Os reis do baile voltam a animar a festa

O mineiro Waldir Calmon (1919-1982) pianista, arranjador e chefe de orquestra, foi pioneiro pelo menos num aspecto na arte de animar bailes. No final dos anos 1950 e começo dos 60, décadas antes da moda do culto ao DJ, ele gravava LPs com os sucessos da hora reunidos em uma única e longa faixa, que ocupava um lado inteiro daqueles velhos discos de vinil. Correspondentes aos CDs mixados de hoje, eram ideais para embalar festinhas caseiras. A diferença é que não se tratava de simples colagem de gravações alheias, era tudo tocado por ele e seu conjunto ou orquestra.Os discos, como os 12 da série Feito para Dançar, eram amostras condensadas dos embalos que Calmon, um dos mais populares músicos do gênero naquele período, comandava nos salões e clubes noturnos. A propósito, durante 12 anos ele atuou na boate carioca Arpège, de sua propriedade. Algumas de suas gravações mais representativas estão reunidas nas compilações Waldir Calmon - Sua Orquestra, Conjunto e Piano (Selo Revivendo) e O Lounge Brasileiro de Waldir Calmon, Moacyr Silva e Walter Wanderley (EMI).O saxofonista mineiro Moacyr Silva (1918-2002) e o pianista pernambucano Walter Wanderley (1932-1986) também são considerados ícones do samba instrumental balançado, que se tornou a marca da música de boate daquela época. Em pé de igualdade, os três deixaram boas impressões em trabalhos com grandes cantoras: Elizeth Cardoso e Dolores Duran (Silva), Ângela Maria (Calmon) e Isaura Garcia (Wanderley). No caso dos dois pianistas, a adesão ao órgão tipo "som de churrascaria" (evidente na faixa O Menino Desce o Morro, de Lounge...) rendeu-lhes uma aura de cafonice. Mas foi como "organista n.º 1 do Brasil" que Wanderley conquistou a América (onde morou de 1966 até a morte), de carona no sucesso da bossa nova tipo exportação. Moacyr Silva levou para os bailes a sofisticação e a sensualidade de seu sax jazzístico, que imprimiu em vários discos dedicados ao gênero. Sua suingada e sutil versão de Pra Machucar Meu Coração (Ary Barroso), presente nesta compilação, é um charme só.Graças ao modismo do lounge - à parte todos os equívocos que se cometem sob esse rótulo, incluindo a apropriação abusada da bossa brasileira - essas pérolas descompromissadas que eles produziram, de cafonas passaram a cult. Easy listening, música de coquetel, de chá dançante, ou qualquer outra classificação pejorativa, não correspondem à excelência do repertório nem ao molho das releituras. Entre dançantes, charmosas e bem-humoradas as versões de Calmon, Wanderley e Silva0 para sucessos alheios são verdadeiros achados.Calmon era campeão em fazer leituras peculiares de canções consagradas. O seletivo repertório do CD da Revivendo abre com Na Cadência do Samba (Que bonito é...), de Luiz Bandeira, famoso tema que ilustrava as reportagens de futebol do extinto cinejornal Canal 100. O CD corresponde à parte, digamos, mais sóbria do feitio de Calmon. Já O Lounge Brasileiro pende para o lado mais divertido. Para Calmon valia pegar músicas conhecidas de qualquer gênero para dar tratamento de samba de boate. Suas versões para Rock Around the Clock e as clássicas Mercado Persa (de Ketèlbey) e Vôo do Besouro (Rimsky-Korsakov) são impagáveis. O mesmo se pode dizer da versão instrumental de Maria Escandalosa, feita por Wanderley, e Big Nick, por Silva. Big Nick (ou Les Cornichons na versão francesa) foi sucesso da jovem guarda nas versões cantadas por Erasmo Carlos e Eduardo Araújo, que fez a letra em português.Uma das seqüências mais divertidas do CD emparelha Tequila (por Calmon, em gravação de 1962) e Despedida de Mangueira (por Wanderley, em 1959), cuja introdução cita o famoso mambo. É uma das melhores sacadas do produtor Rodrigo Faour. Pesquisador musical e autor de Bastidores ? Cauby Peixoto: 50 Anos da Voz e do Mito, Faour tem assinado projetos que fogem do óbvio. Com CDs dedicados a Leny Eversong, Cauby e esta criteriosa e divertida reunião dos reis do baile, ele entra para o clube de Leon Barg, Marcelo Fróes e Charles Gavin, que têm feito trabalho exemplar pela memória musical brasileira.

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