Os "bregas" também protestaram

Com a linha dura imposta pelo regime militar, a partir da decretação do Ato Institucional n.º 5, em dezembro de 1968, artistas, músicos e compositores iniciaram uma ação de protesto e combate - foi o tempo de metáforas, imagens truncadas e herméticas, com o objetivo de contornar a censura e manifestar o seu inconformismo com o quadro político-social vigente. Mesmo assim, a reação do regime era violenta.Alguns artistas, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram obrigados a buscar refúgio no exílio. Outros, como Chico Buarque e Gonzaguinha, sofreram uma incansável perseguição dos representantes da censura, que vetavam suas canções por mais despretensiosas que fossem. A tortuosa relação da produção musical e o regime militar rendeu uma série de estudos, mas o pesquisador Paulo César de Araújo notou, indignado, uma falha que considera grave. "O que os analistas nunca ressaltam, ou simplesmente ignoram, é o papel de resistência desempenhado naquele mesmo período por artistas populares como Paulo Sérgio, Odair José, Benito di Paula e, não se surpreenda, a dupla Dom e Ravel", afirma ele que, depois de um minucioso trabalho de pesquisa, escreveu Eu Não Sou Cachorro, Não (462 páginas, R$ 40), que a editora Record lançou recentemente.Araújo, que é professor de história em uma escola de ensino médio no Rio, aponta três importantes aspectos que justificam a atenção ao trabalho desses cantores/compositores. Em primeiro lugar, a mensagem de suas canções: grande parte delas traz a denúncia do autoritarismo e da segregação social existentes no cotidiano brasileiro. Como segundo aspecto, Araújo lembra que o sucesso dos músicos coincide com o período mais sombrio do regime militar, entre 1968 e 1978. E, finalmente, a origem social do público e dos artistas: "Ambos oriundos dos baixos extratos da sociedade e boa parte deles tendo vivenciado uma das grandes mazelas do nosso país, o trabalho infantil", escreve.Durante sete anos, o pesquisador consultou diversos estudos, ouviu centenas de canções e entrevistou 24 pessoas, entre compositores, cantores, produtores, advogados, militares e ex-censores. O resultado foi uma abordagem inédita e original de uma face oculta da indústria fonográfica brasileira que, só entre 1970 e 1976, cresceu 1.375% em faturamento, com a venda de LPs e compactos subindo de 25 milhões para 66 milhões de unidades.Dentre a geração de artistas rotuladas de "cafona" ou "brega" (Araújo prefere "popularesca"), talvez os mais injustiçados, em sua opinião, sejam Dom e Ravel. Intérpretes da canção que liderou o discurso de exaltação das grandezas do governo da revolução (Eu te Amo Meu Brasil), eles lamentaram que outras músicas de seu repertório, que contestavam a mesma ideologia, fossem completamente ignoradas pelos estudiosos.É o caso, por exemplo, de Animais Irracionais, gravada em 1974 e que seria o carro-chefe do novo disco. O que incomodou o governo foi a denúncia da existência de opressores e oprimidos. A primeira parte da letra evoca "a luta dos seres humanos para sobreviver / um grande açoitando um pequeno / terceiros mandando apartar / na maioria das vezes / o grande não quer parar". Em seguida, uma reflexão: "Tem vezes que um desesperado se põe a pensar / Por que ele deve aos pés de um dos grandes se ajoelhar?"Plano - A referência ao autoritarismo e à violência do regime militar convenceu a Divisão de Censura do Departamento da Polícia Federal, em São Paulo, a proibir a execução da música em todo o território nacional. A liberação só foi conseguida em Brasília, por meio de um plano ardiloso de Dom, que articulou uma defesa mirabolante e a fez chegar até a área jurídica da divisão graças à intervenção de um amigo coronel. Segundo ele, a música fazia na verdade uma referência ao problema sofrido pelo povo judeu, de quem se declarava admirador, e não da situação brasileira. "E foi assim que eu consegui a liberação do disco", conta Dom. "Como os censores tinham na época a liberdade de colocar o julgamento deles, eles decidiam e interpretavam da maneira que eles achavam que deviam interpretar."Apelar para a interpretação subjetiva do censor, aliás, tornou-se a principal arma (senão a única) para que músicos e gravadoras evitassem o veto e, por conseguinte, o prejuízo, pois os discos normalmente já estavam prensados. A solução era utilizar o recurso da linguagem de fresta, ou seja, aquela de que se vale o compositor popular para habilmente driblar a censura imposta pelo regime.Foi o que fez o compositor Odair José, que teve vetada a canção A Primeira Noite de um Homem ("Meu desejo era tanto / que eu não sabia por onde começar / o meu corpo esquentava / eu tremia / não conseguia nem falar") por fazer referências aos desejos sexuais - depois de algumas mudanças na letra, que a transformou em uma balada sobre o nervosismo de um jovem em sua primeira relação sexual, e de trocar o título para Noite de Desejos, o músico conseguiu liberá-la sem cortes, em 1974.Odair José, aliás, era um nome conhecido no departamento de censura, especialmente pelo barulho provocado, no ano anterior, por uma canção que se transformou em estrondoso sucesso: Uma Vida Só ou Pare de Tomar a Pílula. A história da canção começou quando o cantor decidiu escrever sobre a pílula anticoncepcional que, na época, já era largamente utilizada. Apesar da dificuldade em encontrar palavras para rimar com "pílula", Odair José inspirou-se em uma conversa com Tom Jobim, que falou sobre o extermínio da vida, para escrever: "Todo dia a gente ama / mas você não quer deixar nascer / o fruto desse amor..." e o refrão: "Pare de tomar a pílula / porque ela não deixa nosso filho nascer / pare de tomar a pílula / pois ela não deixa sua barriga crescer."Gravada e imediatamente lançada em um compacto, a canção alcançou o topo do sucesso na mesma época em que o governo desenvolvia uma campanha de controle de natalidade entre as mulheres de família de baixa renda, empenhando-se em distribuir anticoncepcionais e os dispositivos intra-uterinos (o DIU). O confronto foi inevitável: por considerar a canção uma espécie de conclamação à desobediência civil, o departamento de censura proibiu-a em todo o território nacional. O veto durou até 1979, mas, durante esse período, Odair José era obrigado a cantar a música durante os shows, pressionado pelo público que adorava a canção. E, sempre que isso acontecia, ele acabava conduzido à delegacia local por agentes da polícia federal.A intenção do governo militar era construir uma realidade que deveria ser difundida pelos meios de comunicação, mesmo que implicasse omissões da verdadeira "realidade". Em 1974, Fernando Mendes sofreu a barreira dos generais graças a uma canção de seu segundo disco - Meu Pequeno Amigo -, que focalizava um caso policial polêmico da época, o seqüestro do garoto Carlos Ramirez da Costa, o Carlinhos, ocorrido na noite de 2 de agosto de 1973.Carlinhos, então com 10 anos, assistia à televisão ao lado da mãe quando foi levado de casa sob a ameaça de um revólver de um homem negro de cabelo afro, que deixou um bilhete exigindo um resgate de 100 mil cruzeiros. O pai do garoto esforçou-se para arrumar o dinheiro, mas a negociação nunca aconteceu pois, depois de uma primeira tentativa, não houve mais contato dos seqüestradores e o Caso Carlinhos permanece como um dos maiores mistérios policiais do Brasil.Fernando Mendes tratou do assunto em uma letra triste: "Sem querer você se foi / e hoje choram por você... / ...até as flores do jardim entristeceram / sentiram sua falta / morreram..." O departamento de censura liberou a canção com a ressalva de que se colocasse no subtítulo entre parênteses a informação "Tributo a Carlinhos".Desaparecidos - Quando já era tocada pelas rádios, porém, a música foi proibida. Motivo: em nenhuma das suas estrofes aparece o nome de Carlinhos. Pior: trata de um amigo desaparecido ("Digam pra mim / digam pra mim onde ele está / e o que foi que fizeram / com meu pequeno amigo?") em um momento em que diversas pessoas estavam também "desaparecidas". Segundo o relatório do projeto Brasil: nunca mais, citado pelo pesquisador, é exatamente no período 1973/74 que se registra o maior número de desaparecidos políticos no Brasil. "Assim, a música tocava numa ferida que o regime militar não queria ver exposta pela lente ampliadora da canção popular", escreve Paulo César de Araújo.Pelo mesmo caminho seguiu o bolero Tortura de Amor, que Waldik Soriano gravou em 1974. A música tratava das diferenças entre dois apaixonados, mas o título incomodou a censura, que vetou sua divulgação. "Tortura é uma palavra poética: ´Não me tortura tanto, meu amor... vivo torturado por ti", explicou Soriano, que não conseguiu a liberação da música. "A censura era ignorante, radical e burra."Mas não era apenas com músicas românticas que os compositores popularescos conseguiam demonstrar sua insatisfação com o "momento de exceção". Luiz Ayrão destacava-se dos chamados cantores "cafonas" por ter conquistado um adiantado nível escolar, formando-se em Direito em uma faculdade particular.Assim, suas canções exibiam letras intencionalmente políticas. Em 1977, uma das canções proibidas foi o samba Treze Anos, "um dos mais contundentes protestos produzidos no âmbito da música popular contra o regime ditatorial instalado no Brasil em 1964", afirma Araújo.Treze Anos era a resposta de Luiz Ayrão aos pronunciamentos das autoridades militares que, naquele ano de 1977, saudavam os "13 anos da revolução". A letra dizia: "Treze anos eu te aturo e não agüento mais / não há Cristo que suporte e eu não suporto mais / treze anos me seguro e agora não dá mais / se treze é minha sorte, vai, me deixa em paz."A canção foi vetada e a liberação só veio com uma artimanha de Ayrão, que mudou o título para O Divórcio e mandou o mesmo samba para um outro Departamento de Censura. A composição foi liberada na íntegra e veiculada em todas as rádios.

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