Lucas Jackson /Reuters
Lucas Jackson /Reuters

Os porões estão em alta

Nenhum indie se assusta mais ao ver uma banda da Escócia fazer trilha sonora de matérias do 'Fantástico'

Lúcio Ribeiro - O Estado de S. Paulo,

13 de novembro de 2010 | 10h00

Uma das primeiras cenas do filme Somewhere (Em Algum Lugar no Brasil), o aguardado novo trabalho da cineasta Sofia Coppola (filha do Francis Ford) que entra em cartaz nos EUA só em dezembro mas já andou frequentando festivais de cinema pelo mundo em 2010, são duas garotas se exibindo nos postinhos para um ator médio e entediado de Hollywood.

 

A dancinha no quarto de hotel do cara, um famoso 'pole dancing' particular, se desenvolve linda e solta ao som da banda Foo Fighters. A música, My Hero, toca inteirinha.

 

Algum tempo depois, na "cena da piscina" no meio do filme, como se fosse um videoclipe, aparece na íntegra uma música dos Strokes cantada por Julian Casablancas.

 

Num dos melhores filmes do ano, o canadense Scott Pilgrim, em cartaz em São Paulo, a música é um dos carros-chefe. O astro principal aparece com camiseta do Smashing Pumpkins, toca baixo em um grupo indie de Toronto, tem uma namoradinha chamada Ramona por causa dos Ramones, faz citações de novo rock o tempo inteiro e ainda estimulou o músico Beck (a pedido do próprio) a encarnar a banda indie fictícia do filme e escrever músicas exclusivas para ela.

 

Antigamente um gênero que nascia, vivia e morria no andar de baixo da música, o indie rock (ou rock independente) definitivamente anda frequentando com personalidade lugares melhores, maiores e até inusitados.

 

Veja a televisão, por exemplo. Nenhum indie se assusta mais quando vê sua banda favorita da Escócia ou Suécia virar fundo sonoro de matérias do Fantástico ou embalar programas como o Big Brother Brasil, na TV Globo. E o mais nerd dos adoradores de bandas semidesconhecidas jamais acreditaria se dissessem, há alguns anos, que a vinheta de abertura de um quadro do escrachado humorístico Pânico na TV, da Rede TV, é uma canção da banda de indie-eletrônico experimental Animal Collective, de Baltimore.

 

Mesmo com a MTV há anos dando as costas ao M de seu nome, escanteando a música independente ‘de qualidade’ (qualquer ser indie acha isso) em detrimento de programas de auditório ou com o foco em modas musicais adolescentes, o indie rock tem se virado muito bem por outros canais. Principalmente nos EUA.

 

Um dos programas mais vistos da noite americana, o Late Show, do entrevistador bonachão David Letterman, é atualmente o melhor amigo da música independente. O talk show de Letterman, diário, dificilmente passa uma semana sem botar para tocar em seu estúdio, ao vivo e para milhões de espectadores, uma ou duas bandas indies. Às vezes a produção do programa chega a ligar para as bandas para estrearem com exclusividade música nova no Letterman, sem passar antes pelos vários outros talk-shows das altas horas da TV dos Estados Unidos.

 

Nesta semana voltou ao ar na televisão americana o figuraça topetudo Conan O’Brien, outro bamba do talk show das noites/madrugadas da América, desta vez estreando seu programa Conan num canal a cabo, a TBS.

 

Com o currículo que aponta longa carreira entrevistando em redes abertas e invejável trabalho de roteirista do humorístico Saturday Night Live e do desenho dos Simpsons, O'Brien, este sim, é amigão das causas indies faz tempo. Os Strokes e o White Stripes só tocam (ou tocam primeiro) no programa dele para apresentar músicas ou discos novos.

 

Em sua triunfal volta à televisão, nesta semana, depois de uma briga famosa com a poderosa rede NBC, Conan O’Brien, para o quadro musical de seu novo programa, montou uma banda ele mesmo que tinha a ilustre presença do guitarrista Jack White (White Stripes, Raconteurs, Dead Weather) na formação. Era a Basic Cable Band. E a partir de agora bandas independentes vão se enfileirar para tocar no novo Conan e abocanhar a considerável audiência que o apresentador arrasta consigo, onde quer que esteja.

 

Por fim, tem o já citado humorístico Saturday Night Live, no ar desde 1975. O tradicionalíssimo programa das noites de sábado (óbvio) na TV americana há muito tempo interage com artistas de todos os tamanhos e estilos, seja para abrir espaço para uma pequena apresentação (duas músicas para a TV, às vezes mais músicas para a internet) ou para fazer seus integrantes participarem de quadros de humor.

 

Recentemente, o Kings of Leon tocou no SNL e a musa Rihanna fez paródia musical engraçadíssima de Bonnie & Clyde. A atração sonora de hoje à noite do Saturday Night Live, que horas depois vai estar certamente disponível em vídeo no YouTube, é a cultuada banda indie canadense Arcade Fire.

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