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Os 30 anos da banda punk Ratos de Porão

Tempo de estrada leva uma questão a João Gordo: afinal, valeu a pena?

Carlos Eduardo Oliveira, ESPECIAL PARA O ESTADO

09 de dezembro de 2011 | 22h00

MC da noite, um João Gordo (no RG, João Francisco Benedan) visivelmente satisfeito recebe um a um, no minúsculo palco, todos os integrantes que um dia já passaram por sua banda. Ao seu lado está o guitarrista Jão (João Carlos Esteves), amigo e fiel escudeiro de longa data. Realizado num lotadíssimo Hangar 110, templo do underground paulistano, o show comemorou os 30 anos da banda formada em 1981, na eclosão do movimento punk no país. Os Ratos de Porão, quem diria, assopram em 2011 velinhas por três décadas de punk rock, um feito e tanto - mas quase ninguém fala nisso. "É assim mesmo, já estou acostumado. No Brasil, não nos dão o devido valor. Em qualquer outro lugar, seríamos festejados", dispara Gordo, em tom conformado.

Aos 47 anos, o vocalista e apresentador de TV faz um balanço, da carreira e fala do paradoxo de trabalhar numa emissora mainstream - trocou a MTV pela Record por menor visibilidade - e continuar pilotando uma banda underground por natureza.

Que inventário você faz desses 30 anos na estrada?

Se no início alguém falasse que completaríamos 30 anos, eu chamaria de louco. São 30 anos e mais de 15 discos. Somos famosos no mundo inteiro, temos muitos fãs fanáticos. Na Croácia, neguinho canta Beber até Morrer em português, uma letra que fiz em 1989 sem nenhuma pretensão. Em Roma e Madri sou reconhecido na rua. Em Portugal também nos idolatram. Somos das poucas bandas a reunir várias tribos diferentes num lugar só, seja punk, metaleiro, skatista, skinhead, surfista. Mas aqui no Brasil não dão o valor que merecemos.

Por que acha que é assim?

É cultural, coisa de brasileiro. Sempre foi assim. Agrada mais às pessoas ver você se f... do que se dar bem. Se fôssemos argentinos, seria diferente - lá, eles apoiam a cena local. Aqui todos querem nos ver pelas costas.

Com tantos grandes festivais de rock acontecendo, por que não há bandas como o RDP neles?

Por merecimento, deveríamos estar lá. Mas todos esses eventos grandes tipo SWU e Planeta Terra estão nas mãos de poucos, são sempre os mesmos empresários. Só mudam as bandas brasileiras ruins que eles colocam. Bandas de rock de verdade como nós ficam de fora. O Sepultura, pela bagagem internacional que tem, até consegue furar essa blindagem.

Mas vocês chegaram a ser convidados para se apresentar no último Rock in Rio, não?

Sim, mas quando vimos que praticamente teríamos que pagar para tocar, desistimos. Os gringos ganhando milhões e a gente pagando até estadia?Não dá. Não precisamos disso. Temos nosso público, o Rock in Rio não mudaria nada.

Empresário de rock é confiável?

Não. Eles têm um esquema de trabalho muito f... Como não ganham mais em cima da vendagem dos discos, os produtores mordem o cachê, e a banda fica nas mãos deles. Tipo, "vocês vão tocar pra c..., fazer sucesso, mas 70% do dinheiro é meu."

Vocês excursionaram várias vezes pela Europa. Como eram essas turnês?

Era tudo tosco. Um baque cultural inacreditável. Não tínhamos experiência, éramos um bando de doidos da periferia que nem inglês sabia. Nosso objetivo era fumar e cheirar. Tocar era secundário. Claro, queríamos levar um som, mas não tínhamos nenhuma pretensão. A coisa foi indo e chegou onde chegou. Se alguém falasse naquela época que completaríamos 30 anos, eu chamaria de louco.

Discurso punk ainda faz sentido?

Acho que sim. O punk não morreu basicamente porque é uma das formas de contestação social mais legais que existem. A música é boa, o visual e as roupas são legais. Por isso a molecada gosta. O punk sempre vai se renovar, nunca vai morrer.

E onde fica o engajamento?

Nunca fui engajado. Tenho quase 50 anos e até hoje neguinho me cobra ideologia. Mas minhas letras expressam apenas minha visão de mundo, nunca fui engajado politicamente. Não sou militante de nada e não levanto bandeira de p... nenhuma, a não ser da minha família e dos meus filhos. O resto eu quero que se f... Não sou como esses playboys pseudossocialistas filhinhos e papai que invadiram a USP pra fumar maconha e skank na reitoria.

Mesmo se dedicando à TV, você dizia que a banda era a sua prioridade. Continua sendo?

Hoje nem tanto. Não vou deixar minha família aqui para ficar um mês na farra na Europa, não faz sentido. Se eu tivesse nascido em Portugal, por exemplo, ficaria só na música, não precisaria pegar esse easy money que a TV paga. Esse é um paradoxo bizarro com o qual tenho que conviver: trabalhar em emissora mainstream e ter uma banda underground.

Outro paradoxo é você ter se tornado maior que a banda, não?

Não tenho culpa, apenas segui meu caminho, sem grandes pretensões. Trabalhei 12 anos na MTV e só saí por desentendimento, por bate-boca. Lá não me davam o devido valor. Fui parar na Record, lugar que nunca jamais na minha vida pensei estar.

Justo você, que já criticou a Igreja Universal...

A música se chama Igreja Universal, escrita há 20 anos. Mas hoje em dia, penso o seguinte: não me enchendo o saco, tudo bem. É apenas trabalho. Há uns hipócritas que criticam, "ah, esse cara se vendeu". Mas que idiota recusaria um salário assim? Não vou desperdiçar as oportunidades que a vida me dá por causa de meia dúzia de fracassados. Já recusei cachês de mais de R$ 120 mil pra fazer comerciais, hoje jamais recusaria de novo. Sigo minha vida e f...

Por que trocar a MTV pela Record?

Naquele momento, a MTV estava se dissolvendo. Não aguentava mais, chefias gritando comigo, tesourando meus programas, levando pro lado pessoal. Nem pensei duas vezes, saí para causar. E causei. Deu polêmica. Me chamaram de vendido e o c...

Com a troca, você perdeu visibilidade. Está satisfeito na Record?

Não muito. Estou lá, meu salário cai em dia. Não me cobram nada, mas também não tenho moleza. TV aberta é audiência acima de tudo.

Ainda há quem o chame de ‘traidor do movimento’?

Isso é algo com que tenho que conviver, uns moleques tontos atrás do computador com mamãe pagando tudo. Há também uns tais anarco-punks revoltados que enchem o saco, mas é uma coisa tão remota, tão longe de mim, que nem dou bola.

A BANDA

Boka

O baterista de Santos entrou na banda em 1991. É quem faz as conexões internacionais

Juninho

O baixista, caçula do grupo, nasceu em 1978 e tem trabalhos paralelos como guitarrista

Jão

Guitarrista fundador do grupo (antes mesmo da entrada de João Gordo)

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