REUTERS/Daniel Acker
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Os novos Rolling Stones: cirurgia, aposentadoria adiada e rock n’ roll

Banda tem como único patrocinador da nova turnê a Alliance for Lifetime Income – uma associação comercial que promove a venda de programas de pensão vitalícia que garante uma renda anual ao aposentado

Jeff Sommer, The New York Times

15 de julho de 2019 | 18h12

Os Rolling Stones, os garotos malvados do rock nas décadas de 1960 e 1970, estão mostrando a idade. Em abril a banda adiou o início da sua turnê americana porque Mick Jagger se submeteria a uma cirurgia para substituir uma válvula no coração. Agora ele está saltando no palco novamente e a tour está na estrada.

Gostaria de acreditar que os Stones são eternos como Peter Pan. Mas ocorre que a banda escolheu como único patrocinador a Alliance for Lifetime Income – uma associação comercial que promove a venda de programas de pensão vitalícia que garante uma renda anual ao aposentado.

Talvez nada disto seja surpreendente. Os Stones começaram a aparecer em 1962 e todos os quatro membros atuais têm mais de 70 anos. Eles não são imortais e eu também não.

Mas, como fã da banda desde os anos 1960, jamais esperei ver esta frase: “Você terá o que necessita quando tiver uma pensão vitalícia”.

Sério?

Na verdade, Keith Richards e Mick Jagger não mudaram seu clássico sucesso “Você pode sempre ter o que deseja”. A aliança sim. A organização adaptou as palavras no seu website, para dizer às pessoas educadas a importância do “risco reduzido” em suas vidas como os Stones podem estar fazendo para sobreviver enquanto estiverem vivos.

Anúncios de cigarros, álcool e carros velozes são o que eu esperava dos Stones há uma década. Desculpe: duas décadas. Talvez três ou quatro, ou até cinco décadas.

Mas não em 2019. A banda envelheceu e isso tem consequências comerciais.

“Quando os fãs mudam junto com os músicos não há razão para a publicidade não mudar com eles”, disse John Covach, estudioso dos Rolling Stones e professor de teoria musical e diretor do Instituto de Música Popular na Universidade de Rochester.

O público dos Stones é perfeito para a Alliance for Lifetime Income, disse Jean Statler, diretora executiva da entidade que conta com 24 empresas de serviços financeiros como membros, incluindo a AIG, Allianz, Axa, Goldman Sachs, Prudential, State Street e TIAA.

Segundo ela, as pessoas que assistem aos shows da banda “são nosso alvo demográfico”: indivíduos de 45 a 72 anos com ativos para investir entre US$ 75 mil e US$ 2 milhões.

Essas pessoas não são “grandes investidores com muito dinheiro; são de classe média”, acrescentou Stadler. “São pessoas que trabalharam duro e fizeram uma poupança, podem ter o benefício de viverem mais do que o planejado e percebem que talvez não terão dinheiro suficiente para se manter durante todo esse tempo de vida.”

Os milhões de indivíduos que pertencem a este grupo – e sou um deles – podem nunca ter imaginado, quando adolescentes, que alguém um dia iria relacionar os Stones com pensão vitalícia na velhice. Eu não imaginava. Nem sabia o que era isto. Talvez você não saiba hoje.

Não tem problema. É um instrumento financeiro que oferece uma renda regular para a pessoa em troca de um investimento. Ou, como explica a Alliance, é uma pensão “que lhe garante uma renda que está protegida e com a qual você pode contar enquanto viver”.

A previdência social é de longe a pensão mais importante nos Estados Unidos e uma renda segura desde que emitiu o primeiro cheque em 1940.

Mas o programa vem deparando com escassez de fundos e os benefícios podem ser cortados em 15 anos. Como observei numa coluna recente, exigir uma solução por parte dos seus representantes no governo pode ser a melhor coisa que você pode fazer para garantir o seu futuro.

A aliança oferece uma renda suplementar, adquirida com a orientação de um conselheiro financeiro, talvez de um membro da própria entidade.

Comprar um plano de pensão vitalícia por ser uma opção sensata, se for barata o suficiente. Mas, como escrevi, a Previdência Social vai propiciar uma pensão de menor valor do que qualquer coisa disponível no mercado para aqueles que conseguem trabalhar depois da idade de se aposentar. (Desde que ela continue a pagar todos os benefícios).

Eu ficaria mais satisfeito se a Alliance for Lifetime Income se devotasse a restaurar a força financeira da nossa Previdência Social.

Mas enfim, não é possível ter tudo o que se deseja.

Mas como sou um fã dos Stones bem no centro da sua meta demográfica, ativo no Twitter e também interessado nessa pensão vitalícia, comecei a receber um jorro de mensagens da Alliance sobre os Stones e a oferta do plano de pensão, online. São interessantes, mas chocantes, justapondo a banda e seu lascivo logo com mensagens sérias sobre planejamento financeiro. Comecei a achar que estava entrando numa zona estranha – uma versão de 2019 da propaganda e entretenimento dirigida a idosos como o antigo programa de TV de Lawrence Welk.

Entre os patrocinadores de Welk estava o Geritol, um composto de vitaminas que prometia mais energia para pessoas com “sangue com pouco ferro”. Ele apresentava músicas de outra época e era o favorito da minha avó tanto quanto eu sou apaixonado pelos Stones.

Covach, que dá um curso sobre os Stones no website Coursera, me respondeu:

“Acho que você está encarando o fato de que grupo que sempre teve a ver com juventude e rebelião, sexo, drogas, etc., basicamente se tornar uma reunião de pessoas endossando planos de aposentadoria. E o que isso significa em termos de fim da vida para todos nós que somos dessa geração?”, disse ele.

“Imagine a próxima turnê. Os Stones poderão ser patrocinados por agentes funerários ou coveiros ou cooperativas de venda de lotes em cemitérios. É para aí que nos dirigimos?”, acrescentou.

Ainda não chegamos a isto. Os Stones continuam ativos, mas o tempo não está do nosso lado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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