Os Mutantes lançam CD que marca o retorno do grupo

Sérgio Dias e Zélia Duncan encerraram a entrevista, num hotel em São Paulo, ontem, cantarolando em primeira mão versos de uma canção que pode estar no CD de material inédito que os Mutantes devem lançar em 2007. "Oh my baby why can?t you come home/ Oh my baby why don?t you come home/ To my arms/ Home to the arms that are waiting for you/ Home to the arms that are waiting", diz um trecho da letra, ainda sem título. "É minha próxima Virginia", brincou o guitarrista e compositor. Depois dos bem-sucedidos shows nos Estados Unidos, que se seguiram ao de Londres, eles se preparam para o primeiro show da retomada dos Mutantes no Brasil - no dia 25 de janeiro, no aniversário da cidade natal do grupo, no Museu do Ipiranga. Ontem, Dias, Zélia, o tecladista Arnaldo Baptista e o baterista Dinho Leme se reuniram para promover o lançamento do CD e do DVD (Sony Music) com a íntegra do histórico show gravado no dia 26 de maio no Barbican Theatre, em Londres. Promover não é um verbo que soe muito adequado ao fenômeno de público em torno do grupo, mas é assim que o mercado funciona. A diferença a seu favor é o ressurgimento por "combustão espontânea", como definiu Dias. Mesmo que seja pela via de um formato viciado nos tempos atuais (o dos registros ao vivo), não tem nada de estratégico. Veio para atender a uma demanda de fãs ao redor do planeta que há décadas espera por esta reunião. "A coisa mais impressionante disso tudo é: a gente é a prova viva de que o sistema do mercado musical não tem coisa nenhuma a ver com música ou com essa situação toda", avalia Dias. "Porque se você for pensar dentro do business da música, a gente teria de ter um projeto de mídia, patrocínio, isso e aquilo. Você sabe como é a situação. É uma coisa absurda", continua. "E quando a gente disse sim ao Barbican (isso é que é a coisa mais impressionante), em 15 dias estávamos com shows marcado na América sem ter tocado uma nota. Não tinha disco lançado, não tinha tocado no Barbican, não tinha matéria, não tinha nada. Isso é público mesmo. É muito elegante pra gente. Aconteceu com uma finesse que é maravilhosa." "É a força da música mesmo", complementa Zélia, cantora convidada que nem se compara a Rita Lee. Em momento nenhum, aliás, a mutante original é citada no pequeno documentário incluído nos extras do DVD. Rita, como já se falou antes, é claro que foi convidada e declinou. Isso é um assunto que acaba não vindo ao caso. Zélia se integrou discreta e satisfatoriamente (para ambas as partes) ao projeto do grupo e tão poderosa quanto sua voz são a guitarra de Dias, a afinidade desta com os teclados de Arnaldo e a bateria de Dinho. "O que eu mais queria era estar no bolo. O grande tesão de eu ir para os Mutantes era me integrar. Afora a parte de eles serem quem são, do peso que isso tem, como cantora eu queria timbrar com eles e também não me despersonalizar." Nos extras do DVD, Dias lembra que o grupo não poderia voltar sem a estupenda bateria tocada por Dinho. Vendo o show, dá pra entender por que Dias diz que não é só técnica, não é uma cozinha coadjuvante. Ele, de sua parte, também não via sentido em tocar se não fosse com os Mutantes. "Quando a gente parou com o grupo e eles continuaram, não tinha nenhuma vontade de tocar acompanhando uma Bethânia, uma Gal Costa ou outro. Era difícil pensar em alguém de quem eu pudesse ser baterista. Até gravei e fiz alguns shows com Erasmo Carlos, foi gostoso, mas Erasmo também não fazia muito show. Achei que não ia tocar mais", lembra o baterista. Indicativo de contemporaneidade O entusiasmo de Arnaldo não é menor. "Eu preciso ir à casa do Sérgio e ele à minha, que nunca foi (risos), para começarmos a compor juntos de novo. A cada dia que acontece um show novo, o que eu sinto é que é uma coisa que pode ser melhorada. Isso é importante, porque os shows vão dar um adiantamento, não vai ser a repetição. Estou muito contente", diz. Além da única e inseparável guitarra Régulus com que Dias define a especialidade dos Mutantes, eles preservam de material original os pedais e a caixa Leslie embutida no órgão que filtra a voz de Arnaldo no célebre arranjo de Dia 36. Há também as bombas de inseticida (também conhecida como flit antigamente), mas em lugar da lata velha, elas são de plástico. O indicativo de contemporaneidade no som do grupo é que não há mais as orquestras que acostumavam acompanhá-los nos festivais. Hoje, o sintetizador faz o que a orquestra fazia. Um sampler foi utilizado para reproduzir esse som orquestral na introdução de Don Quixote, que abre o show gerando grande expectativa. No mais, como esclarece Dias, a contemporaneidade da coisa são eles mesmos agora. "É muito difícil fazer diferente do que fazíamos. Por exemplo, em Top Top, se eu não fizer aquele solo daquele jeito não vou ficar feliz. Ia ficar esquisito pra burro pegar essas músicas e colocar um DJ fazendo uma coisa em cima. Não tem nada a ver." A propósito, um elemento de atualização que ressalta em Top Top é a substituição de "sabotagem" por "sacanagem" no refrão, que era a palavra original, mas não podia ser cantada por causa da censura. Outros termos que eles recuperam estão em Ave, Lúcifer, que agora inclui os tesourados "cabelo verde-amarelo" e "abrir o amor macio". Entre outros ganhos, o quarteto trocou sangue novo com a percussão de Simone Soul e o múltiplo Vitor Trida (teclados, flauta, viola, cello, vocal), preserva o bom humor, a veia criativa pulsa e os traços da psicodelia ressurgem em preto e cinza, sem a extravagância das cores tropicalistas dos anos 60. Afinal, eles não se chamam Mutantes por acaso.

Agencia Estado,

28 Novembro 2006 | 19h52

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