Magdalena Wosinska/The New York Times
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Os Foo Fighters seguem dominando o rock, mesmo após 25 anos de estrada

Dave Grohl e seus companheiros de banda são chamados sempre que é preciso tocar um rock com alegria e seriedade. Agora eles estão lançando um álbum que traz uma reviravolta

Magdalena Wosinska/The New York Times
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Jeremy Gordon, The New York Times

03 de fevereiro de 2021 | 11h00

Dave Grohl fez tantas coisas ao longo da carreira - tocou bateria no Nirvana, indiscutivelmente a maior banda de sua geração; liderou o Foo Fighters, um dos grupos de maior sucesso das últimas três décadas; lotou o estádio de Wembley, duas vezes; tocou no gramado da Casa Branca; entrevistou o presidente dos Estados Unidos; quebrou a perna durante um show mas foi até o fim; entrou no Hall da Fama do Rock & Roll, com outra honraria provavelmente a caminho; gravou com os dois Beatles vivos; apareceu nos Muppets, também duas vezes - que, quando você pergunta o que ainda falta fazer, ele para um pouco para pensar.

“É uma coisa em que penso todo dia quando acordo”, disse Grohl, 52 anos, durante uma entrevista recente, seus longos cabelos castanhos com mechas grisalhas presos atrás das orelhas. “O que ainda não fizemos? O que podemos fazer hoje?”.

Sem perder o ritmo, ele se lembrou de um momento, anos atrás, quando ele “ainda era bonitão o bastante” para tocar o Super Bowl. Um puro pensamento especulativo para a maioria dos artistas, mas não para ele: “Bom, então vamos ligar para o Super Bowl” foi o próximo passo, ele contou com um sorriso.



As conversas não foram muito longe. Mas quem poderia culpá-lo por imaginar que poderia dar certo - que alguém poderia simplesmente querer tocar no Super Bowl e, alguns telefonemas depois, de fato tocar para 100 milhões de telespectadores? Nos últimos 25 anos, o Foo Fighters tem crescido a firme compasso, deixando de ser o projeto de um homem só para se tornar uma genuína instituição do rock. “É quase como se fôssemos agricultores, e a lavoura continua crescendo”, disse Grohl sobre as conquistas da banda. “Aí nós colhemos e a lavoura cresce um pouco mais, aí nós colhemos e a lavoura cresce um pouco mais”.

Embora sua música tenha partido do espectro que antes era considerado “alternativo”, os Foos se deixaram associar confortavelmente a um estilo de rock pesado e cheio de adrenalina, entregue em shows que geralmente ultrapassam a marca das duas horas. Ainda que esse som tenha permitido à banda construir um negócio lucrativo - sua turnê mundial do álbum Concrete and Gold, de 2017, arrecadou US$ 114 milhões, de acordo com o comércio da indústria Pollstar - o rock não lidera a indústria fonográfica há mais de uma década. A banda não tem um single no Top 40 desde 2007.

No entanto, os Foo Fighters ocupam um espaço raro: uma banda com apelo mainstream, liderada por uma estrela inegavelmente famosa que ainda não se sente um estadista envelhecido. Abençoados com uma energia implacável e uma lista de contatos robusta, eles são chamados sempre que é preciso tocar rock com alegria e seriedade, seja no late-night show de David Letterman, num estrelado tributo a Prince no Grammy, num show beneficente para ajudar músicos afetado pelo coronavírus, no Kennedy Center Honors ou num evento de arrecadação de fundos para a campanha presidencial democrata. Não importa onde os Foo Fighters apareçam: a banda sempre faz sentido.



Pelo menos em parte, isso é resultado da consistência: por estar sempre aí, sem gerar polêmicas, só lançando inúmeros hits com poder de duração, os Foo Fighters ficaram conhecidos por várias gerações. O Nirvana continua sendo uma banda importante para sucessivas gerações de jovens, e Grohl sempre será um de seus integrantes. Mas, se as estrelas do rock de antigamente pareciam ícones inacessíveis, Grohl parece um cara comum, acessível, alguém com quem você realmente poderia tomar uma cerveja. E com o passar dos anos, enquanto muitos de seus colegas morriam ou se afastavam dos holofotes, ele seguiu em frente, sobrevivente de sua antiga banda, de sua era, das sucessivas modas e tendências. Nada disso parece ter diminuído sua infatigável positividade, tudo o que ele canaliza para invocar aquela catarse comunal do rock 'n' roll, sempre que necessário.

Seu novo álbum, Medicine at Midnight, que será lançado na sexta-feira, 6, traz uma reviravolta sutil, mas perceptível. Sem abandonar suas tradicionais guitarras distorcidas e uivos expansivos, os Foos incorporaram funk e ritmos dançantes em suas novas canções, influenciados por artistas como David Bowie e os Rolling Stones, que fizeram o mesmo.

A ironia de lançar um álbum dançante quando a música ao vivo continua indefinidamente adiada não passou despercebida por ninguém, nem mesmo por Grohl, que continua sendo a força motriz criativa da banda. Quando conversamos, ele não mostrou nenhuma vergonha de suas ambições, mas seu jeito amistoso contrasta com foco monomaníaco necessário para ser tão produtivo. Trabalho duro não é uma característica muito associada ao rock, mas os Foos têm feito em média um álbum novo a cada três anos desde o início, e raramente ficam dormentes por mais de alguns meses de cada vez. “Ele não fica preso às próprias ideias”, disse o tecladista Rami Jaffee, que começou a tocar com a banda em 2005 e ingressou como membro permanente em 2017. “O negócio é só avançar a toda velocidade”.

O baterista Taylor Hawkins foi mais direto. “Quero ser a maior banda do mundo”, disse ele. “Não tenho dúvida nenhuma (palavrão), e Dave também não tem. Acho que ele nunca teve”.

 


Sem uma turnê em que embarcar, os Foos iniciaram uma campanha promocional pela internet. Junto com Greg Kurstin, o produtor de Medicine at Midnight, Grohl lançou uma série de covers de músicos judeus, como Drake e Beastie Boys, em homenagem ao Hanucá; ele também enfrentou uma batalha de bateria com Nandi Bushell, baterista britânica de 10 anos de idade; e lançou um perfil no Instagram onde conta algumas histórias engraçadas de sua vida. Já a banda mergulhou em transmissões de lives; e seus integrantes se reuniram na mesma sala para tocar Times Like These e comentar uma apresentação de slides com fotos selecionadas ao longo dos 25 anos da banda. Também há planos de lançar um documentário sobre turnês em vans, e um membro deixou escapar algo sobre um projeto de filme.

A longa jornada de Grohl pela indústria da música começou em meados dos anos 80, quando largou o colégio para tocar bateria na banda de hardcore Scream, em Washington, D.C. Depois que a banda acabou, ele foi convidado para fazer um teste para a vaga de baterista do Nirvana, na época uma banda emergente de Seattle. Não muito depois, o Nirvana gravou e lançou Nevermind, um grande sucesso da indústria que inclinou o eixo do gosto popular em direção ao rock angustiado.

Butch Vig, que produziu Nevermind em 1991, lembrou que Kurt Cobain exaltava Grohl como “o maior baterista do mundo” e se maravilhava com a força de suas batidas no estúdio. “Mas o que mais me impressionava era que ele tinha uma energia incrível - ele trouxe muita vida e poder para a banda, mas também alguma leveza”, disse Vig. “Conforme a banda evoluía e virava um grande sucesso, pude ver Kurt internalizar todo o peso do mundo, e Dave continuou trazendo um senso de humor e uma alegria para tudo o que o Nirvana estava fazendo”.

Depois do suicídio de Cobain, em 1994, Grohl recebeu várias ofertas de outros empregos na bateria, até mesmo uma posição de tempo integral com Tom Petty, mas decidiu seguir seu próprio projeto solo: Foo Fighters, nome derivado de uma expressão usada na Segunda Guerra Mundial para designar Ovnis. Ele acabou tocando todos os instrumentos naquele que se tornaria o álbum de estreia do grupo em 1995 e recrutou o ex-guitarrista do Nirvana Pat Smear, além do baixista Nate Mendel e do baterista William Goldsmith do grupo proto-emo Sunny Day Real Estate, para formar uma banda para a turnê.

Nos anos seguintes, os Foos fizeram turnês e gravaram furiosamente, lançando vários singles que se tornaram sinônimo de rock nas rádios: Everlong, My Hero, Learn to Fly. Apesar do sucesso, havia pouca estabilidade: Goldsmith foi substituído por Hawkins; Smear saiu por causa de pressões da turnê (e voltou em 2005); Mendel quase desistiu também. “Durante muito tempo, cada álbum parecia ser o último”, disse Grohl. Eles quase se separaram durante a gravação do álbum One by One de 2002, durante o qual descartaram o álbum inteiro em meio a uma escalada na tensão interpessoal.

“Foi a primeira vez em que realmente nos deparamos com qualquer tipo de obstáculo”, disse Mendel. Quando a poeira baixou, depois muitas conversas francas, One by One foi regravado com sucesso e recebeu aclamação comercial, e a banda finalmente emergiu como uma unidade estável.

Geralmente, Grohl pede à banda para expandir quaisquer demos e ideias que ele traga para o estúdio, mas, no caso de Medicine at Midnight, seus conceitos foram formados de forma mais completa. “Comecei a pensar em bases, grooves e ritmos, mantendo os grandes refrões que sempre tivemos, mas enquadrando tudo de um jeito que não fosse 200 batidas por minuto, gritando que nem condenado”, disse Grohl.



A vibe lânguida de Shame Shame é uma novidade; o ritmo elástico de Cloudspotter abre mais espaço para as guitarras distorcidas respirarem. Grohl citou Abba várias vezes ao falar sobre seus pontos de referência sonoros, e o baterista Omar Hakim - que tocou em Let’s Dance de Bowie - aparece em várias faixas. “A ideia de ouvir uma de nossas músicas tocando numa festa dançante (palavrão) parecia totalmente irracional, mas depois pensei: ‘Por que não?’”, disse Grohl.

Depois da nossa primeira conversa, a banda realizou mais um feito: show na cerimônia de posse. A conexão com a campanha do presidente Joe Biden começara no outono, quando Grohl, sua mãe, Virginia, e Jill Biden se encontraram numa chamada de Zoom sobre educação (Virginia foi professora de escola pública por 35 anos). Numa convergência de circunstância com oportunidade que funcionou perfeitamente, como as coisas tendem a acontecer com a banda, os Foos também tocaram no Saturday Night Live na noite em que Biden foi declarado o vencedor da eleição - uma apresentação que aconteceu só quatro dias depois do convite.

Para a cerimônia de posse, não havia nenhuma dúvida sobre o que eles iriam tocar: a esperançosa Times Like These, uma faixa lançada há quase 20 anos que perdurou como um hino inflexível e otimista, onde a voz de Grohl vai de terna a trovejante à medida que ele conclama um novo começo. Não importa em que ano a música seja tocada, Times Like These sempre olha para o futuro, imbuída de um espírito de renovação muito parecido com o próprio Grohl. Nas redes sociais, a resposta foi extremamente positiva; mais do que isso, a banda foi saudada como um velho amigo. Mais uma vez, Foo Fighters fazia todo sentido.

Acima de tudo, Grohl mantém uma forte crença no poder unificador da música - na criação de um espaço onde as pessoas possam se juntar e gritar para sentir alguma coisa. Como ele explicou, tudo o que a banda fez e continua fazendo decorre desse propósito muito claro.

 


“Só quero ficar vivo e fazer música, especialmente depois do Nirvana”, disse ele. “Quando Kurt morreu, eu realmente acordei no dia seguinte e me senti muito sortudo por estar vivo e muito triste por alguém ter simplesmente desaparecido. Decidi me valer desse sentimento, pelo resto da minha vida”.

Ao longo de nossas conversas, ele demonstrou saber muito bem o que as pessoas esperam do Foo Fighters, mas não assumiu essa responsabilidade levianamente. “Para mim, a banda sempre representou essa continuação da vida”, acrescentou. “Fomos acusados de ser a banda menos perigosa do mundo, e acho que isso se justifica, de certa forma, porque sei o que é estar naquela outra banda e sei aonde isso pode levar. Não é por isso que faço música. Não é por isso que comecei a fazer música. E não é por isso que ainda faço música”. Afinal, ele já tocou na maior banda do mundo. E por que não tocar de novo?


Tradução de Renato Prelorentzou 

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