobim, filho de Tom e presidente do Instituto Antonio Carlos Jobim, ficou surpreso com um possível choro inédito do pai. E disse que Altamiro pode vasculhar os documentos do maestro, dentro e fora da internet, no site do instituto  para ver se é possível encontrar em meio a tantos documentos. "Tem uma porção de coisas lá, mas tem coisas até demais... Seria mais fácil o Altamiro pedir ajuda de uma moça no instituto, que também é flautista", diz Paulo, curioso em saber que música é essa. "Será que não é a Meu Amigo Radamés?"

 

Altamiro também ficou sabendo, em um papo com pessoal da antiga, que o Noel Rosa fez um chorinho. "São coisas que vão lá no fundo do baú. E pedi pra arranjar um rascunho e me prometeram trazer um choro de Noel, que só fazia samba." Para ele, o que fascina, é a surpresa de um compositor se aventurar em um gênero sobre o qual ele não se destacou. "Veja o Jacob do Bandolim. Ele fez uma sonata, ninguém sabia disso, até que o filho dele achou um rascunho. E você não imagina o que pode estar perdido por aí do Ernesto Nazareth!"

 

Sapato novo - Sua criatividade também o levou até a compor uma letra, ainda inédita, para a música André de Sapato Novo, de André Victor Correa, no qual, segundo histórias contadas por um sobrinho do compositor, as pausas bruscas na música simbolizam o tempo que André precisava para descansar os pés das bolhas, causadas pelo sapato novo em pleno arrasta pé. "Eu cheguei até a compor uma letra, mas depois desisti. Mas a letra existe", diz, brincando que precisa ainda achar alguém para cantá-la.

Altamiro se diz um retrógrado. Mas, depois, pede para mudar o adjetivo: "saudosista, é melhor de pronunciar (risos)." Mas lembra que essa saudade do passado advém daquela antiga preocupação de fazer da música um canal da poesia, "uma grande melodia para uma grande letra".

"Hoje tem nada disso não. São todas baseadas na percussão, 'pum pacatá bumbum'... agressivo. Falta um pouco de habilidade, de sensibilidade aos jovens de hoje. Há música boa, mas não estão fazendo uma música tão boa quanto se esperava, porque a tecnologia ajudou o progresso da medicina e da ciência, da informática, mas na música não. A música ficou para pior", critica.

 

A paixão pela música e o encanto pela flauta

 

Numa entrevista descontraída, Altamiro Carrilho conta aqui um pouco de sua história e de sua paixão pela música e pela flauta, despertada pelas "gravações mecânicas primitivas do Patápio Silva".

 

Estado - Para Villa-Lobos, o choro veio do 'xôlo', uma festa dos escravos. Para outros, dos 'chorumeleiros', os bisavós dos oboés. Para você, de onde vem o choro?

 

Altamiro Carrilho - Não sou um expert no assunto. Mas vem realmente dos batuques dos escravos. Isso está provado por diversos estudos e por parentes de pessoas que viveram naquela época. A base foi essa mesma, o batuque dos escravos, e os brancos iam assistir.

 

Desde pequeno, você se interessa em música. Porque a flauta te atraia tanto?

Eu sou de uma família de músicos do lado materno, do lado Aquino. E eu não uso inclusive porque o diretor da primeira gravadora achou por bem usar o Carrilho ao invés do Aquino, porque era menos usado. Acabei concordando e deu certo.

 

E a flauta?

O que me despertou para a flauta foram gravações mecânicas primitivas do Patápio Silva. Eu estava ouvindo na casa de um amigo do meu pai discos de Patápio tocando flauta e um piano acompanhando. E os estúdios eram tão pequenos à época que não cabiam uma orquestra, o que está acontecendo agora. Eu sabia que o som não era aquele, o som deveria ser muito melhor, mas a reprodução do disco de carnaúba dava aquele chiado. Mas aquilo me encantou. E fiquei maravilhado com o som da flauta, e com muitos músicos na família, quase todos os tios eram músicos, minha mãe também tinha musicalidade enorme, já estava no sangue a tendência musical. Agora, o instrumento eu escolhi por isso. Eu, com cinco anos, ouvi esse disco e comecei a me interessar pela flauta exclusivamente, e por instrumentos de percussão. Aprendi a tocar alguns, e toquei na banda da minha terra, eu era o caçulinha da banda.

 

Patápio compôs "Primeiro amor". Foi essa música que chamou sua atenção?

Não, foi Margarida, de autoria do Patápio e tocada por ele. Foi por essa música que eu furei o disco.

 

Você seguia as bandas da sua cidade pela rua?

As bandas eram muito importantes antigamente, que era a única diversão gratuita interessante e inteligente. Tocavam valsas de Strauss, cançonetas, melodias de operetas, coisas bonitas. E o povo curtia, alguns dançavam na praça. Foi interessante esse meu início, convivendo com essa gente toda, fazendo flautinha de bambu...

 

Depois do programa do Ary Barroso, sua carreira disparou ..

Aquilo me deu um prestígio muito grande, porque era o programa mais temido. Era preciso ser muito bom. Ele dizia: "eu sou exigente porque senão teremos um acúmulo de 'facões'", músicos que não são muito bons, que não nasceram para o instrumento, mas insistiram. Era terrível ser chamado de "facão".

 

Depois do programa, você levou essa força do menino do interior para toda a sua carreira? Como você cultivou isso depois do programa?

Ficamos amigos, eu fazia uma visitinha pela madrugada acompanhado de outra pessoa mais velha, ia em boates para ver show. Ele sempre ia, tomava um drink, tocava umas músicas, composições novas dele. Foi um ambiente que fui encontrando pouco a pouco, até que comecei estudar música para valer, porque eu tocava quase de ouvido. Tive que desenvolver minha técnica, porque foi uma projeção enorme aquela minha ida ao programa.

 

Você sempre teve mais influência do choro, também da música clássica, mas o que te mexeu foi o choro...

O choro porque comecei como chorão né, e estou chorando até hoje. (risos) Mas então, a música erudita no Brasil, como era naquela época, continua hoje, com uma pequena diferença: agente não podia sobreviver tocando música clássica. Até hoje é difícil. Os salários são pequenos, os músicos estudam muito, e no fim não há uma compensação em termos de pagamento, de dinheiro. E o popular dava mais. E conversando com o Benedito Lacerda, que se tornou muito meu amigo - que eu fui imitá-lo num programa de imitações. E ele discutiu com a esposa. Ela dizendo que não era ele que estava tocando, e ele dizia que sim: 'sou eu, sou eu que estou tocando, então eu não conheço o meu estilo! Mas não me lembro dessa música'. Mas era eu que estava tocando, num programa de imitações, chamado Papel Carbono.

 

Pregou uma peça nele...

Aí o Benedito teimou tanto com ela (esposa), que acabou dizendo. 'Sabe de uma coisa, vou pegar o carro e ir na rádio ver quem é o cara que está me imitando, conseguiu me enganar a mim mesmo." Quando ele chegou lá, eu estava no finalzinho do programa, lá no camarim, próximo do estúdio, ele pediu para tocar novamente aquela música. E ele acabou se convencendo que era eu mesmo, e me deu endereço, fez convite para ir a casa dele, que ele tinha muitas músicas boas para quem estava iniciando em flauta. E funcionou muito bem, foi o meu grande amigo o Benedito.

 

E com relação ao Pixinguinha? Foi ele que mais fez o sax chorar até hoje?

O problema dele é que ele ganhou um sax todo prateado, numa afinação especial. O dele era o único no Brasil. Talvez em outros países existissem já outros saxofones de prata. Mas o dele foi feito por encomenda. Ele mandou fazer numa afinação que interessava mais a ele, que teria um campo mais abrangente de vários gêneros de música, a sonoridade ficou muito bonita, e ele tocava e parecia que estava soluçando, tirava um som realmente diferente. Mas ele foi um grande flautista, antes de um grande saxofonista, foi muito bom flautista com uma técnica invejável, um sopro muito firme. Foram esses os grandes. Patápio, Pixinguinha, Benedito, Antonio da Silva Calado, e outros tantos. Só que o Calado não aparecia muito, porque ficava calado, não falava nada (risos)

 

E o Andre Victor Correa?

Esse também... Mas eu não o conheci pessoalmente. Mas tem uma história engraçada que um sobrinho dele me contou, não sei se verídica ou não, mas achei a história engraçada, e às vezes comentou no meu show e faço uma brincadeira com o auditório. Toco outras melodias que não tem nada a ver com a do André, para fazer as pausas que ele fazia para descansar, porque estava estreando o sapato novo... fez um calo... a história é muito engraçada. Eu toco isso e quando faço aquelas paradas irreverentes, venho com uma música clássica, toco minueto de Beethoven, toco a valsa número 7 de Chopin, e coisas assim. No final, eu toco Atirei o Pau no Gato.

 

Mas é verdade que essa música foi mesmo feita por causa das bolhas no pé provocadas pelo sapato novo?

Isso, exatamente isso. Eu cheguei até a compor uma letra, mas depois desisti. Mas a letra existe.

 

Com a invasão da música estrangeira na década de 70, você foi um critico ferrenho da falta de espaço da música nacional na mídia, o que também prejudicava os músicos.

Isso é terrível...

 

Mas vendo sua carreira toda, você já fez as pazes com a guitarra elétrica e com a discoteca, ou você acha que isso ainda prejudica a música nacional?

Não prejudicam mais não. O brasileiro já se acostumou e o resto do mundo também. Porque, quando os norte-americanos querem fazer alguma coisa, eles planejam muito bem. Planejaram muito bem essa divulgação. Então a mídia toda acabou aceitando. No início repudiou um pouco, mas acabou aceitando e as discotecas foram se multiplicando, e como existe hoje o funk e essa coisa toda, não se pode evitar. Eles mandam um plano de divulgação tão bem feito e acompanhado de notinhas verdinhas, muito cobiçado no mundo inteiro.

 

Mas a partir do momento que se tem contato com a música, seja americana, seja o funk, funk batidão, é possível que isso ajude a abrir a percepção do público para outros gêneros musicais?

Ah sim, vai acabar se tornando uma salada terrivelmente sem sabor. Mas que o povo aceita porque está na mídia. Você sabe que o brasileiro aceita qualquer coisa. Mas nos EUA é igual, o que anuncia no rádio e na tv é o que vende. Eu dependi da mídia no início da carreira para me firmar, mas depois tinham pessoas que queriam minha coleção. Eu adquiri esse status de colecionadores querendo meus discos, o que foi muito bom para mim, me facilitou. Durante anos fiquei viajando pela Europa, Ásia e vários continentes, conheci muitos países civilizados incluindo a antiga URSS. Foi muito bom, mas foi uma luta, porque para se tocar música que não fossem dos ritmos da moda, tínhamos que forçar a barra, dar licença, pelas beiradas do prato, com jeitinho. Agora não, a mídia liberou geral, estão tocando tudo, preferencialmente músicas importadas, mas estão tocando tudo.

 

A internet pode ajudar? No seu site, tem muitas partituras, e lá posso escutar você tocando, acesso outros canais. Você tem retorno na web?

Sempre dá um retorno, ainda que não seja imediato. Um ouve, outro ouve, outro vai à loja e compra o disco.

 

As partituras de choro são desafiadoras...

O choro encontra uma barreira enorme Isto porque os americanos sabem que se o chorinho pegar mesmo, ele vai atingir o planeta Terra total. Porque é uma música baseada nas músicas eruditas, tem uma raiz muito brilhante. Existem choros de dezenas de estilos, e todos eles são choros. Você falou no início em Villa-Lobos, ele era apaixonado por choro, como foi o Calado, primeiro professor de flauta da escola de música brasileira no Rio, e foi um flautista que impressionava qualquer estrangeiro, sem falar em Patápio e outros tantos. O choro não anda mais rápido porque dão umas travadas no choro. Vem um ritmo novo, que é o mesmo ritmo que já feito há 20 anos pelos americanos, pelo pessoal do lado de lá, mas dão nome diferente. Rock'n roll... então, desde o rock'n roll pra cá, tem surgido gêneros incríveis, mas você vai ver o ritmo, é o mesmo ritmo. Só muda o nome.

 

O jazz sofreu também com o rock...

Sim, porque o jazz era uma música inteligente, apresentava o tema e variações sobre o tema. Aquilo é coisa de Mozart, Bach, Beethoven. A bossa nova ajudou a música brasileira, mas ao choro não ajudou. Porque a bossa veio com característica de música americana, inclusive escrita a quatro tempos, e o choro são dois tempos.

 

Há um pouco de jazz no choro, ou choro no jazz?

Um pouco de jazz no choro eu acredito mais, porque o choro nasceu purinho, com a seqüência harmônica bonita, ritmo discreto. O choro nasceu muito bem, e foi bem obrigado até alguns anos atrás. Depois de algumas décadas apareceram os "novos chorões", entre aspas, porque não tinham nada de novo, eles apresentam um choro com algumas frases parecidas com músicas de jazz, ora, isso teria que ser chamado choro-jazz, no mínimo.

 

Um tipo de "chorazz"?

Tem que identificar a intenção do autor. Eu passei com muitos deles e gravei muitos com influência do jazz.

 

Você pode citar alguns?

Tem vários, tem, por exemplo, do Hermeto Pascoal Chorinho para Ele, e Gilberto Gismonti tem alguns. Tom Jobim chegou a fazer um choro, mas não chegou a gravar e não fez letra. Ele tem um choro inédito que quero ver se pego e faço qualquer coisa aí, porque eu gostava muito do Tom, ele era meu amigo de estúdio. Ele ia estudar no estúdio da companhia em que eu era diretor artístico da gravadora. Ele usava o piano na hora que quisesse, só me avisava, ficava lá treinando para não perder tempo. E fizemos uma amizade muito boa

 

Você fez a cabeça de muitos músicos e o choro ganhou vitalidade...

Sim, exatamente por essa influência de alguns músicos de jazz, como Carlos Malta e outros tantos, ele ganhou um sabor diferente. Mas no fundo no fundo a raiz é a mesma, é aquela batida "tacatiquetaca", oito semicolcheias cada compasso, é por aí. Não adianta tocar coisa muito complicada porque o povão não entende. A boa música não é divulgada. Eu vejo cada samba que os amigos têm no carro. Olha, que beleza, nem sabia dessa gravação, de músicas boas, instrumental. Tem gente aí fantástica tocando instrumentos musicais, mas as gravadoras deixam para depois.

 

Aqui em São Paulo tem rodas de choro espalhadas pela cidade, como a Benedito Calixto, onde tocava o seu amigo Carlos Poyares, morto em 2004. O choro continua crescendo? E qual sua a relação com o Poyares?

O choro não tem crescido nem decrescido. Ele sobrevive, de qualquer maneira. Pode chegar enxurrada de ritmo de fora, que ele não cai. Mas o que eu digo, é que falta divulgação. A mídia não se interessa por música instrumental, a única rádio que toca no Brasil é a rádio MEC no Rio, e um pouquinho na Rádio Cultura de São Paulo. A Eldorado também toca um pouquinho. Mas são tão raras. Nas emissoras cariocas, pode ligar em todas as estações não vai encontrar. Agora música clássica, de jazz... Na MEC tem um programa só de jazz. Ministério de Educação e Cultura!

 

Eles dão algum apoio ao choro?

Não há apoio nenhum, a não ser essa Lei Rouanet. Pode parecer que sou um mau brasileiro, mas sou muito bom brasileiro. Queria ver coisas de maneira diferente, e passam dias, meses, anos, e continua tudo igual.

 

E o Poyares?

Olha, ele não saia de minha casa. Eu morava em Vila Isabel, ia para lá às 10h da manhã. Ele só tocava à noite, no Dancing, para descansar a orquestra tinha um quinteto lá. Ele ia para casa e ouvia discos, só parava para almoçar. E ouvia discos, para tocar parecido comigo. Ele mesmo confessou: "o dia que você disser que está muito parecido, eu fico feliz." E ele me perguntava, e eu dizia: "está quase bom". Esse quase era para incentivar a continuar, porque ele fazia questão de fazer o mesmo fraseado, até a respiração ele decorava É muito curioso isso. Depois com aquele vício de fumar, tomar bebida alcoólica, perder noites de sono... Ele fumava quatro cartelas de cigarro por dia, ele se envenenou. E, ultimamente, me contava como vantagem, que tomava um litro e não sei quanto de uísque. E eu digo que vantagem! Se fosse um litro de leite ou água mineral... Não pode. Antigamente, havia uma lenda de que o indivíduo quanto mais bebesse, melhor tocava. Sabe como é? Havia essa lenda, esse dito. Fulano quanto mais bebe, mais toca. Que nada, faz trapalhada qualquer e os menos avisados acham que ele fazia coisa fantástica. Ele sofreu muito com esses dois vícios, pegou até câncer.

 

Você teve contato com ele até o fim?

Sim, até os últimos meses de vida, estava em Brasília. Ele estava entre Brasília e São Paulo, e em Santos, ele morou lá . Ele se integrou ao conjunto do Canhoto no Rio, muito bom, que eu também integrava. Eu não tinha mais tempo para trabalhar no conjunto do Canhoto e na minha bandinha. Então, eu o indiquei. Ele foi me substituir lá. Mas ele tinha dificuldade de leitura musical, e na gravação não pode demorar, porque era pago por minuto, antigamente, porque agora nem sei se pagam mais. (risos) Então, músico mais experiente era preferido por economia. Então, quando calhava de ser bom músico, disponível, então ia em todas. Assim mesmo ele conseguiu gravar com muita gente, no Regional do Antonio Rago, estava no final, ele convidou o Poyares, mas houve um desentendimento, foi uma pena porque o Rago era bom, tinha componente bons, o Caçulinha, Orlando Silveira, então seria uma boa oportunidade, mas ele não quis. A gente não pode pegar o sujeito e carregar na palma da mão. Cada um tem o seu caminho a seguir.

 

Você já chegou a dizer em entrevistas que sonhava em ter um estúdio em casa. Conseguiu realizar esse desejo?

Ainda não, porque eu gosto muito de sossego e isso atrapalha um pouco. Acho que, apesar de pobre, eu sou muito espiritualista, vou muito pelo que Deus manda fazer, não sou desorientado de ir para boate, nada disso. Determinados vícios eu passo por cima, podemos viver muito bem sem certas extravagâncias. E o estúdio não deixa de ser uma extravagância, porque se você quiser se dedicar mesmo você tem que ser o diretor artístico, diretor moral, espiritual, musical, tudo que termina em "al". Então não dá. Já estive como diretor de um estúdio de gravação, a Copacabana Discos, que era dos irmãos Vitalli. Eles venderam e o português que comprou não entende nada do assunto, tá lá como uma barata tonta. Ele já me convidou para ir para lá. "Não seu Ramiro, muito obrigado! Eu sou miro, mas não sou Ramiro, sou alta". Ele riu muito do trocadilho, mas entendeu.

 

Margarida, seu 'Primeiro Amor'

Com forte influência dos músicos da família de sua mãe, Altamiro Carrilho se encantou definitivamente pela flauta transversal ao ouvir, aos cinco anos, Margarida, de Patápio Silva, o mesmo que compôs Primeiro Amor. E, também, instrumentos de percussão, os quais tocava nas bandas de sua terra natal, em Santo Antonio de Pádua, no Rio. "Comecei como chorão e estou chorando até hoje (risos). Mas a gente não podia sobreviver tocando música clássica."

Depois do sucesso obtido ao vencer o concurso do Ary Barroso, que deu incrível projeção a Altamiro, ele começou estudar música para valer e, na década de 70, ousou ao levar a música clássica à Mangueira, pelo choro de seu conjunto regional, com o maestro Julio Medaglia. "Mozart e Bach eram chorões de primeira ordem. Já até fiz música com trocadilho, como Vivaldinho, e O eterno jovem Bach."

Ele sofreu com a invasão da música americana no Brasil, teve que vender 18 flautas que colecionara em suas viagens ao redor do mundo, mas disse que já fez as pazes com a guitarra elétrica e a discoteca. "O choro não tem crescido nem decrescido Ele sobrevive, de qualquer maneira. Pode chegar a enxurrada de ritmo de fora, que ele não cai. Mas o que eu digo: falta divulgação. A mídia não se interessa por música instrumental."

Tudo o que sabemos sobre:
Altamiro Carrilho

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.