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Os desafios e as vitórias de uma orquestra jovem

O repertório que Marin Alsop escolheu já mereceria elogios só pelo fato de ser todo preenchido com obras dos séculos 20 e 21. Mas o concerto da orquestra acadêmica dos bolsistas do Festival de Inverno de Campos do Jordão na manhã de anteontem, na Sala São Paulo, foi muito mais longe.

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2014 | 09h36

As Variações Paganini são um verdadeiro exercício de escuta atenta entre os músicos e o solista, em que os primeiros aprendem na prática que só se obtém uma interpretação de nível se se ouve o outro. E a quinta de Shostakovich expõe e exige demais dos solistas nas várias seções da orquestra.

Até mesmo a inclusão de uma obra contemporânea adocicada demais como a Masquerade de Anna Clyne não conseguiu empanar as duas obras restantes, bem mais ambiciosas. Tanto as Variações Sobre Um Tema de Paganini (1934), de Rachmaninov, quanto a Quinta Sinfonia de Shostakovich (1937) constituem verdadeiros desafios para uma orquestra de estudantes.

Clyne está dando aulas de composição no festival, mas talvez não merecesse ficar só com uma vinheta como esta Masquerade de 5 minutinhos. Dura o tempo que se leva para ler o texto do programa sobre a peça. Para se ter uma ideia da simplicidade de sua escrita, basta dizer que as maiores dificuldades do concerto migraram surpreendentemente para as duas obras “convencionais”.

As Variações Paganini só rivalizam em fama, na produção de Rachmaninov, com o Rach-3, o dificílimo concerto para piano. Mas ela é engenhosa, surpreendente e recheia de armadilhas rítmicas as relações entre solista e orquestra. Compõe-se de 24 variações e uma introdução invertida – ou seja, a obra começa com a primeira variação e só depois o tema original é exposto.

O mundo adora a 18.ª, usada no filme Em Algum Lugar do Passado. Quando estreou, a obra operou o milagre de agradar ao mesmo tempo a um Béla Bartók e ao público em geral.

A orquestração brilhante e fluida, os ritmos incisivos e o piano aparentado ao de Prokofiev constituem desafios gigantescos para uma execução limpa. Aqui a regência claríssima de Alsop construiu ponte segura entre orquestra e o ótimo pianista Boris Giltburg.

A quinta sinfonia é um primor de dissimulação e duplos sentidos de Shostakovich, concordando verbalmente com as críticas do regime, mas discordando violentamente no discurso musical. A regente conseguiu passar esta ambiguidade essencial para o público, o velado entrelaçamento de crítica/sofrimento trágico.

Uma vitória obtida por meio de uma ótima comunicação com os músicos, extraindo o máximo de cada um dos solistas chamados a intervir pelo compositor russo em sua partitura. As madeiras, sobretudo, saíram-se muito bem.

É claro que deslizes ocorreram. Alguns nos metais, um ou outro desencontro nas cordas, hesitações naturais em músicos jovens enfrentando uma obra muito complexa.

No gigantesco crescendo do sombrio tema que abre o Moderato inicial, o clímax ofereceu certo imbróglio sonoro; em compensação, o scherzo, com sua faceta camerística, foi irretocável, assim como o aparentemente plácido Finale, em que retorna o tema sombrio que põe no mesmo copo o sincero travo interior e o conformismo “fake” exterior.

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