Os melhores e nem sempre reconhecidos guitarristas

Há algo de Rob Fleming, o dono de loja de discos que estabelece paralelos entre sua vida sentimental e a música pop, personagem do romance "Alta Fidelidade", de Nick Hornby, nesta lista dos guitaristas mais significativos do século velho. Um quase inevitável retrospecto de imagens e sons. O dedilhado elegante de Wes Montgomery pode figurar como representante do jazz - gênero que em verdade nunca destacou muito o instrumento. O naipe de metais, o piano e a bateria sempre foram os personagens principais.Prova disso, desculpem os jazzistas radicais, é o espaço generoso oferecido a ela pelo blues e pelo rock . Nunca um instrumento esteve tão intimamente ligado ao desenvolvimento dessas estéticas musicais. Howlin´ Wolf parecia conversar num dialeto etílico com sua guitarra. Chuck Berry a incorporou à sua performance, inspirada nos passos de um pato, e Bo Diddley inventou a famosa Diddley-beat (batida quatro por quatro usada por todos que vieram depois), tocando numa personalíssima guitarra de corpo quadrado. Do time bluesy, Lucille, musa elétrica de B.B. King, atravessou boa parte do milênio anterior e continua na ativa.As revoluções neurológicas, como diria Timothy Leary, comportamentais e tecnológicas dos anos 60 passaram pelos amplificadores. Bob Dylan causou a revolta da comunidade folk e engajada norte-americana ao eletrificar a base musical de sua poesia, enquanto, no Brasil, pré-tropicalistas e jovens da tradição faziam passeatas contrárias ao uso da guitarra elétrica na MPB. Ignorando a mobilização, Pete Townshend, do The Who, a destruía no palco e Jimi Hendrix, como ele mesmo afirmava, fazia sexo com ela antes do ritual de purificação com fogo dos tempos do Experience - isso, para o pavor de Eric Clapton, que era considerado deus na Inglaterra. Carlos Santana imprimiu a latinidade no rock e Jimmy Page, do Led Zeppelin, ficou ainda mais famoso por seu instrumento de dois braços.Guitarristas marginais ao extremo, Wayne Kramer e Fred Sonic Smith, do MC5, e Ron Asheton, dos Stooges, criaram em Detroit aquilo que se tornaria o punk rock. Já em Nova York, Lou Reed musicava, com acordes econômicos, os efeitos da heroína com seu Velvet Underground. Fugindo um pouco da seara rocker, Bob Marley traduziu o intrincado universo rastafári em composições e maneira de tocar sempre inspiradíssimas. No entanto, o século teve os seus personagens guitarrísticos dispensáveis. Pseudovirtuoses e pastiches em geral, a lista é tão grande quanto os destaques definidos aqui pela memória afetiva - fica para o leitor o exercício de nominá-los. O novo milênio está nos primeiros dias e os garotos de hoje preferem ser DJs. Ainda assim, uma boa parte da história futura continuará sendo contada, ou nesse caso, tocada com palhetas, pedais e alavancas. É uma profecia.

Agencia Estado,

03 de janeiro de 2001 | 16h16

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