Os pífanos e apitos de Tom Zé

O velho bode anarquista está com a corda toda. De Irará para o mundo, ele radicaliza sua estética low-fi e amplia a farsa tecnológica que é a base de sua música. E avisa logo de cara: não toca instrumentos, mas instromenzés, coisas com as quais o ilusionista musical hipnotiza multidões. Com Jogos de Armar (Faça Você Mesmo), o seu novo CD pela Trama, o compositor Tom Zé volta aos intestinos do sertão baiano para renovar sua própria contribuição pós-tropicalista à música brasileira. Seja com uma versão eletrificada do xote Pisa na Fulô (de João do Vale, Ernesto Pires e Silveira Jr,), a mais uma cantiga antiimperialista, Jimi Renda-Se. "O dólar é moeda falsa/O americano já não segura as calças/A Alemanha quase pedindo esmola/A inglesa não usa mais calçola/Na Itália não tem mais sutiã", ele canta, em Jimi Renda-Se. Que, por sinal, é nome de música de um outro grande processador de influências musicais, Edvaldo Santana, o bluesman da Zona Leste. Mas Jimi Hendrix comparece mesmo é em Pisa na Fulô, que ganha uma guitarra dissonante e é cantada em coro, como um pastoreio temporão. Não satisfeito, logo em seguida Tom Zé volta às raízes e revisita Asa Branca, clássico de Luís Gonzaga. Banha o hino rural de Gonzagão com um toque de urbanidade, de Lira Paulistana, de Tubarões Voadores, de Arrigo Barnabé. Tom Zé entende que o sertão estendeu-se pelos canteiros de obras de São Paulo e Rio de Janeiro e Belo Horizonte e até Porto Alegre. Ele vê a necessidade de fundir a tradição nordestina com o canto torto do andaime, como barulho do esmeril, da máquina de cortar lajota. Banda de pífanos com apitos de fábricas. E ele, que quase voltou à Bahia quando estava na pior para ser frentista de posto de gasolina, reconhece essa esquizofrenia entre rural e urbano, entre sertão e mar, entre elevador e ladeira na sua própria música pregressa. Aí, vai buscar uma música esquecida, Conto de Fraldas (que apareceu no disco Nave Maria, de 1984). Em Medo de Mulher, ele parte de um jingle de Washington Olivetto, de 1977. Em O PIB da PIB (Prostituir), o cronista das mazelas nacionais ressurge para criticar o turismo sexual no País. Meninas de "catorze, catorze anos, doze anos, doze anos" trabalhando para contribuir com o "produto enterra bruto". Cafuás, Guetos e Santuários é a leitura hip hop de Tom Zé. "Tema solicitado por Sinval Itacarambi para cabeça de um programa de televisão", ele esclarece. Depois, a homenagem, em A Chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI. "Chegaram na Casa Branca/Os dois de carro de boi", canta Tom Zé. Coisa de gênio, ao som forró básico de triângulo e zabumba. Impossível não se comover com esse disco. Afinal de contas, nós não somos burros.

Agencia Estado,

17 de novembro de 2000 | 17h40

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